Agora pergunto eu...

“Políticos têm de saber ler o povo”.  “A classe política tem de saber interpretar a vontade dos povos”. As frases do PR, proferidas durante a visita a Portugal, país que voltou a estar no topo da lista das amizades a cultivar, depois de se vergar à vontade do Governo (de ver o processo de Manuel Vicente nas mãos da justiça angolana), fazem surgir perguntas naturais.

‘Será que o povo, de facto, alguma vez teve vontade de se ‘cortar minimigo’ com Portugal por causa do caso Manuel Vicente?’ É verdade que o dito caso judicial é manhoso, fruto de questionamentos acerca de imóveis que o ex-Vice-Presidente evidentemente tem dinheiro de sobra para comprar e depois de subornos que deviam envergonhar mais os portugueses do que outra coisa, mesquinharias...

Mas, dito isto, pergunto-me se seria mesmo ‘vontade do povo’ o corte de relações com um país que, apesar da herança histórica cheia de altos de baixos, tem tantas empresas que por aqui vão investindo na economia e criando empregos?

Mais do que isso, e agora pergunto eu: será leitura dos políticos que o povo está mais preocupado com lutas intestinas, caças a marimbondos e afins, do que com ter acesso à água, luz, saneamento, emprego, saúde ou à educação?

Se é esta a leitura da ‘vontade do povo’ que fazem os políticos, que, em vez de tratarem as suas lutas internas as põem na ordem do dia, dentro e fora de portas, então ou não sabem ler a vontade do povo, ou o povo transmite vontades e sinais errados (coisa que deixa dúvidas a avaliar pelas crescentes manifestações um pouco por todo o país a cobrar emprego).

Quer me parecer também que a insistência em demonstrar, fora de portas, que a antiga ‘clarividência do Timoneiro da paz’ era tão oca como a admiração que todos, com raras e oposicionistas excepções, lhe professavam, transmita também a mensagem a potenciais investidores de que este é um país em que se passa de bestial a besta rápido e em que o que é facto ou se diz hoje, amanhã pode não valer nenhum. O mesmo tipo de vira-casaquismo, que um ‘opinion maker’ descreve no Observador português referindo-se àquela classe política em termos como “flic-flac”, “falta de espinha” e “transformação mágica em que o que ontem era maravilhoso hoje é abominável”. O barrete também nos serve.

Voltando ao que de facto importa, acesso à água, luz, saneamento, emprego, saúde ou à educação, querido leitor, essas sim são ‘vontades do povo’ que a classe política tem de saber interpretar e mais do que interpretar, traduzir em realidade. E sobre essas vontades e resultados concretos ouve-se ainda muito pouco.

A saúde está enferma, que o diga a menina que entrou no hospital com um abcesso e saiu com VIH, aliás o combate à doença está nas lonas.

Água, luz e saneamento continuam na mesmice com planos sempre futuros. O padrão dos ‘novos modelos de recolha do lixo’ recentemente re-anunciados não mudou nada, continuam as dívidas às operadoras e a recolha deficiente e esporádica tão perigosa para a saúde do povo cuja vontade a classe política deve saber ler.

Emprego nem vê-lo, segundo as associações de empresários e de sindicatos de trabalhadores, o panorama é cada vez mais desolador com cada vez mais empresas a fechar portas sufocadas pela crise e por um fisco castrador que parece ter acordado agora e no meio de uma recessão profunda, para a necessidade de esmifrar impostos de todos os cantos.

E a educação está como reflecte o relatório tenebroso de uma amostra vinda da Huíla e de que lhe fala o seu NG desta semana nas páginas dedicadas a este sector fulcral para o presente e futuro do país. Quase metade das crianças do ensino primário na 4.ª classe não sabe ler, apenas 11 por cento escreve correctamente, “há uma preocupante ausência e falta de pontualidade dos professores, muitos sem agregação pedagógica e formação específica e o ambiente de aprendizagem não é satisfatório”.

Os problemas persistem. Há, como sempre houve, discursos bonitos, planos fantásticos, mas a execução está, como sempre esteve, ‘gato’, ou se preferir, querido leitor, ‘marimbondo’. É que o resultado não muda com a mudança de bicho.