Agora pergunto eu...

Nas duas últimas semanas, o Presidente da República centralizou todos os holofotes mediáticos, primeiro com mais uma demonstração de força hercúlea e depois com um gesto de abertura e humildade. ‘Uma no cravo e outra na ferradura’, dizem os mais cínicos, que avisam que, se conseguiu convencer JES a largar o poder a seu favor, disfarçando todo o asco que agora lhe demonstra muito publicamente a cada oportunidade, um dia a rir com defensores dos direitos humanos, nada lhe custa.

Digam o que disserem os críticos, que sempre os há, João Lourenço, ao reunir-se com reconhecidos activistas que defendem direitos sistematicamente atropelados, demonstrou ter os pés na terra e uma receptividade, proximidade e preocupação com os diferentes grupos vulneráveis que estes activistas inequivocamente representam, consciencializam e amparam. Atitudes que tanta falta fizeram a JES.

Já a coragem que tanto é gabada e alardeada, pergunto-me se será adjectivo merecido ou tão-pouco adequado, particularmente no que toca à surra que parece ter tomado o gosto de consagrar ao mais velho, sempre tão cheia de plateia a ovacionar. Como dizem os brasileiros (que têm sempre expressões fabulosamente apropriadas a qualquer situação) ‘bater em cachorro morto’ é bem o contrário de demonstração de coragem. É feio. Coragem seria se as posições fossem inversas e o outro fosse o forte em vez de ser o frágil já no chão, ou se fosse no passado em que o outro era endeusado.

Responder a ‘tweets’ de crias é outra coisa desnecessária. Lembra uma enfática passagem de uma música de Dog Murras “denegrir a minha posição, pah”, tornando-se numa espécie de ‘descer do salto’, uma dispensável auto-colocação a um nível bem abaixo do da posição que ocupa. A incongruência de manifestações até aqui absolutamente inéditas, de profunda preocupação com gastos presidenciais com aluguer de aviões de luxo em meio de crise ou mesmo com o ganha-pão de pobres zungueiras, é tão transparente quanto é o vira-casaquismo e a falta de espinha dos muitos que ontem veneravam a ‘clarividência’ e hoje cospem nela. Provocam ambos o mesmo reflexo de vomição crescente à medida que se vão intensificando. Não merece a preocupação presidencial.

Melhor tem feito a primeira-dama, que elegeu para combate um inimigo público real e consensual, o combate à transmissão vertical do vírus VIH. Sendo que, no ano passado, nasceram mais de cinco mil crianças (casos conhecidos) com o vírus, esse é um combate com metas específicas, que queremos todos ver concretizar-se. Além de já ser um exemplo por se destacar pelo profissionalismo e representatividade positiva dentro e fora de portas em instituições nacionais com cargos cimeiros e internacionais tão relevantes como o Banco Mundial (e por fazer da competência a sua marca apesar de ter podido escolher a efémera beleza física), Ana Dias Lourenço faz manchetes pelos melhores motivos. Esperemos que o PR comece a seguir o exemplo e a gerir com os olhos no futuro e com uma atitude púbica proactiva e sobretudo positiva que vai certamente conquistar mais do que demonstrações de força gratuitas.

Não tão debaixo dos holofotes, mas nem por isso de menor importância, foi a manifestação das zungueiras contra a ‘Operação Resgate’. E já muito se disse sobre o tema, incluindo palavras neste espaço do seu NG, que condenam, sobretudo, a inoportunidade da ‘dita cuja’, particularmente num cenário em que, para as visadas, não há alternativas viáveis para o sustento das famílias. As vendas que dão de comer aos filhos não estão nos parcos mercados, desterrados, muitos sem condições básicas, que foram criados para o efeito. Estão mesmo nas ruas. E essa realidade, como acontece em muitas outras, não tem de ser sinónimo de desordem. É preciso seguir os melhores exemplos de entre os que têm realidades culturais semelhantes à nossa. Mas, e não obstante ser evidente a boa intenção que motivou a operação, no que toca a organizar as cidades, promover a limpeza e a ordem (apesar de não ser prioritária perto do sustento de milhares de famílias pobres), e agora pergunto eu: será que JLO não confia de mais na capacidade do Executivo e das várias camadas que o compõem de cumprir as suas ordens sem atropelos? Não está o chefe do Executivo a confiar demasiado no polícia que o representa na rua e que tem uma vida de maus hábitos e de falta de compreensão do seu papel prioritário de servir o povo (além de um salário de fome que só a ‘gasosa’ extorquida compensa)? Este não pensa duas vezes antes de pontapear ou roubar o ganha-pão de uma mãe de família indefesa. Será que não deposita demasiada confiança no discernimento do operacional militar ou polícia que vai buscar estrangeiros ilegais com o fito e foco de os ‘tundar’ sem atropelos, excessos ou violência gratuitas?

Com tanto desafio que o país oferece, de ordem social e económica, há muitos combates que valem muito mais a pena.