Albertino Sebastião, novo reitor da Universidade Técnica de Angola (UTANGA)

“Não é a formação de licenciados que vai garantir o desenvolvimento do país”

Na primeira entrevista, o novo reitor da Universidade Técnica de Angola (UTANGA) apela a que o Estado reavalie as políticas de formação, para “não continuarmos a formar licenciados que objectivamente não servirão ao país”. Empossado na semana passada para um mandato de cinco anos, Albertino Sebastião recusa-se a comentar se a UTANGA está ou não no top três das IES angolanas, mas revela os planos para tornar a instituição “mais atractiva, com um ensino reflexivo e ao serviço das comunidades”.

“Não é a formação de licenciados que vai garantir o desenvolvimento do país”

Como se sente ao tornar-se reitor por nomeação e não por voto dos estudantes e docentes?

Qualquer nomeação, se for na base de critérios técnicos, a entidade eleita deve sentir-se à vontade. Estou aqui como técnico e conhecedor da matéria sobre gestão universitária. Aliás, o projecto de lei que pretende instituir eleições é bem claro: nas instituições de ensino superior (IES) privadas ou público-privadas, as eleições decorrerão nos órgãos colegiais, nomeadamente os conselhos científicos, pedagógicos e na assembleia da universidade. Só nas públicas é que as eleições serão em todos os órgãos de decisão.

O que acha desta proposta de lei?

É prematuro, no contexto actual do país, avançar já para eleições.

Está a falar das IES públicas ou privadas?

No cômputo geral. Precisamos de consolidar a estrutura actual. Haver eleições nas IES públicas novas e que ainda não tiveram o amadurecimento organizacional que permita depois criar a cultura democrática vai ser um pouco complexo. As pessoas têm de estar preparadas.

Quais pessoas?

Os actores do processo eleitoral. As IES também devem estar organizadas. Estamos a atravessar uma fase económica menos boa e as universidades têm uma gritante dificuldade em termos orçamentais. Ao democratizar, sem estarmos devidamente organizados, vamos cair numa situação muito complicada. Não sou pessimista, penso que deverá haver eleições, sim, mas aí uso o conceito do gradualismo (risos)… Tem de se identificar as IES públicas que estão preparadas e cujos actores também o estejam.

Teme que um populista apresente um programa vistoso e, depois de eleito, não consiga materializá-lo?

Pode acontecer. O meu receio está mesmo aí, porque a gestão universitária é uma ciência, tem de se fazer uma gestão técnico-científica. Não podemos ter gestores populistas.

As IES públicas não têm quadros suficientes para evitar isto?

Uma coisa é um elemento preparado que não concorre e outra coisa é um elemento que não está preparado concorrer e vencer. Essa é questão.

Como novo reitor da Universidade Técnica de Angola (UTANGA), que aspecto da gestão anterior, que teve uma liderança de 12 anos, espera corrigir?

A nossa perspectiva não é a correcção de erros. Pretendemos empreender um modelo de gestão que garanta a qualidade e a eleve cada vez mais, o que, evidentemente, nos obrigará a melhorar aquilo que tem de se melhorar.

Pela análise que já fez, o que tem de se melhorar?

Precisamos de ter um número muito bem definido de mestres e doutores virados para o ensino e investigação científica, para a participação activa no desenvolvimento das comunidades e da juventude. Precisamos de um ensino reflexivo, articulado com a investigação científica e a prestação de serviços à comunidade. Também precisamos de introduzir mecanismos técnicos, metódicos e disciplinares nos nossos processos de gestão. É igualmente importante a questão da inovação, não vista apenas na produção do conhecimento tecnológico, mas em todos os sentidos: na forma de pensar, actuar e desenvolver os processos académicos e científicos, articulando tudo isso com as funções essenciais de uma universidade. Por último, a UTANGA tem de ter notoriedade para servir a sociedade, não pode estar a desenvolver projectos e processos com a única intenção de formar.

Nesse contexto de crise e com a ‘vinda’ do Fundo Monetário Internacional (FMI), como vai pôr tudo isso em prática?

Com a entrada do FMI, muitos processos serão disciplinados e desenvolvidos na base da justiça. Então, a disciplina, a justiça e o factor metódico vão ajudar-nos a definir um rumo honesto, transparente e disciplinado.

O Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI) pretende fixar o preço das propinas em 2019. Qual é a sua proposta?

