Maria Eugénia Neto, viúva do primeiro Presidente de Angola

“Neto nunca deixaria os angolanos sofrer”

Quase 40 anos depois, a viúva de Agostinho Neto não esconde algumas amarguras, como a de sentir que a figura do primeiro Presidente de Angola não seja suficientemente reconhecida. Alimenta a dúvida sobre as circunstâncias da morte de Neto em Moscovo, em 1979. Iliba o fundador da Nação das responsabilidades nos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, mas não perdoa os fraccionistas. Não tem dúvidas de que o país seria diferente se ele se tivesse aguentado na Presidência.

 “Neto nunca deixaria os angolanos sofrer”
Manuel Tomás
Maria Eugénia Neto

Maria Eugénia NetoEscritora, membro do Comité Central do MPLA e Presidente da Fundação António Agostinho Neto

Emociona-me porque é o pai dos meus filhos e meu marido, mas os gestos não vão repor a sua memória e pensamentos.

Como é que conhe­ceu Agostinho Neto?

Conhecemo-nos em Portugal. Vivía­mos na mesma rua, ele fazia parte de um grupo de jovens africanos progressistas, sobretudo angola­nos. Vivia na casa do irmão do camarada Lino Machado. Eu ia à casa deles e comecei a conviver com os africanos. Havia angola­nos, moçambicanos e cabo-ver­dianos. Lembro-me que tinha 16 anos, então comecei a conhecer melhor os problemas dos africa­nos, sobretudo dos que se jun­tavam aos fins-de-semana para conviver e manter encontros polí­ticos. Quando fico noiva, começo a participar mais directamente dos problemas, sobretudo das detenções. Quando foi preso no Porto, ia visitá-lo e levava frutas. A minha tia ajudava a tratar das suas roupas e de outras coisas que ele pedia. Era ela que facilitava a troca de cartas.

 O casamento aconteceu em 1958, mas quase no meu primeiro parto, o da Irene, em Lisboa, foi nova­mente preso por ter sido eleito representante dos jovens das coló­nias portuguesas, afecto ao Movi­mento de Unidade Democrática (MUD). Foi condenado a 18 meses de cadeia, o que mobilizou muitos intelectuais que chegaram a fazer uma petição internacional para a sua libertação. Foi um momento muito difícil.

 Depois da formação, Agosti­nho Neto regressa a Luanda. Fez parte de algum movimento?

Ele chega no dia do seu aniver­sário, junta-se a um grupo de amigos, mas todo o cuidado era pouco, porque podia haver um infiltrado da PIDE. Depois, começou a trabalhar num con­sultório médico. Atendendo que os demais membros e líderes do MINA e do PLUA estavam pre­sos e outros foragidos, ele procu­rou congregar os que estavam em Luanda. Mário Pinto de Andrade delega-lhe poderes para dirigir o movimento, mas exige que fosse através de um congresso e com eleições. Isto veio a acontecer em Kinshasa. Concorreram duas lis­tas, a do camarada Viriato da Cruz e a de Agostinho Neto. Foi assim que ele chega ao poder no MPLA, que é resultado da fusão dos movimentos PLUA, MINA e PCA, que lideravam as activi­dades na clandestinidade. Havia muito racismo. Sendo o Viriato e o Mário mestiços, entenderam meter alguém de pele negra à frente. Mas, depois, todos fugi­mos. Primeiro fomos para Rabat, em Marrocos, depois é que se fez a primeira conferência que dita o  MPLA, em Kinshasa.

 O partido começa com eleições à maneira ocidental, como é que depois vão adoptar a matriz comunista?

 Neto acabou por ceder à pres­são internacional e à dos outros camaradas, que entendiam que o modelo comunista era o melhor. Mesmo assim, ainda acho que, no tempo dele, o partido foi mais democrático. Os assuntos iam às bases. As bases analisavam e depois subiam para a decisão final.

O reconhecimento de figuras como Ilídio Machado, Mário Pinto de Andrade e outros, como Daniel Chipenda, pode mudar a história do partido?

