Maria da Natividade, a única mulher doutorada em Matemática em Angola

“Só aqui em Angola é que sou incompetente”

Professora de Matemática há mais de 30 anos, Maria da Natividade sente que está a ser vítima de um “boicote” por parte dos estudantes e da direcção da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto (FC/UAN), que a acusam de criar dificuldades aos estudantes. Em entrevista ao NG, a docente desvaloriza as queixas e acusações e garante que tudo acontece por querer implementar reformas e aplicar o regulamento. Revela que já foi convidada a demitir-se e, por se ter recusado, tem sido vítima de ameaças. Única professora doutorada em ciências matemáticas em Angola, jura querer apenas “rigor e melhorar o ensino”, uma situação que tem sido encarada como “má-fé e arrogância” e que já lhe custou o cargo de chefia no departamento na FC/UAN. Secretária de matemática na União Africana e docente de mestrado na Universidade Autónoma de Madrid, lamenta que o próprio país a classifique “incompetente”.

“Só aqui em Angola é que sou incompetente”
Mário Mujetes
Maria da Natividade
Maria da Natividade

Maria da Natividadedoutora em Matemática

Nem estou preocupada em ser chefe, até porque não ganho nada como chefe. Apenas recebo salário base.Nenhum professor, no meu nível, lá fora, leva a vida que levo.

Quando e como começa o ‘tumulto’ com os estudantes na Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto (FC/UAN)?

O que se passa é o seguinte: o regime académico da UAN prevê a prescrição. Ou seja, se o estudante reprova duas vezes na mesma disciplina ou no mesmo ano, entra na condição de prescrito. Deve pedir um exame. Caso reprove, é expulso. Mas isso nunca foi aplicado.

Eles alegam que o problema está com a professora…

Os cabecilhas são, sobretudo, os estudantes do quinto ano, muitos dos quais estão na faculdade desde 2001.

 

Não haverá problema no departamento que os ‘prenda’ para que tal aconteça?

Em 2001, eu nem estava em Angola. Cheguei apenas em 2011. Se se aplicasse o regime de prescrição naquela altura, esses alunos já não estariam na UAN. A maior parte dos departamentos da faculdade não aplica esse regime.

 

Por que razão a acusam de mau comportamento?

Quando assumi a chefia do departamento, apliquei o regime, tal como previsto. A FC/UAN não dispõe de um programa de gestão académica e temos apenas dois funcionários. Decidimos fazer o levantamento. Quando os estudantes se viram na iminência de serem expulsos, começa o tumulto. A lista poderia ter erros. Os prescritos tinham a oportunidade de reclamar. Mas não o fizeram. Nem falaram comigo. Escreveram uma carta a pedir a minha demissão.

 

Mas essa situação ocorreu apenas com a sua disciplina?

Não. É uma situação generalizada. O curso tem 34 disciplinas e não lecciono todas. Aliás, a disciplina em que mais reprovam é Metodologia de Investigação Científica. Em 90, só dois é que passam. E é leccionada por um professor belga, que os alunos também querem ver de fora.

 

Porque não se lhes dá uma oportunidade?

Já houve essa oportunidade. O resultado, no fundo, é o mesmo. Falta preparação. Têm de voltar a estudar.

 

Não será um problema seu?

Penso que não. O problema é que não há especialistas.

 

Não se está a exigir algo que não se dá?

Por isso é que temos todos os professores com boa preparação a leccionar no ciclo básico. Reconheço que muitos chegam ao quarto ano sem preparação nenhuma, mas há alguns bons estudantes. É um problema que deve ser debatido. 

 

As acusações não fazem sentido?

Não! Que influência tenho no resultado de um professor? O resultado é o culminar de um trabalho. O professor dá aulas e avalia. Os alunos devem reclamar quando se vêem injustiçados, mas não o fazem. Apenas quando reprovam. Se tivéssemos de admitir estudantes com 10 em Matemática, não entrariam nem 10 alunos.

 

E porque as salas ficam cheias?

Porque são admitidos alunos com cinco valores só para completar as vagas.

 

Como encara a suspensão?

Não acho justa. Nem sei como está a ser feito o inquérito, uma vez que há uma série de procedimentos que devem ser seguidos, como a correcção de provas, assistência às aulas, para concluir que, de facto, eu não sou boa professora.

Como se apercebeu que estava suspensa?

Pelas redes sociais. Recebi telefonemas de estudantes da Inglaterra e uma amiga de Portugal a dizerem que estava suspensa.

 

Já foi contactada pela comissão de inquérito?

Essa comissão terá de passar pelas salas de todos os professores, uma vez que o problema não é apenas com um professor. As notas estão quase todas negativas, do primeiro ao quinto ano. Têm de voltar a corrigir as provas. Têm de rever os enunciados, se os conteúdos são os que foram exigidos nas provas e se a chave corresponde ao que foi corrigido. Só assim se vai aferir se, de facto, o professor – que sou eu – não serve como se está a dizer. Estou a lutar porque Angola não tem licenciatura em Matemática.

 

Neste momento, como é a relação com os estudantes?

Os inconformados ameaçaram e mobilizaram os outros e há já quase um mês que os do 1.º, 3.º, 4.º e 5.º anos não assistem às minhas aulas. Apenas os do 2.º e os da noite. É normal que se façam inquéritos, mas não admito que me exponham e ridicularizem dessa forma.

