Angola comemora 56 anos do início da luta armada

Antigos guerrilheiros querem um tratamento especial

Dos mais de 3.123 ex-combatentes do 4 de Fevereiro, apenas 21 sobreviveram. A ‘rainha’ Engrácia Cabenha pede um tratamento especial e mais apoios. O MPLA foi o único que assumiu a acção, por isso tira partido da data.

Antigos guerrilheiros querem um  tratamento especial
Manuel Tomás
Engracia Babenha

Engracia Babenhaa ‘rainha’ do 4 de Fevereiro

Muitos angolanos foram enterrados vivos em valas comuns, como a do Botomona, na região do Quisimeno, em Catete

Angola comemora os 56 anos do início da luta armada a 4 de Fevereiro. Engrácia Cabenha, a única mulher sobrevivente entre os 21 que atacaram as cadeias naquela noite, em 1961, apela por um tratamento especial entre os demais antigos combatentes. A Associação dos Heróis do 4 de Fevereiro tinha 3.123 ex-combatentes que participaram do início da luta armada em 1961. Dias depois dos ataques, os combates evoluíram para todo o país, fazendo milhares de vítimas com realce para o 11 de Fevereiro e 15 Março.

A ‘rainha’ do 4 de Fevereiro tinha apenas 12 anos, mas por causa do sistema de pagamento de impostos, que incidia sobre os rapazes adolescentes, Engrácia viu a sua idade aumentada para 13 anos, passando a ser primogénita, evitando que o irmão mais velho, que acabou por se transformar no General Calunga, fosse taxado.

“Vivia com o meu tio no Rangel, os comandantes contactaram-no e pediram que eu fosse a ‘Rainha’”, conta, lembrando que a condição era ser virgem. Por isso, foi submetida a testes médicos e depois preparada espiritualmente através de orações bíblicas e jejum pelos senhores Fuxi e Augusto Bengui (já falecidos), durante 90 dias, e encarcerada numa casa no local onde é hoje o marco histórico do Cazenga. “Ainda guardo a esteira que dormia e outros pertences ungidos. E quando chega o 4 de Fevereiro e o 11 de Novembro, fico em jejum e volto a dormir na esteira”, revela, sublinhando que a batalha teve o suporte espiritual e lembra que Imperial Santana e Sotomaior tinham sido alertados para não saírem, por isso foram atingidos.

Engrácia Cabenha tem a patente de tenente general. Lembra-se do dia do inicio da luta armada, ficou “dispersa”, tendo-se refugiado na casa de uma senhora que recorda apenas chamar-se Marcela. Mais tarde, foi integrada no grupo que se concentrou na estação dos Musseques, a fim de pegar o comboio que devia seguir para Calomboloca. “Muitos angolanos foram enterrados vivos em valas comuns, como Botomona, na região de Quissomeno, em Catete”, puxa pela memória, considerando que a maioria dos antigos combatentes beneficia de um tratamento especial, mas, “infelizmente”, assegura que a maioria nem casas têm.

Engrácia Cabenha lamenta ainda que os antigos combatentes do 4 de Fevereiro não administrem o marco histórico do Cazenga, com a agravante de terem de solicitar permissão ao administrador municipal, sempre que pretendem realizar uma actividade. “Mesmo sabendo que é um lugar santo, o administrador transformou aquilo num parque de festas”, deplora, acrescentando que nem sequer uma esquina lhes foi reservada. Engrácia Cabenha sugere que deveria ser o Comité 4 de Fevereiro a explorar o recinto. Como isso não acontece, os ex-combatentes dependem apenas dos 23 mil kwanzas de pensão e de um ou outro apoio que recebem de entidades ou pessoas de boa vontade.

“Continuo a lutar, por isso, não me considero antiga combatente. Estas desigualdades devem ser combatidas”, afirma, convicta, aproveitando para criticar “generais que não viveram na carne, as peripécias da luta armada”, mas, segundo a ‘rainha’, são os que gozam de benesses e privilégios.

Passados tantos anos, Engrácia Cabenha está convencida de que as catanas, usadas na altura, chegaram às mãos dos revoltosos, oferecidas por cónego Manuel das Neves e por Neves Bendinha. Seja como for, garante, eram  levadas até a ela e depois ungidas.

 

MPLA, O ÚNICO QUE ASSUMIU O 4 DE FEVEREIRO

O coordenador do Centro de Estudos Africanos (CEA), Nelson Pestana ‘Bonavena’, assegura que o ‘4 de Fevereiro’ “não teve grandes resultados, mas que a acção teve uma dimensão internacional que muda o curso da história da colonização” porque Portugal defendia que Angola não era uma colónia, mas uma província ultramarina e que todos estavam em harmonia.

“O MPLA foi o único movimento que assumiu a acção, por isso tira partido da data. Os demais movimentos não podem reclamar, até porque Holden Roberto, ex-líder da FNLA, rejeitou inclusive o 15 de Março, por achar que a acção podia ter começado do exterior”. Nelson Pestana desmistifica a data e reconhece que “havia envolvimento de todos sem distinção partidária”.

O académico comunga a ideia da ‘rainha’, de que os ataques, uma semana depois, a 11 de Fevereiro, registaram mais vitimas, aludindo que os lideres dos movimentos haviam acordado que a reacção contra os portugueses tivesse lugar no dia do aniversário da Rainha Ginga, como forma de exaltação, mas a chegada do navio ‘Santa Maria” fez com que se alterasse o plano, aproveitando a presença da imprensa estrangeira. “A reacção foi a favor dos presos do processo 50. Mas o maior objectivo era o de acabar com as desigualdades sociais e mostrar ao mundo que havia sim colonização em Angola. Ao contrário do que Portugal defendeu na conferência de Berlim”, sustenta, sublinhando que a luta tinha três dimensões: a política, que, segundo ele, foi alcançada, faltando a psicológica e a socioeconómica.

 

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