Os preços das propinas deviam obedecer a determinados critérios, tendo como pano de fundo a qualidade. As IES, em função das duas especificidades, podiam ser classificadas em grupos. E, de acordo com o movimento económico da instituição e da avaliação que afere a qualidade desta, a universidade poderia ser colocada num grupo e esse grupo ter para propinas valores mínimos e máximos.

O grupo do topo poderia cobrar até quanto?

É difícil avançar um valor, pois cada projecto é um projecto, tendo os seus custos e desenvolvendo um processo que produz resultados próprios. Tem de se avaliar de forma integrada cada universidade.

Colocando-se no lugar dos estudantes, 50 mil kwanzas seria um bom valor?

Só um estudo, analisando caso a caso, pode definir o que é bom ou mau para as IES e para os estudantes.

 

DEBATE SOBRE A QUALIDADE

Que opinião tem sobre o projecto do Estado de se formarem, a partir de 2022, 33 mil licenciados anualmente?

É importante considerar, num futuro a médio prazo, que as políticas de desenvolvimento do país deverão estar articuladas a uma política muito bem definida das universidades, para não continuarmos a formar licenciados que objectivamente não servirão ao país. Nesta fase, é importante um investimento na formação técnico-profissionalizante. Não é a formação de licenciados que vai garantir exclusivamente o desenvolvimento o país. Temos de considerar que o operário, com formação básica e capacidade, contribui e o técnico médio também contribui.

O secretário de Estado para o Ensino Superior, Eugénio da Silva, critica os reitores das IES privadas por deixarem sair diplomados fracos e por se deixarem levar por “uma lógica economicista e comercial”…

É muito natural que o senhor secretário de Estado tenha essa perspectiva. Não particularizo, dizendo que o público é melhor que o privado. As debilidades que apresentam os estudantes das privadas também se verificam nos estudantes das públicas. É um problema do país. Os reitores, por si só, não vão resolver o problema. Temos de considerar que o sistema de educação do país é um sistema e nós, ensino superior, fazemos parte de um subsistema. Tem de haver articulação entre os diferentes subsistemas, o que não está a acontecer.

A que a “articulação” se refere?

Por exemplo, o estudante que, no ensino médio, estudou Matemática e teve lições sobre derivadas integrais, mas não com a profundidade recomendada, ao chegar à universidade, o docente que o receber deveria estar por dentro dos conteúdos curriculares do nível anterior sobre esta disciplina. Mas não acontece. Em muitos casos, o estudante sai do médio sem ter dado esta matéria e o professor da universidade diz: “devias ter aprendido isto lá”. Deu-se a Reforma Educativa, mas não houve uma ligação com o ensino superior.

Deviam fundir-se os dois ministérios?

Não. Peca-se em as pessoas não se prepararem para o efeito.

Que pessoas?

Os actores que estão por dentro da implementação das políticas públicas sobre a educação.

Na UTANGA, em relação aos estudantes, que novidades trará a sua gestão?

Vamos criar sistemas atractivos, mas não para chamarmos muitos estudantes. A ideia é que os estudantes encontrem na UTANGA um local para desenvolverem os projectos pessoais, permitindo-lhes também definir o perfil como actores contribuintes para o desenvolvimento do país. Por outro lado, queremos que os estudantes encontrem na UTANGA um local para auto-realização, educação e formação como homem e cidadão.

Para entrarem, o que lhes vai exigir?

As médias de acesso não definem nem determinam as competências de um candidato. Na fase em que o país se encontra, vamos criar políticas que orientem o estudante, em função da vocação e do histórico que ele traz dos níveis anteriores.

Coloca a UTANGA entre as três melhores IES de Angola?

Não faço essa classificação. Quem faz essa classificação é a sociedade. O melhor avaliador é a sociedade.

E o que a sociedade tem dito sobre a UTANGA?

As referências que tenho da universidade não são de fora. São referências de um diagnóstico que fiz, mediante um programa próprio, dos processos desenvolvidos aqui na UTANGA e daí definimos uma estratégia para este reitorado.

Especialista em educação

Albertino Candimba Sebastião é doutorado em Educação – Gestão Estratégica e Avaliação Institucional –, pela Universidade Autónoma do Mercosur UAM – UNISAL em convénio com o Instituto Evolução de Fortaleza do Brasil. Mestre também em Educação, na área de Concentração em Supervisão e Orientação Pedagógica, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. É natural do Huambo. De 51 anos, vai desempenhar, nos próximos cinco anos, o cargo de reitor da Universidade Técnica de Angola (UTANGA), em substituição de Vitorino Reis, que esteve na UTANGA durante 12 anos.

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