Jovens activistas à procura de novas estratégias

Movimento Revolucionário garante não estar adormecido

Os jovens do Movimento Revolucionário prometem voltar aos protestos. Garantem que não se calaram, estão apenas a desenhar outras estratégias. Dizem-se unidos, mas há relatos de traições e zangas. Criticam as políticas de João Lourenço por “apenas limparem a imagem do Governo, enquanto o povo passa fome”.

Movimento Revolucionário garante não  estar adormecido
Mário Mujetes
Dos ‘15+2’ que haviam sido presos e condenados, a maior part

Temos a certeza de que o país vai mudar porque o Japão viveu uma ditadura de quase 60 anos. Mas, desde que a oposição assumiu o poder, o partido que governava quase desapareceu.

A saída de José Eduardo dos Santos do poder não vai inibir as actividades do Movimento Revolucionário (MR) apesar de este ter sido o foco principal das acções daqueles que são apelidados de ‘Revus’. Os activistas prometem continuar a lutar contra o MPLA, até que “os angolanos tenham uma vida digna”, garante, ao NG, Nzuzi Zacarias Mabiala, para quem “recuar não deve ser tido sempre como sinónimo de derrota, mas, às vezes, de redefinir estratégias”.

Dos ‘15+2’ que haviam sido presos e condenados, a maior parte encontra-se no país. Mas outros optaram pelo estrangeiro. Todos, assegura, Mabiala, “continuam unidos e firmes”. No entanto, estudam novas estratégias para atacar o novo Governo. No passado sábado, realizaram uma manifestação para apelar ao ‘’fim da violência policial’’.

O jovem garante ainda que o MR tem vindo a acompanhar as acções do actual executivo o que, segundo ele, requer vigiar incumprimento das promessas eleitorais. “João Lourenço prometeu transformar Benguela numa Califórnia, garantiu gerar 500 mil empregos, passados quase dois anos, é cedo para tirarmos ilações”, afirma, sublinhando que as acções evidenciam que “as coisas não correm bem”.

 “O grau de pobreza está cada vez mais alto, o sistema de justiça continua a privilegiar uns e a prejudicar o filho do pobre e a situação sanitária está mais grave”, analisa.

Nzuzi Mabiala promete, dentro de dias, anunciar futuras acções, rejeitando a ideia do movimento querer ser um partido, apesar de reconhecer que, muitas vezes, é confundido com a oposição. “Temos princípios ideológicos que nos unem à oposição, porque defendemos os mesmos interesses, a dignidade do povo e a democracia”, enfatiza.

Valdemar Domingos, também conhecido por ‘27 de Maio’, defende que as mudanças no Governo “exigem mais calma antes de se contra-atacar” e lembra que, no ano passado, realizaram duas manifestações.

“Estamos aqui para resgatar a dignidade do povo angolano, que nos foi roubada desde Novembro de 1975 pelo MPLA, que se auto-declarou dono do país”, acusa, recordando que Angola já era democrática antes da independência, porque havia vários movimentos de libertação nacional. Para o activista, “a falta de emprego e o débil saneamento básico e dos serviços de saúde contribuem para que o país tenha o maior índice de mortalidade, insuficiência de escolas e fragilidade do sistema de educação”.

De acordo com Valdemar Domingos, a pretensão dos jovens activistas era legalizar o MR como uma associação, mas, desde o início, enfrentam “graves barreiras nas instituições de direito”. Como exemplo, aponta a inviabilização do autoproclamado Parlamento Juvenil, porque alguns jovens do MR estavam ligados ao projecto. “Não nos vamos admirar se um dia o MPLA disser que a Unita e outros partidos com assento parlamentar também são ilegais”, ironiza.

