E agora pergunto eu...

A semana que passou foi marcada pelo diálogo do PR com a juventude numa iniciativa a todos os níveis positiva e bem pensada, que tentou, depois dos desaires nas reacções às manifestações, mudar a imagem de um governo repressivo para um que demonstra abertura. E o presidente ouviu de tudo no que toca às ansiedades dos jovens, por entre o ruído das palmas da sua claque. Desde a falta de água à de emprego, à de universidades e laboratórios, de habitação, e, ouviu mesmo sobre o cansaço generalizado com a liderança do MPLA, depois de quase meio século de governo contínuo e de revelar, principalmente nos últimos tempos pela mão do seu próprio presidente, uma imagem de  fiasco incompetente e com poucas reservas de moral.

O PR disse que “o MPLA não está cansado”, mas os estragos à imagem do seu partido demonstram o contrário, demonstram um partido que dorme nas sessões parlamentares e acorda na hora de levantar o braço para votar como vimos, também na semana passada, em imagens que correram a internet...

O chefe respondeu às questões com o seu estilo do costume, paternalista, militar- boiadeiro (como chamam aos criadores de gado no mesmo Brasil onde dizem “quem é o cara”)... Um estilo que revela um pouco do seu historial como produtor agrícola para além de governante, mas faz pouco por estabelecer empatia ou demonstrar carisma e humildade que tanta falta faz aos servidores públicos, particularmente em momentos difíceis como é o que atravessamos. Um estilo que acentua o choque geracional a que assistimos actualmente, num país em que a população jovem é, de longe, maioritária e é também maioritariamente desempregada e sem perspectivas. Apesar dessas dificuldades intrínsecas, o diálogo durou horas e foi salutar, e o chefe tem razão, “não é só criticar”.

E uma coisa que de facto fez falta no dito diálogo com os jovens foram soluções, ideias, luzes ao fundo do túnel, projectos concretos para melhorar o futuro. E, a propósito de ideias concretas, nem é preciso inventar a roda, basta olhar para os melhores exemplos e ver os que fazem mais falta à nossa realidade.

No hemisfério desenvolvido, e apesar de a covid-19 assombrar as economias de todos, a Escócia tornou-se notícia também na semana passada por se tornar o primeiro país a providenciar acesso universal a produtos menstruais. Esses produtos vão estar disponíveis sobretudo nas escolas e universidades, e isto num país em que apenas uma em cada 10 meninas não tem condições de os adquirir, e falta à escola pelo menos 1 vez por mês por causa da menstruação. No Quénia, foi aprovado um programa semelhante para as escolas públicas em 2017, porque a “menstruação tem um impacto tremendo no acesso, desempenho e dignidade das meninas, muitas faltam à escola durante as regras”.  

A este propósito, lembrei-me de um post online de uma colega jornalista e que dizia o seguinte: “Durante os meus primeiros anos do ensino médio, tive colegas que deixavam de ir às aulas por causa da falta de absorventes. Muitas vezes, usavam toalhas recortadas que não davam para duas horas. Eu, muitas vezes, levava absorventes e sempre tiveram um destino. Em Angola, nas escolas públicas, a compra de absorventes deveria fazer parte das despesas mensais para distribuição gratuita. Nem imaginam o bem que estariam a proporcionar às jovens mulheres." Uma ideia, concreta e que poderia fazer a diferença para milhares de jovens particularmente em Angola, onde 35% da população vive em pobreza extrema e 34% em pobreza moderada. E é uma ideia válida, mais ainda se acompanhada de planeamento familiar e aconselhamento para combater a gravidez precoce, porque as vantagens económicas e os benefícios em cascada do investimento nas meninas é matéria de estudos comprovados. Por cada dólar gasto em planeamento familiar os governos poupam em média 6 dólares em serviços públicos como saúde. Por cada ano que as meninas passam na escola, o potencial de receita aumenta 25%. O Banco Mundial estima, por exemplo, que, na Índia, se mais 1% das meninas finalizasse o ensino secundário, o PIB aumentaria em cinco biliões de dólares. Pergunto-me, o que seria em Angola, que até há bem pouco tempo ocupava o segundo lugar da gravidez precoce na África Subsariana? O investimento nas meninas e no incentivo a que fiquem na escola mais tempo traduz-se em menos natalidade (que temos em excesso), menos gente com fome e menos jovens desempregados e descontentes no futuro. E agora pergunto eu, porque é que este tipo de programa não é prioridade orçamental? Será porque o tema não é tão marketizavel, tão vendável quanto o ‘empreendedorismo’ que anda por aí há tanto tempo a oferecer kits de unhas e de engraxar sapatos com resultados ainda por medir, mas que continuam ano vai, ano vem?

E há mais um incentivo para este investimento no feminino e que foi notícia esta semana e que é o novo índex que mede o tratamento dos governos africanos às meninas e que surge precisamente pelo reconhecimento da necessidade de mudar a realidade das mulheres africanas, para mudar as perspectivas económicas e sociais do continente. Angola está posicionada no vigésimo primeiro lugar num ranking com 52 países em que a realidade dos piores é de uma violência contra as mulheres que é absolutamente castradora de qualquer possibilidade de desenvolvimento. Entre os melhores está Cabo Verde, em 6º; Namíbia, em 7º e a África do Sul, em 3.º, sendo que o mais friendly são as Maurícias. O ranking combina uma leitura da componente legal com a observância do investimento e Angola, a julgar por um ranking sobre a criança africana, sai-se muito bem a nível de regulamentação, porque temos das melhores leis do continente, e depois sai menos bem na prática, em termos de investimento. Continuamos a não priorizar o que é prioridade, como a saúde e a educação, e a despejar dinheiro público em seguranças de Estado e em manter os governantes com condições melhores que a de primeiro mundo para produzirem os resultados de terceiro mundo que continuamos a ter. Continuamos a falar, bem mais do que a fazer bem.