Agora pergunto eu...

E agora pergunto eu: que necessidade é essa que tem o Governo de procurar sarna para se coçar? De andar a fomentar conflitos desnecessários? De, literalmente, desenterrar problemas como se houvesse falta deles? Primeiro, foi o anúncio de que o Governo (o mesmo que encontrou os cofres vazios) ia ressarcir as famílias das vítimas do ‘27 de Maio’, uma tarefa hercúlea a que não se conhece princípio ou fim, porque há coisas a que não se atribuem preços e depois porque até hoje não se começou sequer a contabilizar as vítimas dessa catástrofe. Depois, foram mexer com as ossadas do ícone da UNITA, com o resultado expectável de contribuir para o reforço e união do partido da oposição e de criar uma confusão sinistra em que ninguém fica bem na foto, com excepção da família cujos desejos foram atropelados pelas agendas e contra-agendas políticas. Não satisfeito, agora, a propósito da visita do ministro da Defesa português, anuncia que “os governos,  angolano e português, iniciaram contactos para honrar os soldados portugueses que morreram em Angola durante a guerra colonial”.

OKO, então e os vivos, senhores governantes?  

Não obstante de temas como o ‘27 de Maio’ necessitarem de atenção da sociedade para que a História e os erros cometidos não sejam esquecidos, a prioridade do Governo, em vez de andar a fazer fintas com os ossos alheios ou prometer ressarcir o que é impossível ressarcir, devia ser não deixar morrer à fome e sede os vivos. Os vivos e as suas crianças vivas por um fio no Cunene, por exemplo, ou como lhe conta o seu NG no texto sobre os centros de hemodiálise esta semana, por falta de medicamentos nas variadas unidades de saúde pública.

É verdade que não se pode deixar morrer a História e que temos de a honrar para, quanto mais não seja, nos servir de ensinamento presente e futuro. Os historiadores têm aqui uma responsabilidade pública acrescida de correr a registar essa História para que ela não se esfume do meio de nós e não se perca (fica o recado para o editor deste seu companheiro das quintas-feiras).

De resto, querido leitor, aprender com os erros do passado é uma dificuldade humana universal. Partilhei um vídeo ‘online’ que lembra isso mesmo em que se vê uma mulher, numa conferência de imprensa em que o conselheiro do presidente Donald Trump defendia a guerra com o Irão, ridicularizar a política externa dos EUA. Porque, não só não aprende com os erros cometidos no Iraque, invadido com a desculpa de que tinha armas, como escolhe ignorar todos os outros aliados que não querem guerras, para fazer valer a vontade de alguns como a Arábia Saudita, fazendo ‘vista grossa’ ao registo de direitos humanos, nesse caso, a troco de negociatas petrolíferas. A política sempre com os seus dois pesos e duas medidas de acordo com os seus interesses. 

Mas, por difícil que seja a aprendizagem com os erros do passado, é bom, para o bem público e social, que a média, que comunica com as populações, tenha, pela responsabilidade que carrega, capacidade de aprender alguma coisa com o passado. A promoção de linguagem de ódio deve ser uma dessas coisas importantes a reter com as lições da História e em que a media não deve incorrer.

O papel carrasco da rádio no massacre do Ruanda está bem documentado e deve servir de lição. Mais recentemente, menos sanguinário, mas também bastante danoso, foi o papel da media brejeira do Reino Unido em veicular os disparates xenófobos e racistas propalados por políticos pró-Brexit com títulos do estilo “as nossas fronteiras estão a ser invadidas por criminosos” e que resultou naquela confusão. Um desses políticos vai responder em tribunal pelas aldrabices que espalhou durante a campanha para a saída da UE. Aqui mesmo é impossível esquecer palavras impressas que lançam arrepios espinha abaixo e que foram instrumentais para justificar e estimular a mortandade durante o período negro do ‘27 de Maio’. Títulos da laia de “o fuzilamento é o único castigo que os fraccionistas merecem”, “é preciso agarrar já estes assassinos” ou “não haverá perdão”.  Palavras como “deviam deixar a gente cuspir-lhes na cara”, “morte aos fraccionistas, lagartixas, corja” e expressões afins. Como é difícil aprender com o passado, esta semana voltam a ler-se palavras impressas com o eco desse clamor ao ódio e ao rancor, como: “não pode haver condescendência. Seja em nome do que for” ou “que a pena lhe seja pesada. Que nunca será demais” a propósito do julgamento do antigo ministro dos Transportes acusado de corrupção. Sem respeito à justiça, à presunção de inocência e com o intuito de proliferar a bílis que só nos pode envenenar a todos. Deixem a justiça trabalhar e foco no que precisamos de melhorar é o mínimo que se pede aos órgãos públicos e à média com responsabilidade social.