Depende do que querem com estas figuras, mas acho que Chipenda não, porque traiu, apesar de ter trabalhado para o partido. Até trabalhou para a PIDE. Algumas vezes, tentou contactar-me para um encontro, mas não o recebi. Agora arrependo-me, porque dizia que José Eduardo dos Santos pen­sava que Angola era a casa dele. Não sei se é sobre isto que que­ria falar comigo ou outra questão, mas não o recebi porque estava muito furiosa com ele. Quando antes éramos todos amigos e, de repente, aparece como mestre dos ambundos.

 A figura de Neto tem sido devi­damente reconhecida além do que se faz no dia do aniversário?

Não. E como disse o camarada João Lourenço, falar de Neto tinha de ser todos os dias, porque ele é o orientador. Os pensamen­tos dele estão certos. A juventude deve estudar e conhecer o carác­ter humanista e a sua modéstia. Um homem amigo do povo que não se envaideceu mesmo quando esteve no poder. As crianças não têm patriotismo porque não lhes é ensinado na escola. Lembro que uma vez fomos ter com o minis­tro da Educação, para sugerir­mos que se incluísse nos manuais, sobretudo do ensino primário, a vida e obra de Neto, bem como os símbolos nacionais. No tempo do Presidente Neto, as crian­ças tinham muito apoio. Havia um programa ‘Pio-Pio’. Mesmo sem dinheiro, ele preocupava-se muito com as crianças. Chegá­mos a comprar uns livros ali no Inald que estavam a ser feitos pela Unesco. Eram muito caros, mas tivemos de os comprar. A edu­cação e a saúde eram de graça e tinham qualidade.

Mas porque é que não se fala muito dele?

Não sei, na verdade, não só não se fala, também não se faz quase nada sobre. Kaxicane, por exem­plo, está completamente votado ao esquecimento. Um lugar his­tórico que devia ser visitado por muitos turistas e estudantes. Havia uma iniciativa do camarada ‘Loy’ para recuperar os escombros da casa e da escola, mas tudo ficou parado. A última vez que lá estive num óbito, não gostei do que vi. Agora que temos naquele cor­redor o novo aeroporto, seria o melhor momento para se recu­perar a localidade. Países mais pobres fazem alguma coisa para dignificar o local de nascimento dos fundadores da nação. Agosti­nho Neto foi o homem do século 20. Conseguiu libertar a África Austral e, através dos seus poe­mas, galvanizou as pessoas.

O que a fundação tem feito para recuperar não só Kaxicane, mas também a vida e obra de Neto?

 Temos trabalhado com a Unesco e certas personalidades para a divulgação da história de vida de Neto para que as novas gerações saibam quem foi. A última vez que fui a Kaxicane, disseram-me que a localidade tem sido inva­dida pela água que transborda do rio Kwanza e que a barragem de Laúca veio piorar a situação.

A fundação é de utilidade pública. Quanto recebe do OGE? Dá para sustentar os projectos?

 O que recebemos do Orçamento Geral do Estado (OGE) não chega. Estamos abertos a receber outras ajudas, porque temos muita coisa por fazer, sobretudo a edição de livros, a institucionalização do prémio internacional Agostinho Neto, que já vai na segunda edi­ção, no valor de 50 mil dólares, e lançamento da obra premiada, que se consubstancia na inves­tigação histórica de Agostinho Neto e de Angola. O referido pré­mio é co-organizado com o Ins­tituto Afro-brasileiro de Ensino Superior, representado pela Facul­dade Zumbi dos Palmares e tem ainda a participação da Unesco como júri.

A sua elevação a general de ‘qua­tro estrelas’ conforta a família?

Essa elevação acontece, atendendo a um pedido da família, dirigido ao camarada Presidente. Em meu entender, devia ter mais do que quatro estrelas.

Mas é a patente máxima do país...