 

O que vai acontecer com os que não estão a assistir às aulas?

Têm de arcar com as consequências. As aulas deveriam ser consideradas como dadas. Mas a direcção parece ter outro entendimento. Não sou a melhor, mas tenho prestígio. Fiz um doutoramento numa universidade de alto nível, obtive a melhor classificação. Tenho publicações em revistas internacionais. Quem me ridiculariza dessa forma está a pôr em causa todas essas pessoas. Fui nomeada secretária de Comissão de Matemática em África não é porque sou chefe do departamento na FCUAN. No próximo ano, vou dar aulas num mestrado no Benim e em Espanha. Só aqui em Angola é que sou incompetente. 

 

Como avalia o ensino em Angola?

O problema está na qualidade dos professores, que não têm nível. Por isso é que, desde 2016, estamos a preparar uma superação em Angola e Moçambique, em colaboração com as universidades de Aveiro, de Coimbra, Autónoma de Madrid.

 

Onde estará, então, o problema?

No ensino geral. Está no erro de fazer de conta que se está a trabalhar. O estudante não pode entrar na universidade com cinco valores.

 

Mas esses vêm do superior. Não estará aí o problema?

Também, porque estes é que devem preparar aqueles. O estudante do ISCED, tal como está concebido, não tem preparação para ensinar da 10.ª à 12.ª classe.

 

Porquê?

Quem deve ensinar neste nível é o especialista. A menos que mudem os programas. Uma coisa é didáctica, outra coisa é Matemática. Ninguém dá o que não tem.

 

“Não estou preocupada em ser chefe”

 

Disse que, em Angola, não se aprende Matemática. Como assim?

Dei conta disso quando fui a Madrid. Aqui copiámos e decorámos as demonstrações sem entender o significado. Por isso, decidi, apesar de estar a frequentar o mestrado, assistir às aulas do 4.º ano de licenciatura. Fiquei muito decepcionada com o país e concluí que o que se ensinava em Angola era mentira.

 

Não receia represálias?

Dizer as coisas de forma aberta, às vezes, condena-me. Em Espanha, por exemplo, recebi a visita de um vice-reitor de Angola a anunciar que a UAN iria abrir mestrados em Matemática e queria ajuda. Perguntei-lhe «que mestrados se Angola não tem licenciaturas?» E isso foi um problema. Dei aulas lá na Autónoma. Sei o que digo.

 

E porque deixou?

Em 2009, fui convidada a ficar, mas senti-me na obrigação de regressar. O país pagou-me a formação e tinha de pôr um grão de areia para o desenvolvimento. Enquanto eu fazia o doutoramento, o curso em Angola era gerido por geógrafos. Isso afundou o curso e confundiu os estudantes, que vão aprovando, mas que não estão a licenciar-se.

Como assim?

Alguém formado em Ensino de Matemática não é matemático. Não pode dar aulas no curso de Matemática [na Faculdade de Ciências]. É um erro crasso.

 

Foi a única contestada na FCUAN?

Tivemos um colega que foi doutorar-se na África do Sul. Quando regressou, começou a ter ‘guerras’ por tentar organizar o curso. Não olhou para trás. Lá, hoje, é catedrático de renome internacional.

 

Qual era a razão dessas acusações?

A minha luta sempre foi tirar o pessoal da engenharia geográfica, ir tirando paulatinamente os que fizeram ensino e colocar especialistas e os melhores licenciados.

 

Como ficou o curso com a saída dos não-especialistas?

Iniciaram-se os tumultos. Comecei a leccionar Análise Funcional, que era leccionada por uma vietnamita que, por sinal, foi minha professora. Os estudantes não sabiam o bê-á-bá da Matemática.

 

Não transitavam?

Se não sabiam, não podiam transitar. Foi por isso que a faculdade decidiu que eu tinha de deixar a disciplina. A professora vietnamita, que já estava reformada, voltou e todos aprovaram. Não era a melhor solução, pois iria abrir precedentes. Dessa forma, o aluno pensa que pode decidir quem deve ser o professor. Não pode ser a instituição a baixar ao nível do estudante. As instituições são avaliadas pela qualidade dos estudantes.

 

“a minha vida corre riscos”

 

Como é possível aprovarem com um professor e não com a professora?

Os alunos não entendem porque não têm bases. Vão passando de forma facilitada e, quando encontram um especialista, as coisas tornam-se complicadas.

 

Qual é o sentimento diante de tudo isso?

É de muita tristeza. O primeiro doutor foi-se embora para a África do Sul. Depois do meu doutoramento, decidi voltar, mas…

 

Arrepende-se de ter voltado?

Já me arrependi, mas o resultado de alguns estudantes muito bons fazem não me arrepender. Nem estou preocupada em ser chefe, até porque não ganho nada como chefe. Apenas recebo o salário base. Nenhum professor, no meu nível, lá fora, leva a vida que levo.

O que pensa fazer?

 

Já fui aconselhada e pressionada a demitir-me pela direcção da faculdade, mas não cometi crime nenhum. Como neguei, a vice-decana disse-me que eu tinha perdido toda a minha carreira e que não seria promovida. Já me avisaram até para não dizer certas coisas porque a minha vida corre riscos.

Teme que algo lhe aconteça?

 

Sou cristã, não devia temer, mas somos humanos…

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