Agora pergunto eu...

O seu companheiro das quintas-feiras conta-lhe esta semana que as queixas de violações a menores têm aumentado. Seria melhor notícia caso o número de reportes estivesse sequer perto do que deverá ser a realidade de um crime que instila o medo, o estigma e a vergonha. Conta-lhe que mais de 300 mil famílias podem perder o apoio na próxima campanha agrícola, e conta-lhe, querido leitor, sobre um projecto que vale a pena apoiar, que, no meio de tantas carências, arregaça as mangas e consegue prestar apoio concreto a crianças e adolescentes com cancro e às suas famílias. No entanto, esta semana, ‘só dá’ congresso do MPLA.

O Presidente da República, e agora presidente do maior partido do país, fez mais um discurso de arromba e acrescentou à sua lista de batalhas liderada, pela corrupção, o nepotismo, a impunidade e a grande novidade – a bajulação.

Fez mais, disse que o seu partido deve deixar de estar virado para si mesmo, que o ingresso na vida partidária deve deixar de ser motivado pela ambição de cargo público (se esta instrução fosse seguida à letra iriam ficar poucos camaradas), que o cartão de membro do partido não pode ser sinónimo de acessos privilegiados, e, entre outras coisas, disse que os membros do MPLA devem trabalhar não para si mesmos, mas para o povo. Com a firmeza que o vai caracterizando, pediu ajuda aos camaradas no combate ao que chamou ‘inimigos públicos’, nomeadamente a corrupção, o nepotismo, a impunidade e, agora,  a bajulação.

A inclusão da bajulação nesta lista agradou de tal maneira à opinião pública que não faltaram manifestações um pouco por todo o lado e de todos os quadrantes. ‘Online’, surgiram enxurradas de mensagens a condenar a bajulação e a elogiar o chefe sábio que se rodeia de quem não bajula e, pelo contrário, tem a coragem de apontar os erros.

A bajulação e a sua veemente condenação tornaram-se ordem do dia. Num repente, passou de escada para ‘subir’, tão natural que se tornava segunda pele, a tão abjecta, que o discurso condenatório mereceu ovação de pé de uma nuvem vermelha e preta. Pergunto-me se não composta em grande parte por bajuladores, que não sabendo ser outra coisa qualquer, batem palmas, ululam e concorrem para ver quem festeja de forma mais sonora, até o anúncio de que passam a engrossar a lista das ‘personas non gratas’ do novo paradigma liderado por João Lourenço (que vai extensa).

A perspectiva do fim do culto de personalidade que marcou a era de JES, e de que JLo já deu vários sinais de sentir repulsa, do fim das paradas, das fanfarras, das homenagens, das prestações de vassalagem, dos torneios de homenagem, das festas de aniversário de parar o país, da oferta de prémios (pergunto-me onde teria JES espaço para meter tanto cacareco que recebia e que provavelmente só por delicadeza não recusava), das glórias e hossanas ao chefe, que tanto tempo, dinheiro e energia desperdiçavam, é deveras uma perspectiva feliz. Mas a imagem de ‘bajus’ a aplaudirem efusivamente um discurso musculado contra si mesmos lembra outros paradoxos da política contemporânea...

Há vários. Como vermos, por exemplo, um candidato como o brasileiro de extrema-direita, Bolsonaro, confesso adepto da ditadura, xenófobo, sexista, homofóbico, usar o sistema democrático (que não devia ser mais do que o respeito ao voto da maioria) para chegar ao poder e, muito provavelmente, pôr em risco a mesma democracia que o elegeu. Num contexto em que a primeira escolha da maioria, a mais popular, está impedida de concorrer.

Voltando a nós e à bajulação, pergunto-me se na maioria dos casos o ‘baju’ sequer sabe que o é. Lembra o devoto que, por tudo e por nada, cita a bíblia, mas que, fora dos ambientes da igreja ou seita que frequenta, é maledicente, bate na mulher e nos filhos, destrata quem puder, tudo considerando-se ímpio.

E agora pergunto eu: se todos batem palmas fervorosamente em sinal de que a carapuça não serviu, onde andam os bajuladores que tornam a bajulação tão endémica e tão problemática para a imagem e para o desenvolvimento do país? Desapareceram por magia?

Se desapareceram por magia, teria toda a utilidade pública a utilização da mesma potente magia para fazer também desaparecer problemas como a dívida pública que onera de forma tão insustentável o Estado, que não resta alternativa senão chamar o FMI para emprestar dinheiro à custa da soberania económica e social do país. Ou para fazer desaparecer problemas como as doenças que parecem ter, ao contrário dos ‘bajus’ desaparecidos, reforçado a sua presença de modo que se vai tornando difícil encontrar famílias sem dois ou três membros seriamente doentes ou idos por força de infecções e ataques que nem sabemos identificar... Magia precisa-se, se existe, que nos seja útil.