Agora pergunto eu...

Emmanuel Macron, o jovem francês que foi ele mesmo um furacão político ao tornar-se o mais novo presidente no activo e o quinto mais novo da História, está por um fio, ano e meio depois de ser eleito com mais de 65 por cento dos votos e com elevados índices de popularidade. A França está a ser varrida por quase um mês de protestos de Norte a Sul, alguns violentos, que foram causa de milhares de detenções e até de quatro mortes, além de um custo estimado acima dos mil milhões de euros. Tudo começou com a multiplicação de reclamações contra a subida do custo de vida e o anúncio de uma nova taxa para os combustíveis. Foi a gota que fez entornar o caldo. Macron bem anunciou o cancelamento da dita taxa, aumento do salário mínimo e reduções de impostos, atirou mais de dez mil milhões de euros em paninhos quentes para acalmar a fúria popular, mas o espírito da revolução francesa permanece vivo e agora os manifestantes não se satisfazem com nada menos que a cabeça de Macron, a sua demissão da presidência da República francesa.

Mais a Norte, as águas políticas não estão mais calmas. A primeira-ministra britânica, TheresaMay, tenta desesperadamente ficar à superfície da avalanche Brexit, enquanto todo o seu governo é engolido à sua volta à medida que o acordo de divórcio da União Europeia ameaça ruir e arrastá-la consigo. May, que se tem desdobrado em viagens numa tentativa frenética de arregimentar apoios, viu-se obrigada a adiar a votação parlamentar que sabia que iria condenar o acordo que já lhe deu tanto trabalho a conseguir. Nem o apoio do seu próprio partido é consensual, vários membros do executivo já abandonaram o barco que lhes cheira ir afundar, o vira-casaquismo político é internacional, tudo isto enquanto as grandes multinacionais anunciam a retirada de sedes de uma Inglaterra que deixa de ser europeia e a economia vê o crescimento diminuir à medida que se aproxima a data do divórcio.

No Brasil, Jair Bolsonaro assumiu o leme depois de duas semanas em que se amontoaram denúncias de corrupção perpetrada por ministros do seu novo executivo e de familiares, nomeadamente mulher e filhos. Fez bandeira da luta contra a corrupção, mas tem provavelmente ‘telhados de vidro’. E, nos EUA, DonaldTrump ameaçou dissolver o Senado caso o seu plano de construção do famoso muro seja travado. O que têm em comum Trump, Bolsonaro, as agruras por que passa TheresaMay, emaranhada na teia do Brexit, e as manifestações que ameaçam a presidência de Macron? Têm, querido leitor, a desilusão generalizada com a classe política e com o ‘status quo’ a que nos habituou e a necessidade de inovar (ainda que para pior como provam Trump e Bolsonaro e os populismos vencedores).

Por cá, a actualidade política, bem mais calma, foi marcada por uma boa notícia que foi a aprovação da lei que criminaliza a condução em estado de embriaguez, que sabemos ser a causa de tantas das nossas desgraças quotidianas e de tantas mortes.

Tenho visto comentários de internautas a questionarem uma lei contra bêbados, proposta por muitos conhecidos ‘bebedeiros’ e aprovada por outros tantos amigos do copo. A resistência é expectável, assim como é necessário um período de adaptação e sensibilização para o que é visto com uma normalidade que se torna traço cultural. A bebedeira é vista como um direito adquirido, apesar dos estragos sociais, nas estradas e fora delas, que causa. As consequências da condução sob efeito de álcool estão à vista com a taxa de mortalidade arrasadora que temos. Os acidentes são a segunda causa de morte em Angola e é necessário inverter esse quadro. Contestações à parte, e agora pergunto eu: onde é que se vai prender tanta gente? Pergunto-me se teremos condições físicas de o fazer, apesar da boa vontade política. De boas intenções está o inferno cheio.

A propósito de inferno, a actualidade foi também marcada por mais uma vida perdida às mãos da violência doméstica e da tolerância que lhe é dada entre nós. A manifestação com o mote ‘parem de nos matar’ merece apoio quanto mais não seja porque as mulheres são as primeiras a necessitar de sensibilização para estarem alertas quanto aos sinais de que facilmente se poderão tornar vítimas. Começa devagar o que pode descambar para a tragédia, uma agressão oral, um empurrãozinho, uma sacudidela, um safanão, sinais que vão subindo de tom se não são parados a tempo. Violentar alguém mais fraco é sempre cobardia. E, de modo geral, o próprio sistema social e institucional tem de se consciencializar que atacar os mais fracos, sejam mulheres, crianças, mais velhos, zungueiras indefesas, é crime, e quem o faz é criminoso, seja por que motivo tenha cometido o crime. A reforço do que digo e porque os ditos motivos evocados, sejam ciúmes, sejam por ordem da igreja ou do bruxo ou excesso de zelo, são invariavelmente justificações miseráveis para o injustificável. Além da advogada assassinada pelo marido, uma menina de 13 anos foi morta por uma bala perdida de um polícia que perseguia zungueiras, uma mãe enterrou viva uma bebé de três anos a mando do bruxo e também uma criança de 12 anos foi morta pelo progenitor embriagado por 500 kwanzas. Enfim, injustificáveis...