 

Traições

Manuel Jacinto (‘Manu’) é outro jovem insatisfeito com o modo de vida da maior parte dos angolanos. A sua experiência como estudante no Brasil tem servido para reivindicar os seus direitos e de todos os que se sentem marginalizados, mas reconhece algumas mudanças no actual Governo. “Há mais abertura dos média, das pessoas que eram contestadas no anterior governo, por defenderem posições diferentes. Mas, ainda assim, não estamos satisfeitos, porque o que nos interessa é a qualidade de vida dos angolanos”, sustenta, referindo que o MR não pretende alcançar o poder ou ocupar cargos por via de pressão, apesar de ser o sonho de qualquer jovem.

‘Manu’ defende a legalização do MR, porém, considera o sistema “demasiado forte” ao ponto de ter introduzido elementos infiltrados no grupo, que, segundo conta, levavam a informação para as instituições. “A falta de estabilidade financeira da maior parte dos integrantes do MR faz com que haja traições, até porque estamos abertos a todos aqueles que queiram lutar pelo bem-estar dos angolanos”, apela.

Manuel Jacinto não tem dúvidas de que João Lourenço “apenas pretende limpar a imagem do país, para conseguir angariar financiamento do exterior, enquanto as populações continuam esquecidas”. “Por uma chuva miúda, as ruas continuam intransitáveis, há pessoas a morrer, o índice de desemprego subiu, mas o Presidente diz que, em Angola, já não há pobres”, reforça, mostrando-se contra a decisão do Governo que pretende receber os activos das empresas criadas com fundos públicos, calculados em 4,7 mil milhões de dólares, porque, segundo ele, vai agudizar a condição social e económica das famílias que, às vezes, “só têm uma refeição por dia”.

“Não sabemos quais foram os beneficiários dos cerca de quatro mil milhões de kwanzas dos programas Angola Jovem e do BUE, que deviam gerar riqueza e criar mais empregos”, aponta, indignado com a “capacidade da população de se deixar corromper nas campanhas eleitorais”.

“Temos a certeza de que o país vai mudar porque o Japão viveu uma ditadura de quase 60 anos. Mas, desde que a oposição assumiu o poder, o partido que governou os 60 anos quase desapareceu”, sustenta David Salé, para quem as acções do Governo “não passam de mais um teatro”. Por isso, promete ajudar o MR a retomar as manifestações. David Salé avisa que o palco para os protestos vai ser o Palácio da Cidade Alta, para que sejam mais bem ouvidos pelo Presidente da República e para avaliar se “o Governo é mais democrático em relação ao anterior e se respeita o artigo 47 da Constituição”.

 

A luta e a greve

Os 17 activistas, conhecidos como ‘15+2’ no processo que lhes conduziu a um julgamento e à condenação na 14.ª Secção do Tribunal Provincial de Luanda, foram acusados de prepararem um golpe de Estado contra o ex-presidente José Eduardo dos Santos.

Desses 17, 13 tinham sido presos a 20 de Junho de 2015 quando liam o livro ‘Da Ditadura à Democracia’, de Gene Sharp, professor norte-americano de ciências políticas da Universidade de Massachusetts, sobre a luta não-violenta contra governo repressivos.

Os jovens chegaram a ser considerados presos políticos, com a detenção de outros dois activistas mais tarde, enquanto outras duas aguardaram o julgamento em liberdade, tendo desencadeado uma campanha nas redes sociais intitulada ‘Liberdade-Já’. O protesto do ‘revus’ teve o ponto alto e repercussão internacional com a greve de fome, desencadeada por Luaty Beirão e que durou mais de um mês. Entre os jovens que compõem o MR, Domingos da Cruz e Sedrick de Carvalho vivem fora do país. Nicolas Radical sofre de uma doença e precisa de ser tratado no exterior. O MR tem tentado recolher apoios. Nos últimos tempos, Laurinda Gouveia e Rosa Mendes têm aparecido nas redes sociais em acesas discussões, em que entram acusações de serem vítimas de violência doméstica, por parte dos companheiros, também ‘revus’. O Movimento tem sido apoiado por algumas organizações civis, mas que Valdemar Domingos prefere não revelar nomes. Os próprios membros também dão contribuições