E agora pergunto eu...

Enquanto por aqui os dignos representantes do povo, com mandato deste, aprovam bónus de Natal para si mesmos, e o presidente aprova despesas adicionais de mais de 7 milhões de USD para a sua secretaria, a actualidade mundial anda dominada pelas vacinas contra o Covid 19 covid que tornou este ano tão bizarro e perguntas não faltam sobre o tema. ‘Quando as vacinas estarão disponíveis para todos?, há algumas na corrida, qual a mais segura? Será que todos devem tomar? Como vão os países pobres poder pagar às farmacêuticas? Como é que vão distribuir as vacinas sendo que a maioria necessita de uma refrigeração constante que nos países quentes e com sérios problemas de fornecimento energético, como o nosso, vai ser um desafio adicional (um que a representante da OMS afirmou estar em estudo)? Mas há mesmo perguntas mais básicas sobre o nível de segurança de uma vacina feita a três pancadas, sob pressão mundial, quando as outras tipicamente levaram décadas a ser desenvolvidas com estudos de efeitos a longo prazo. Perguntas não faltam, mas o Secretário de Estado da Saúde já prometeu vacinas para 6 milhões de angolanos apesar de felizmente e provavelmente graças às medidas de prevenção, o país ter uma taxa de mortalidade por Covid reduzida a 348 mortes. Vale lembrar que a malária este ano já matou mais de 2500 pessoas no país.

Enquanto as mortes por malária não são notícia, a morte que foi notícia no país na semana passada foi a do empresário Segunda Amões, que faço referência aqui, apesar de não ter conhecido, pela comoção sentida que gerou e que é rara entre nós. As reações à morte do empresário fazem várias referências ao investimento que Segunda Amões fez na sua província natal, com a Aldeia Camela Amões cuja lógica de sustentabilidade e dinamização das zonas rurais faz tanta falta no país. “Queremos antes de pensar em lucros velar pelas condições sociais das famílias (...) se a estratégia para a saída da crise passa por apostar na agricultura, este é um conceito viável para se atrair mais força de trabalho para o campo (...) a riqueza do país está no campo” dizia o empresário há cerca de dois anos ao jornal O País, e pergunto-me quantos empresários temos, desses que deixariam saudades pelo reinvestimento nas suas comunidades de origem, pelas preocupações sociais? E agora pergunto eu, que país teríamos se fossem mais a regra do que a excepção estes empresários que se preocupam com o desenvolvimento social e sustentável das suas províncias e que arregaçam as mangas para as desenvolver? Esperemos que o projecto tenha continuidade e que possamos reportá-la no futuro... É que também a media vive o que os ardinas descrevem como ‘morte da imprensa escrita’.

Na última edição do jornal Valor Económico, onde o caríssimo leitor pode sempre encontrar este espaço que pode ouvir na Rádio Essencial, vinha uma excelente reportagem sobre a crise violenta que a imprensa, particularmente a escrita, atravessa. Nesta altura só 3 jornais para além do diário do estado conseguem imprimir com regularidade e as vendas, dizem os ardinas, passaram de perto de 100 por dia para cada para apenas dois ou três, porque cada vez mais angolanos têm de escolher entre comer e comprar jornais. Um ardina lembra dias em que vendeu cinco mil jornais, mas hoje a actividade ficou relegada para quem não tem alternativa de receita sendo que mal chega para viver.

O secretário geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, Teixeira Cândido vê com preocupação o número reduzido de jornais e lembra que antes da independência o país tinha 4 jornais diários. Há dois ou três anos eram impressos mais de uma dezena que foram sucumbindo à crise, aos elevados preços de impressão que são um reflexo de tudo o resto que no país é inflacionado. Mas que foram sucumbindo também a uma incúria, um descuido e mesmo um intuito instruído de uniformizar perspectivas contextuais. Uma intenção que só pode ser danosa para a democracia que temos e mais ainda para a que queremos ter um dia. O jornalismo nacional sofre uma pressão inaceitável e como lembra o director de um dos poucos jornais que ainda consegue imprimir Mariano Bras director do Crime, “a intenção do governo é dificultar”...

Na era da desinformação rápida, da manipulação das fake news, os órgãos de comunicação sérios que observam as regras e deontologia jornalística, que fazem as perguntas incómodas, que fiscalizam a acção com impacto público, são cada vez mais necessários. E a nossa realidade não cessa de andar para trás nesse quesito porque o peso do Estado sobre a liberdade de imprensa é cada vez maior e mais omnipresente com o mesmo a servir-se de acusações de corrupção para tomar conta dos principais meios de comunicação e o partido no poder a criar formas de descoroçoar os poucos que resistem, ‘roubando-lhes’ os profissionais, cortando-lhes publicidade e acesso a fontes. 

Com tanta prioridade pública e numa situação de calamidade, não é realisticamente espectável que seja o Estado a sustentar também a media privada, apesar da sua importância vital para pluralidade, para a saúde e para a higiene sobretudo da política nacional e apesar de em outros países os governos cientes dessa necessidade de higienização terem criado pacotes financeiros de socorro aos meios privados. Mas como se não fosse o panorama negro o suficiente, o problema adicional aqui, é que mesmo os anunciantes privados, que geralmente sustentam a media, vivem receosos de publicitar em meios que fazem o seu trabalho de questionar com seriedade. Preferem aparecer em meios que só existem para exaltar as qualidades do sistema e para enaltecer as qualidades de quem o lidera. Um compromisso com líderes mais do que com o país.

A si querido leitor, os jornalistas, que ficam tantas vezes sem salário e que não perceberam qual foi a novidade de haver salários em atraso na Rádio Despertar ( que se tornou notícia na media pública que parece não se aperceber que esta é uma realidade cada vez mais comum a todas as empresas angolanas), pedem apenas que leia, que oiça e ligue para a rádio para comentar, que compre jornais quando essa compra não ameaçar as contas de casa, que faça subscrições online e que aposte na pluralidade que o país precisa e cada vez mais vai deixando de ter. A morte da imprensa livre é uma que podemos todos evitar.