Sim, mas ele foi líder da luta de libertação nacional, da luta armada e da política nacional e interna­cional. O país não tinha quadros, por isso, ele quase que acabava por fazer tudo e mais alguma coisa. O camarada José Eduardo dos Santos, por exemplo, é daque­les que beneficiou de uma bolsa de estudos, por isso, não partici­pou efectivamente na guerrilha, apesar de fazer parte do EPLA (Exército Popular de Libertação de Angola), que quase não deu em nada. Quando ele voltou, a guerra já tinha terminado.

Que tipo de homenagem a famí­lia gostaria que fosse feita no centenário do seu nascimento?

A fundação está a tratar disso, já propusemos uma comissão. Espe­ramos que o partido, o Governo e a Fundação congreguem a famí­lia, no sentido de definirmos o que deve ser feito no seu cente­nário. Neto morreu jovem e não usufruiu de nada. Emociona-me porque é o pai dos meus filhos e meu marido, mas os gestos não vão repor a sua memória e pen­samentos.

 “Neto nunca deixaria os angolanos sofrer”

RESPEITO PELO MAUSOLÉU

A exoneração de Jomo Fortunato do Memorial tem razão de ser?

Encontrava-me em Lisboa, mas, logo que cheguei, soube que tinha sido exonerado por ter permitido a utilização de bebidas alcoólicas no mausoléu. Aquilo é um cemité­rio, logo, deve haver respeito pela alma que ali repousa. E trata-se do primeiro Presidente da Repú­blica. Por várias vezes, convidei-o a visitar outros mausoléus, mas nunca mostrou interesse. Ape­sar de tudo, ele acatava o que lhe dizia, mas, às vezes, pensam que o regulamento que lá existe é exi­gência da esposa, mas não é. Se não lhe dermos o devido respeito, não vale a pena estar lá. Ele sabia que era proibido o uso de bebidas  alcoólicas. Até mesmo as visitas de estudantes ou crianças devem ser feitas em silêncio. Mas os nos­sos camaradas estão habituados a ‘combas’ e pensam que podem fazer tudo e em qualquer lugar.

 Tem alguma verdade sobre Agos­tinho Neto que não tenha sido revelada?

 Não me lembro, mas tal, como escreve num dos seus poemas, “pus pedras nos alicerces do mundo, mereço um bocado de pão”. Sei apenas que gostava das pessoas e da sua pátria.

Se Agostinho Neto estivesse vivo, teríamos uma Angola diferente?

Claro que teríamos. Basta olhar para os seus pensamentos para compreender o quanto ele amava o seu povo. Por isso, acredito que não deixaria os angolanos sofrer.

 “EXAGERO DA SEGURANÇA”

Porque se associa a morte de Agostinho Neto ao ‘massacre de 27 de Maio’?                   

Havia uma conjuntura interna­cional que pretendia destruir Angola. Do Norte, vinha o Hol­den Roberto apoiado por Mobutu e, do Sul, Jonas Savimbi, apoiado pelos sul-africanos. Pretendiam tomar isto, num natal, através de uma operação denominada ‘cobra’. Por um lado, os fraccionistas ale­gavam que Agostinho Neto não deixava a União Soviética insta­lar aqui as suas bases, bem como a pesca que não estava a ser feita segundo os padrões internacio­nais, o que culminou com o can­celamento da ajuda financeira dos países que também nos for­neciam armamento. É bem pro­vável que tenha havido um certo exagero da parte da segurança do Presidente. A notícia (a do 27 de Maio) tinha sido dada a quente, porque tinham decapitado as FAPLA, com a morte do Saydi Mingas, uma das figuras de con­fiança do presidente Neto. Apesar de não participar destas reuniões, sei que fizeram muita coisa sem a ordem do chefe.

 Disse que Neto foi humanista. O fuzilamento dos ditos frac­cionistas foi uma medida mais acertada?

