E agora pergunto eu...

Diz-se que a política é muito feita de jogo político. No entanto, o jogo político a que assistimos cada vez se assemelha mais ao famoso 'jogar xadrez com um pombo'. Reza o dito, também aplicado a discussões com idiotas, que o resultado é que “a ave vai defecar no tabuleiro, vai andar ali às voltas a bicar as peças e depois abrir as asas” cheia de vaidade, tipo já ganhou. Tipo ‘vais assustar já ganhei’ – assim pensa o pombo... A assessoria de estratégia, comunicação e imagem política do partido no poder parece ter adoptado o lema ‘em 2022, vais assustar já está’. E é curioso porque parece implicar que a vitória do MPLA será um ‘susto’ para o eleitor, que é pelo menos a quem se deviam dirigir as comunicações de campanha eleitoral do partido, um susto estranho, já que é o eleitor que elege os seus representantes. Ou será que o susto vai ser da oposição? Nesse caso, o partido está a dirigir a sua comunicação de campanha, não ao eleitor, mas à oposição. É confuso. Mas está longe de ser o único sintoma da confusão que reina nas entranhas do outrora tão coeso e tão cheio de soberba MPLA. E agora pergunto eu: o que sente um militante do M, mestiço, branco, um camarada com duplas nacionalidades, com tons de pele menos bantus e, sobretudo, acostumado a desprezar qualquer menção de qualquer característica acima mencionada como desqualificativo de cidadania? O que estão (são muitos nestas categorias) a sentir, face à nova narrativa adoptada pelo seu partido do coração?

O MPLA tornou legítimo o debate sobre a dupla nacionalidade, e com ele todo o resvalar para a discriminação e xenofobia previsíveis. O resvalar para discussões sobre a cor da pele, liso dos cabelos de genuinidade bantu e afins... Será o lixo que se vai amontoando pela cidade o que está a invadir as mentes e a verborreia dos fazedores da estratégia do partido, ou será o Triunfo dos Porcos, do enorme Orwell, a manifestar-se entre nós? É que antigamente para o M o tema das ‘origens’ era o tema dos que não estudaram, dos que não viajaram, dos frustrados, por isso mesmo dos atrasados, dos ‘da mata’ e que não se podia deixar chegar ao leme da máquina governativa porque iam espalhar o seu tribalismo ignorante e intolerante, inevitavelmente contaminando o país com o seu atraso e, quiçá, num mundo globalizado, condenar a nação ao ostracismo.Mas aquele miserável comunicado sobre Cafunfo, para além de cometer o impropério gravíssimo de se referir à liberdade de imprensa e de manifestação como favores que o partido no poder nos faz a todos e não direitos, assumiu a narrativa da discriminação como arma do tal propalado jogo político. Já se via pela internet coisas abjectas como “Adalberto que vá ser presidente em Portugal”, mas o comunicado veio dizer-nos que essa é a posição oficial do partido liderado por João Lourenço. E imaginar que essa narrativa saiu à rua sem o aval do chefe é pura ingenuidade.

Será este um assunto que se possa desenterrar sem trazer a conversa de bar burlesca para a arena de discussão política nacional e que convida ao exercício mesquinho recíproco da contagem de brancos, mestiços, ‘cafusos’, detentores de duplas nacionalidades, camaradas com filhos nascidos fora do país (porque parar só pela nacionalidade ou cor se estão a produzir meios cidadãos?), tudo agora se torna debate válido no âmbito do jogo político, (esse que só pode ser o do pombo que anda pelo tabuleiro a abrir as asas vitorioso, ‘vai assustar já está’).

Esta narrativa de miséria, paupérrima de argumentos, comprova semelhanças, mais do que diferenças entre os dois principais partidos. E com a mesmice, evidencia a falta de alternativas. Esta narrativa manifesta a perversa inversão em que o outrora inclusivo MPLA se torna discriminatório, enquanto, na escolha de Adalberto, a Unita prova que a conversa das origens não se sobrepõe na escolha de um líder.

