Agora Pergunto eu...

A saga ‘quem os viu e quem os vê’ continua a marcar a actualidade.

E continua, ultrapassando bem a esfera dos poderosos caídos em desgraça e condenados em praça pública por crimes que ainda não houve tempo para provar terem cometido. Continua, ultrapassando a esfera dos vira-casacas que ontem não sabiam senão enaltecer a “clarividência do timoneiro da paz” e hoje cospem vitupérios à menção do mesmo. Continua até assistirmos a líderes da oposição a assumirem um papel protector da imagem, dos feitos positivos e do legado de José Eduardo dos Santos.

Pasme-se como no espaço de meses o contexto e a realidade sofrem metamorfoses. Como é tudo o que parece sólido, tão efémero e volátil no que toca ao estado de espírito dos homens.

Isaías Samakuva, líder da oposição, sentiu-se motivado a lembrar que “a dimensão histórica e heróica dos homens que fazem a História das Nações não deve ser amputada nem eclipsada pelos aspectos menos positivos da sua dimensão humana”, referindo-se a um JES que considera “um patriota que deu o melhor de si”. É, no mínimo, uma inversão de papéis tão inimaginável que parece saída de uma obra literária das mais fantasiosas. Caber a David Mendes, deputado independente da oposição, sempre tão acérrimo crítico da governação de JES, o papel de voz reprovadora, quase isolada, do que classifica como “vingança e pressão política na cruzada contra a corrupção”, é irónico.  Ouvi-lo falar em “humilhação” do antecessor com moldes de atropelamento das “regras do Estado de Direito”, lembrar que “as perseguições não dão estabilidade” e que “todo o mundo agradece que Angola teve uma transição pacífica” causa um pasmo que só as mentes mais criativas da literatura ao nível de Kafka poderiam imaginar.

E agora pergunto eu, querido leitor: poderia JES algum dia conceber a mudez do seu outrora infinito séquito de correligionários ou a defesa por parte destes improváveis, ante o que David Mendes descreve como ‘perseguição e humilhação’?

A realidade, no entanto, consegue frequentemente ultrapassar a ficção.

Hoje mesmo li que o líder da Coreia do Norte, Kim Jun Li, e o seu homólogo dos EUA (que na semana passada foi alvo da risota geral durante o discurso nas Nações Unidas), Donald Trump, estarão entre os nomes que a Academia Nobel está a considerar para o prémio da paz este ano. Há coisa de um ano, os dois trocavam insultos (Trump chamou ao norte-coreano “baixinho gordinho”) e ameaças de “fogo e fúria” que puseram o planeta em alvoroço, temerário de uma terceira guerra mundial. Como tudo pode mudar no espaço de meses.

A bem dizer, o prémio seria melhor atribuído a estes dois, que pelo menos de facto fizeram um esforço visível, do que foi a Obama, cuja administração, longe de conseguir qualquer paz duradoura, ainda fomentou algumas guerras e bagunças fora de portas, essas sim duram até hoje. A Líbia continua entregue a lutas intestinas fraccionárias e nunca mais viu paz desde a famigerada “primavera árabe” que os EUA, sob a sua batuta e de Hillary Clinton, patrocinaram. 

Voltando ao país real, que segue inafectado pela trica política, e a propósito de prémio Nobel, prémio seria merecido aos médicos que enfrentam a falta de condições, a violência psicológica diária da morte evitável e massiva de doentes por falta de tudo um pouco e a exposição a doenças contagiosas em níveis de predominância tal que não podem senão ser altamente comprometedores para a sua própria saúde.

O presidente do Sindicato Nacional de Médicos Angolanos foi peremptório ao apontar, ao NG, a relação entre a falta de condições nos hospitais públicos e a queda acentuada da saúde física e psicológica do pessoal médico, um factor que, por sua vez, concorre para comprometer a qualidade do serviço essencial que prestam. Médicos de serviço com médias de turnos de 32 horas a atender mais de 41 doentes por dia só pode ser receita para um cenário de tragédia, pejado de erros médicos, de perda de sensibilidade para com doentes que dela precisam como de pão para a boca e para o sofrimento genérico de profissionais, bem como de quem a eles é obrigado a recorrer.

Aqui está uma realidade que muito infelizmente, e contrariamente ao que acontece na política, não é possível mudar ou inverter do dia para a noite. Na saúde, o que vimos continua teimosamente a ser o que vemos e não dá sinal de inversão.