E agora pergunto eu...

A actualidade mundial esteve esta semana absorta nas discussões sobre o diagnóstico de covid-19 do presidente americano. E há discussões essencialmente porque Trump passou imenso tempo a ridicularizar o vírus, a minimizá-lo, como fizeram também Boris Jonhson, no Reino Unido, e Jair Bolsonaro, no Brasil. Há uma espécie de justiça poética nos ‘três da vida airada’ terem apanhado covid-19, porque os exemplos de atropelo à prevenção que deram foram vingados pelo vírus. Não eram eles que gozavam os outros por andarem de máscara, que não queriam fazer prevenção, que não queriam implementar medidas para as pessoas ficarem em casa?

Mas no caso de Trump, como o diagnóstico surge dias depois do debate com o opositor, Joe Biden, muitos começam a ver na sua covid-19, uma estratégia política para evitar futuros debates. É que o debate foi, de facto, muito mau.

Ouviram-se ataques pessoais que transformaram o debate numa verdadeira pocilga, com Trump a interromper constantemente e a chamar ‘cocaíneiro’ ao filho de Biden, e Biden a ter dificuldades em terminar as frases e repetindo, várias vezes, “cala-te, oh homem”, chegando mesmo a chamar o homem mais poderoso do mundo de “palhaço”.

Discussão que ficou tipo Big Brother, se ali tivéssemos a Cardi B e a Nicky Minaj a discutirem talvez saíssem melhores argumentos. E aquele espectáculo triste no bastião da democracia de facto compromete os valores democráticos. Em termos de direccionamento das políticas de Estado, de se saber o que é que os candidatos têm planeado para melhorar o país, quais são as prioridades e como é que vão concretamente atingi-las, não se soube nada.

É claro que aquela miséria de debate politico continua a estar a anos luz do que temos aqui, em que nunca vimos o presidente debater ideias com ninguém, nem o actual e menos o anterior, numa demonstração de desprezo pela necessidade de informar o público sobre algo tão elementar como saberem em quem vão votar e que planos têm para o país.E agora pergunto eu, alguém sabe qual é o plano? Tanto de quem tem o poder como de quem quer ter o poder? Isto, fora frases bonitas como “resolver os problemas do povo”, ou como “primeiro o angolano”, alguém sabe como é que concretamente, com que políticas de facto se pretende atingir o melhoramento do país? É que já diz o ditado, de boas intenções está o inferno cheio...

E preocupa, sabendo nós de toda a dificuldade que a Oposição no nosso país já enfrenta para se fazer ouvir, que quando consegue, vem dizer frases deste tipo, bonitas, mas vazias de conteúdo concreto.

Quando foi entrevistado na rádio Essencial, o candidato Abel Chivukuvuku, que é um dos alvos preferenciais dos ataques pessoais e profissionais sem ética nenhuma dos opositores, quando questionado sobre a inclinação das suas políticas, se de esquerda ou de direita, respondeu algo como “o importante são as pessoas, resolver a pobreza”, etc. Ora, toda a gente sabe que o importante é resolver os problemas das pessoas, dizem todos o mesmo, o que ninguém sabe é como é que ele, que é candidato, pretende fazer isso. E era isso que era importante saber. No caso do PR, não se põe por em causa a necessidade do combate à corrupção, o que está em causa é como é que esse combate é feito e se, primeiro, vai ver de quem se trata, para ver se é para combater ou não. Porque o que se vê é que a corrupção de uns é para punir, mas a de outros não.

O que está em causa não são as boas intenções, disso, mais uma vez, está o inferno cheio. 

A propósito de boas intenções que habitam no inferno, na semana que passou, para além de bolo de aniversário para comemorar um ano de IVA, que deve ser algum recorde de necessidade de festas, foram anunciadas multas para o consumo de bebidas alcoólicas em excesso. E eu, que não bebo, não sinto qualquer simpatia pelo abuso do álcool e sou adepta de políticas que regulem o consumo abusivo. Por causa disso, tenho uma foto no telemóvel, tirada no Namibe, no meio do deserto, quando fui visitar a família na tribo e que mostra aqueles saquinhos odiosos de uísque quase de 50 graus que queimam completamente o fígado, criam vício e que são vendidos assim ao desbarato, para desgraçar ainda mais os pobres, um atentado à saúde pública. Mas multar o consumo, principalmente na nossa realidade, não passa de tentar pôr um penso rápido numa perna amputada, de tentar travar um sintoma ignorando a doença. A nossa polícia que vai multar é a primeira a estar frequentemente intoxicada. Eu já vi muito polícia bêbado. Ora, quem vai multar os que têm a incumbência de multar? Mais uma vez, os nossos governantes tomam decisões, inventam leis sem pensar na aplicação prática das mesmas. Sem pensar na polícia que temos. Gostei de ouvir que os polícias vão voltar para a escola, é uma medida acertada e necessária, e, longe de ser uma vergonha, é um passo concreto no sentido de melhorar, mas a verdade é que hoje ainda temos uma polícia mal-formada. O governo vai ser responsável se, como na ideia infeliz de multarem por causa das máscaras, os polícias começarem também a dar tiros e a matar à toa agora porque acham que o cidadão bebeu de mais. É verdade que o Governo precisa de receitas, mas tem de ver bem onde ir buscar, e esta é uma receita que facilmente vai resvalar para mais atropelos por parte das forças da ordem.

A regulação do consumo de bebida como de tabaco em excesso em todo o mundo faz-se com impostos que encarecem o produto que se quer desincentivar por motivos de saúde pública, e com campanhas de sensibilização para consolidar esse efeito. Antes de inventar decretos e leis novas, temos de olhar para o país que temos e, mais uma vez, usar mais a cabeça do que o músculo.