Num país com um sistema democrático de facto, com um mínimo de maturidade e o devido respeito à individualidade, à capacidade e autonomia de pensamento, o levantamento de um debate sobre origens e nacionalidade pelo partido mais reconhecido pela sua narrativa de aceitação multiétnica seria mais do que suficiente para uma debandada de cérebros, ofendidos pelo recurso a uma narrativa que o partido sempre caracterizou como subdesenvolvida, atrasada, mentecapta.

Numa realidade democrática normal, ter-se-iam manifestado todos os que lutaram por um partido e por um país livre de qualquer espécie de discriminação étnica, (que disfarcem como quiserem é disto que trata a nova narrativa, de dizer que este não pode ser presidente porque não é angolano genuíno, e depois essa genuinidade é avaliada consoante critérios variáveis sem relevância nenhuma no que toca à capacidade de liderança). Num contexto democrático, o levantamento destes temas feios pelo MPLA seria uma oportunidade de ouro para outras formações políticas atraírem quadros do maioritário e que não se identificassem com o disparate desta narrativa. E que são quadros valiosos, se não instrumentais, para qualquer formação política que ambicione de facto o poder. Particularmente numa altura de proximidade de eleições e particularmente quando temos tido tantos exemplos muito públicos da desunião que já reinava no seio dos camaradas e que só pode aumentar agora que vão ficar a olhar uns para os outros a tentar perceber quem tem dois passaportes, quem é mais ou menos bantu. O partidarismo clubístico que temos é claramente prejudicial ao país que precisa de ser feito de quadros com cabeça mais do que de carneiros disciplinados pela cartilha política do partido. Esta transição de quadros de um partido para outro (fora aqueles exercícios macabros que vemos de vez em quando nos media públicos d’os militantes da Unita que ingressam no MPLA’),  não ocorre por causa do histórico entre os partidos, e que se tornou um passivo inultrapassável. Um camarada, para não dizer jamais, dificilmente se junta aos maninhos.Prefere a aposentadoria (que talvez seja mais dignificante do que ser associado à curraleira em que as novas narrativas vão cada vez mais transformando a arena política nacional). O novo paradigma do poder já fez os camaradas desdizerem todo o amor e devoção profundos que professavam (até à náusea) ao emérito, mas, não satisfeito com esta ridicularização pública, ainda obriga ao absurdo de ver pessoas brancas usarem a clareza de pele alheia como demérito político e de liderança ou desqualificarem-nas pela posse de passaportes que também têm.

“Àh porque a nacionalidade do Obama foi questionada quando concorreu”, -sim foi, mas, pela mesma gente que invadiu agora o Capitólio, por isso nada que valha servir de exemplo. “Ah porque oportunismo”- abdicar de um dos passaportes que mais facilita o trânsito internacional (considerado um dos quatro melhores do mundo em termos de mobilidade pelo ranking internacional Passport Index que coloca o angolano em 62º) para conformar à lei e concorrer à presidência é oportunismo porquê? Teria de ter abdicado depois de a guerra acabar porquê? Alguém inteligente pode acreditar que seria isso um sinal de patriotismo? A que ponto de desespero chegou o outrora grande M...   

Se mais alguma prova fosse necessária de que os partidos que temos já não dão resposta à diversidade de que precisamos hoje em dia e que caracteriza os países desenvolvidos, serve o facto de esse passado entre os partidos constituir uma barreira intransponível absoluta.

Daí que as dificuldades e os empecilhos à criação de novos partidos sejam um obstáculo bem mais grave ao desenvolvimento do que noutros contextos.Temos partidos cheios de maus fígados entre si, com pessoas que trazem querelas do passado com as quais a maioria do eleitorado já não se identifica porque é um eleitorado jovem e sem memória de guerra, e em que o processo de legalização de partidos novos é, (que o diga Abel Chivukuvuku), desencorajador e obstaculizador.

Aqui os quadros com cabeça e coragem para assumir avergonha e o asco da nova narrativa do partido não têm para onde fugir. É quase digno de dó, não fosse o estrago permitido pelo seu silêncio.

Se tudo vale em política, certamente não devia valer.