FNLA travada pelo MPLA e por cubanos, horas antes da independência

A decisiva batalha de Kifangondo

A independência de Angola, proclamada na madrugada de 11 de Novembro pelo MPLA, esteve por um fio. De um lado, a Unita, apoiada pela África do Sul, tentava capturar Luanda, mas foi rechaçada no rio Ebo. Do outro, a batalha mais decisiva: a do Kifangondo, bem perto da capital. A FNLA, apoiada por extremistas portugueses, sul-africanos e zairenses, quase conquistaram Luanda. É essa batalha que o NG recorda

Miguel  Daniel Miguel Daniel | Emídio Fernando
A decisiva batalha de Kifangondo
Monumento histórico do kifangondo, de Luanda
João Álvaro

João ÁlvaroEx-guerrilheiro do ELNA

A falta de consistência nos ideais fez com que muitos quadros abandonassem o movimento e se filiassem à Unita e ao MPLA.

Antes da proclamação da independência, o MPLA enfrentava duas frentes de guerra que quase mudavam a História de Angola. Uma no Kwanza-Sul, outra em Kifangondo. Esta rechaçou a FNLA. Mas o movimento de Holden Roberto esteve às portas de Luanda a 10 de Novembro de 1975.

João Manuel Álvaro integrou as fileiras do Exército de Libertação Nacional (ELNA), desde os 19 anos. Hoje, com 76, residente no Ambriz, lembra-se da derrota do Kifangondo, considerando que o excesso de zelo de Holden Roberto (líder da FNLA) e  a “falta de consistência nos ideais fez com que muitos quadros abandonassem o movimento e se filiassem e na Unita e no MPLA”, como foi o caso do ex-comandante Tonta Afonso Castro que chefiou o combate. Afecto à 4.ª companhia, João Álvaro, que chegou a ser segurança pessoal de Holden Roberto durante um ano, defende que o líder fundador da FNLA evitou a morte de muitos angolanos, preferindo refugiar-se na República Democrática do Congo (RDC) e, mais tarde, em França. “O meu cunhado morreu naquele combate depois de termos corrido as FAPLA em Caxito. Uma das armas pesadas que tínhamos não chegou a ser utilizada, porque o velho Holden não quis que mais pessoas morressem”, revela, referindo que essa decisão deixou a tropa muito frustrada. Mas não se ficaram por aqui os recuos do líder da FNLA, de acordo com João Álvaro:

“Havia desavenças. Tonta rejeitou as ordens de Holden Roberto, em Kinkuzu, em Kinshasa, porque queria retomar a guerra em Angola, não tendo sido permitido, convenceu os militares sob sua liderança a integrarem as extintas FAPLA”. Por isso, é “tido como traidor na FNLA”.

O guerrilheiro lamenta que, passados 43 anos da independência, os mais velhos ainda não tenham beneficiado de privilégios que os levou a lutar para libertar o país do jugo colonial. Apela ao bom senso do Presidente da República a resolver a questão das pensões dos antigos combatentes do ELNA (antigo exército da FNLA), que, segundo ele, “lutaram mais do que as FAPLA”. Na batalha, a FNLA tinha cerca de três mil homens e pretendia ocupar a Rádio Nacional, aeroporto e a cidade alta.

Zadipumba Carlos também participou da batalha de Kifangondo pela FNLA. Garante que o ELNA chegou a fazer 24 prisioneiros, mas que a destruição da ponte pelas FAPLA, a extensão do pântano entre as margens do rio Zenza e o elevado número de mortes fizeram com que Holden Roberto ordenasse a rendição. Mais de 40 anos depois, o ex-guerrilheiro sente-se desiludido: “Preferia que continuássemos no tempo colonial, visto que até hoje não beneficiamos dos ganhos da independência. O MPLA não tinha bases militares que fossem capazes de lutar contra os portugueses, mas é ele que beneficia de tudo”. Zadipumba Carlos formou-se no centro de treino do Kinkuzo, sob o número 434, mas do Ministério dos Antigos Combatentes só recebeu um certificado de mérito. 

