Agora pergunto eu...

A promoção do golfe enquanto produto turístico que aconteceu à margem do Fórum Mundial do Turismo, pela mão do Presidente que deu a tacada inaugural de uma iniciativa que já existe na África do Sul há mais de 12 anos, foi ensombrada pela foto de João Lourenço pertinho de Álvaro Sobrinho, o ex-homem forte do BESA, banco que ajudou a condenar a economia nacional à miséria.

As partilhas ‘online’ amontoaram-se e os dizeres essencialmente andavam à volta do ditado “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, de críticas, porque alguns especiais, que caberiam por todos os motivos à vista na (já tão enfadonha) designação de ‘marimbondo’, são aparentemente protegidos pelo nosso campeão da luta contra a corrupção.

O burburinho, que rapidamente passou a barulho, foi tal que o banqueiro emitiu um comunicado a lembrar que não pode ser metido no saco dos corruptos, porque não desempenhou cargos públicos (coisa que não impediu danos irreparáveis a todo o sistema financeiro nacional graças à garantia soberana que foi oferecida ao BES português para apaziguar o desbaratar dos BILIÕES confiados ao BESA).Sobrinho lembrou mais. Lembrou que acusações que em diferentes países pesam sobre o seu nome estão por provar, sendo que algumas que levaram mesmo ao arresto dos seus bens pessoais foram levantadas por falta de provas, valendo, como para todos, a presunção de inocência até prova em contrário. Tem razão. Se se atiram acusações de roubo, mas não se consegue provar o dito roubo, as acusações são vãs e não podem nem devem restringir a vida das pessoas (que querem jogar golfe com o PR em paz), gostemos delas ou não.

As instituições públicas, aliás, devem ser as primeiras a observar essa regra básica para evitarem episódios tristes como a última ‘revienga’ que o Governo protagonizou, ao vir admitir que o general Andrade (que foi maltratado publicamente, chamado de corrupto, escorraçado pela Policia Militar da sua propriedade e quase acusado de ser responsável pelas reticências do FMI em emprestar dinheiro ao país), afinal pode ser vítima de ‘lobistas’ influentes e oportunistas que estão a prejudicar o Estado.

Voltando à questão do turismo, que teve as atenções desviadas pela foto polémica, e que gostaríamos todos de estar em posição de promover, e agora pergunto eu: se nesta fase não será até um pouco embaraçoso convidar estrangeiros para férias no país nas condições, ou melhor, na falta delas, que temos? Nem é preciso falar nas debilidades variadas que foram expostas pela falta de combustível na capital, nas filas intermináveis, nos carros abandonados nas estradas, nas instituições públicas paralisadas, nas pessoas a andarem a pé sem transportes, na desordem e miséria nos hospitais às escuras sem ter como alimentar geradores.

Mesmo nos melhores hotéis do país, a água que corre nas torneiras é turva, falta luz de quando em vez porque alimentar geradores é caro e desgastante para qualquer equipamento, mais sob o calor africano, falta variedade na oferta de comida porque pouco se produz localmente e porque a escassez de divisas levou a rupturas sérias de ‘stock’. As ruas estão frequentemente sujas, cheias de lixo e maus cheiros e os locais para passear escasseiam, tornando-se os poucos, como a marginal, perigosos assim que o sol se põe porque falta iluminação e porque as forças de segurança têm mais tendência para tentar ‘pentear’ um estrangeiro do que o proteger de ser assaltado. Há dificuldades práticas ainda a nível de vistos, e pagamentos com cartões internacionais são dificultados pela falta de terminais e de máquinas automáticas que aceitem ‘visas’ ou ‘mastercards’. Um estrangeiro que não conheça o país não se pode atrever a andar sozinho, porque não há sinais, faltam pontos de interesse voltados para o turismo e com informação bilingue e porque corre o risco de fazer uma ‘selfie’ num sítio onde não se pode tirar fotos ou de se meter em outros sarilhos. Mas há pior. Apesar de sítios lindos como a Barra do Kwanza, como as Quedas de Kalandula, o Maiombe ou o deserto do Namibe (tinha de falar na minha banda) onde ainda faltam estruturas de apoio como estradas e acessos, pior mesmo é que as pessoas andam demasiado sofridas, pobres e maltratadas para poderem receber bem um tipo que vem de fora passear e só está à espera de sorrisos. Qual é o turista que aceita gastar férias e o dinheiro onde as pessoas estão zangadas, tristes, amarguradas, doentes e a passar intermináveis agruras, onde se manifestam nas ruas e fazem greves constantes e onde se sente a insegurança social à flor da pele?