Agora pergunto eu...

A visita do primeiro-ministro português, António Costa, a Luanda motivou muitas análises em torno da reparação das ligações politico-económicas luso-angolanas. A meio de tantas leituras, que maioritariamente classificam o encontro como “único” ou até como “histórico”, uma foi particularmente interessante, porque coincide com o outro assunto que marcou a actualidade económica nacional: a polémica entrevista do ex-homem forte do também ex-Besa à TPA e a respectiva reacção dos accionistas e do Banco Central. Entrevista em que Álvaro Sobrinho disse que o banco não estava falido, pelo contrário, tinha lucros e que a sua falência foi uma decisão política.

A análise, na SIC, do português José Gomes Ferreira (JGF) pôs o dedo na verdadeira ferida, falando do ‘elefante na loja de porcelana’ que parecemos todos ignorar, enquanto nos distraímos ora com as calças de ganga com que António Costa aterrou em Luanda ou, antes disso, com o braço-de-ferro entre JLo e a justiça portuguesa que teimava em tentar fincar pé numa autonomia do poder político (que ficou provada não existir).

JGF começou por tocar no ‘irritante’ de Manuel Vicente por insistência da jornalista, mas tratou de relativizar o tema, colocando-o como secundário face ao verdadeiro problema para as relações de Portugal com a sua histórica ‘almofada’ anti-crise, sempre receptácula da massa desempregada, que Portugal ciclicamente tem de enviar para fora de portas - uma Angola de cofres vazios. Crise de tal ordem que inclusive impede o pagamento às empresas portuguesas em Angola e o repatriamento de dividendos das mesmas para Portugal, este sim um verdadeiro “irritante”.

O comentador sublinhou a necessidade de o cidadão comum perceber que a crise que Angola vive começa, quando, a nível dos bancos centrais, a idoneidade do nosso BNA é posta em causa pela manifesta incapacidade de pôr a casa em ordem e garantir que o sistema financeiro cumpra as normas internacionais a que está obrigado pela integração global. JGF explica que não acontece por iniciativa portuguesa (convenhamos que nem podia acontecer porque Portugal sempre beneficiou das fugas de capital saído por portas e travessas de Angola). A ordem de ostracização do BNA veio ‘de cima’, dos norte-americanos ao Banco Central Europeu, e deste ao banco central português que tratou de instruir os bancos com exposição a Angola. Por causa da dívida do Besa para com o BES, fruto das ofertas de crédito às figuras do regime que se tornaram praticamente irrecuperáveis (e ao alegado desaparecimento de avultadas somas para contas pessoais do então PCA que agora vem “criar emprego”), soou o alerta de que os bancos angolanos estariam pejados de dívidas igualmente irrecuperáveis por créditos sem garantias ou com bases especulativas e irrealistas de valorização futura que não se viria a confirmar. A banca nacional tornou-se terreno minado aos olhos da banca internacional. Os norte-americanos deram o exemplo ao retirar as suas instituições bancárias do país e com essa retirada a circulação de dólares secou.

A crise dos dólares, que continua a partir uma economia que importa quase tudo o que consome, começa verdadeiramente aí. Segundo o regulador do país mais poderoso do mundo, o BNA perdeu o estatuto de regulador equivalente, passando a ‘caxico que não faz o seu trabalho’. E acompanhado de tudo isto vem, como não podia deixar de ser, uma forte desvalorização creditícia e com ela vêm os juros elevadíssimos que, grosso modo, fazem com que, se os outros pagam cinco por cento por um empréstimo ou menos, nós paguemos pelo mesmo aí 30 ou 40 por cento ou mais. E só quando arranjamos a custo quem esteja disposto a emprestar, visto que todos ‘nos olham mal’, e em condições mais ‘stressantes’ (como menos período de mora) que efectivamente ajudam a secar os cofres públicos e a asfixiar a economia.

Pergunto-me se o caso Besa, independentemente de quem terá razão, Álvaro Sobrinho ou os accionistas e o BNA, será suficientemente percebido neste contexto, na sua real dimensão e efeitos de contágio e tendo em conta as consequências mais alargadas para a economia nacional

E agora pergunto eu: perto de problemas sérios, como perder o acesso a divisas e ao crédito acessível e à reputação económico-financeira, os ‘irritantes’ nas relações têm relevância? A verdadeira e urgente questão aqui é como inverter o quadro que nos coloca tão mal vistos lá fora. O PR desdobra-se em viagens e em medidas que sinalizam compromisso com a seriedade e o cumprimento de regras. Mas será isso relevante para um sistema financeiro internacional que lucra com a desvalorização alheia (quanto mais sufocados mais receptivos