O ministro da Defesa, Salviano de Jesus, considerou recentemente numa palestra dirigida a jovens estudantes que as batalhas de Kifangondo e do Ébo foram determinantes para a proclamação da independência a 11 de Novembro por Agostinho Neto em nome do MPLA. “A batalha de Kifangondo travou o avanço da FNLA, para Luanda, onde pretendia proclamar a independência, mas o derrube da ponte sobre o rio Zenza pelas FAPLA impediu a sua progressão, por ser o único ponto de entrada”, precisou, lembrando que a FNLA tinha também o apoio dos guerrilheiros portugueses sob comando do coronel Santos e Castro.

Na altura, comandante da 2.ª Região Politico-Militar para a artilharia, o general ‘Kianda’, como é conhecido o actual ministro da Defesa, reconhece a supremacia do ELNA. Lembra que o comando da 9.ª Brigada, antes de se fixar em Kifangondo, já tinha recuado em Caxito, “não resistindo ao poderio da FNLA”, mas a pronta intervenção dos cubanos, entre 3 e 10 de Novembro, mudou o curso da guerra nas duas frentes.

O material apreendido na batalha está exposto no museu das Forças Armadas, em Luanda. Constam deste arsenal, armamento de diverso calibre, canhões, baterias e morteiros de longo e curto alcances.

A independência em guerra

Horas antes de ser proclamada a independência, Angola vivia numa guerra civil, iniciada em 1974, quando os três movimentos - MPLA, Unita e FNLA - instalaram-se nas principais cidades. Nem os Acordos de Alvor, assinados em Janeiro de 1975 e que determinaram a formação de um governo de transição, composto pelos três movimentos e um alto-comissário português, conseguiram apaziguar os ânimos. Alvor também decidira que a independência de Angola seria proclama a 11 de Novembro. A FNLA, apoiada por tropas zairenses (hoje pertencentes à República Democrática do Congo (RDC), sul-africanas e portuguesas, tencionava atingir a capital Luanda, para impedir a proclamação da independência. Na noite anterior, ainda espalhava panfletos pela cidade ameaçando tomar a capital à meia-noite, de 10 para 11. O elevado número de baixas militares fez-lhes desistir do combate no dia 10, nas margens do rio Zenza em Kifangondo. A Unita, também apoiada por tropas sul-africanos, ainda do tempo do regime do ‘apartheid’, travava fortes combates no Ebó, no Kwanza-Sul, tendo proclamado a sua independência no Huambo, a efémera República de Angola.

O historiador Alberto Oliveira Pinto lembra que a guerra civil “era inevitável”, porque acontecia no contexto da guerra fria, em que o mundo praticamente se  dividia entre o bloco comunista (União Soviética e Cuba) que apoiavam o MPLA e, por outro lado, o mundo ocidental, liderado pelos Estados Unidos, com a África do Sul e a Europa Ocidental, a apoiarem  a FNLA e a Unita. Por isso, Alberto Oliveira Pinto lembra que a comunidade internacional “não tinha como evitar a guerra entre angolanos porque tinha interesses”. “Todos queriam afastar-se uns dos outros, até a FNLA com a Unita, cuja aliança se desfez a 12 de Novembro, depois de proclamada a independência no Huambo”.  

O exército sul-africano, através da ‘Operação Savana’, pretendia criar uma zona tampão em Angola, para que a Namíbia e países limítrofes não constituíssem uma ameaça para a África do Sul, sobretudo ao seu regime. Do outro lado, a resposta era dada pelas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), braço armado do MPLA, com a ‘Operação Carlota’, apoiada por tropas cubanas. Foram as batalhas mais decisivas da história recente de Angola. “A batalha do Ebo representa a salvaguarda da independência nacional. Depois disso, o exército sul-africano deixa Angola em Março de 1976”, recorda Alberto Oliveira Pinto, sublinhando que se deve dignificar os integrantes da batalha, com realce para o general cubano Raul Jaime Díaz Arguelles, falecido no Ebo, e os generais angolanos Luís Faceira, António Faceira, Beto Traça e ‘Lupuka’.