 Não, mas eles foram julgados e condenados militarmente. O que lhes passou pela cabeça para matarem o Mingas, até porque era um camarada fantástico? Mexeram nos marimbondos e estes soltaram-se e pronto. Sei que, quando apanharam o ‘Nito’ Alves, o último a ser executado, foram pedir ao Presidente que assinasse a ordem de execução e ele não aceitou. O que pressupõe dizer que houve excessos.

 “Neto nunca deixaria os angolanos sofrer”

 As vítimas do ‘27 de Maio’ podiam merecer também uma homenagem?

 Não sei, até porque não sou diri­gente. No meu entender, os fraccio­nistas não têm perdão, mataram o nosso chefe. Apesar de tudo, o Presidente Neto ainda os defendeu.

 DÚVIDAS SOBRE A MORTE

O massacre persistiu quase dois anos, logo depois surge a dita doença que vitimou o presidente..

 Sim, nós, depois de o Presi­dente se ter sentido mal, fomos para a Jugoslávia, mas, depois de alguns dias, pediu que fôsse­mos para Moscovo para se juntar aos outros. Quando lá chegá­mos, ainda comeu bem, a empre­gada ficou tão feliz, lembro que foi uma galinha. Porém, pouco tempo depois vieram buscá-lo para ser operado.

Quem foram os outros que esta­vam em Moscovo?

O camarada José Eduardo dos Santos e Lúcio Lara. Nem me deixaram entrar no bloco ope­ratório. Tanto quanto sei, a pes­soa para ser operada tinha de estar em jejum e, mais tarde, foi dito pelos médicos cubanos que o Presidente não devia ser ope­rado naquelas condições, porque tinha acabado de comer. Ainda questionei os camaradas porque não me chamaram quando viram que a sua vida estava a terminar. Responderam que estava cheio de tubos e que eu não ia aguen­tar. Um dos médicos perguntou quem era a Leda, uma das suas filhas. Há muitas coisas que não estão bem contadas. Depois disso, o corpo tinha de ser embalsa­mado. Pedi que me dessem as vis­tas. O camarada Lúcio Lara disse logo que não havia de dar vistas nenhumas, mas insisti. Deu uma confusão, porque nenhuma pes­soa pode ser embalsamada com as vistas.

Mas porque é que queria as vis­tas?

As vistas são conservadas num outro local e também servem de elemento de prova. Ou seja, segundo os médicos, através das vistas, se pode detectar se tinha havido excesso de anestesia ou outra substância. Até hoje, não se sabe por onde andam as vis­tas. Na altura, reclamei tanto que depois preferi ficar calada para não arranjar problemas.

Se o Presidente fosse para Portugal, por exemplo, não teria morrido?

Acredito que sim. Há pessoas que passam anos com tubos liga­dos no corpo, então, como é que vivem? Um dia, vamos gravar isto em DVD para que o povo e o mundo conheçam a verdadeira história de Neto.

 “ESPERAR...”

As transformações que se regis­tam no país e no partido o que lhe dizem?

Aparentemente, dão um bom sinal, mas vamos esperar que o camarada Presidente João Lou­renço consiga cumprir com o pensamento de Agostinho Neto. Mas, até aqui, viu alguma coisa de melhor? Acredito que não.

O actual presidente do MPLA reiterou que o combate à cor­rupção e à impunidade podia atingir até os militantes do par­tido. A ser verdade, o MPLA não estará em risco?

Acredito que sim. Vivo sozinha há quase 40 anos, mas não vejo aquela camaradagem que nos caracterizava. Os nossos guer­rilheiros, hoje generais, é que deviam manter a ordem e não se deixarem corromper.

Depois de Irene Neto ter sido exonerada de vice-ministra, nenhum dos seus filhos teve car­gos públicos?

Sim. Recentemente, o Mário Jorge foi nomeado administrador não­-executivo da TAAG, mas ficou anos a fio desempregado.

Perfil Maria Eugénia Neto, de 80 anos de idade, é viúva do Presidente António Agostinho Neto, mãe de três filhos e avô de sete netos. É escritora, membro do Comité Central do MPLA e presidente da Fundação António Agostinho Neto

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