Agora pergunto eu...

Graças ao desgaste, ao sofrimento e à miséria a que o angolano tem sido
sujeito ultimamente, o incontornável tema da semana em todos os fóruns
(excepto nos ‘twits’ dos nossos governantes), é, e só podia ser, a falta de
combustível.
É verdade que Benguela e Cabinda já se queixavam há muito do
mesmo, que Benguela ainda muito recentemente passou quase duas
semanas parada e às escuras, supostamente porque a central de
produção eléctrica não tinha combustível para os geradores. Mas a
verdade inquestionável é que quando a dona de todas as atenções, a
centralizadora do poder e sobrepopulada capital Luanda (cada vez mais
‘NUANDA’) é levada a cair de joelhos e à quase paralisação, em nome de
qualquer réstia de popularidade governamental, cabeças têm de rolar. E
cabeças rolaram. O Presidente chamou todos os responsáveis que
intervêm na cadeia de fornecimento à Cidade Alta para saber o que se
passava com a falta de combustível (bizarro alheamento) e, diligente,
procedeu a exonerações no dia seguinte. Exonerações que muitos
aplaudiram dizendo “é bem-feita” à boa maneira mangop que até agora
não nos levou a lugar nenhum. E agora pergunto eu: é minimamente crível
ainda que exonerações compensem ‘inconvenientes causados à
população’ (para parafrasear o comunicado da Presidência)?
Há muitas consequências pouco visíveis da falta de combustível no
nosso país para as quais não existe qualquer compensação...
E não é, querido leitor, que situações semelhantes não aconteçam
noutros países e que sejam por isso atestado cabal de incompetência
punível por decreto presidencial. Ainda há coisa de duas ou três semanas,
também Portugal, depois de apenas dois dias de greve do pessoal que
abastece as bombas de combustível, quase paralisou, obrigando mesmo
ao encerramento do principal aeroporto, que se tornou tão dependente do
turismo que lhe tem revitalizado a economia. Não é que não se vejam filas
infindáveis de carros em qualquer país que falte o combustível que permite
a mobilidade e a produtividade.
Mas aqui é infinita e incomparavelmente diferente para pior. Um
distintivo visível são as paralelas filas de ‘bidon’ que sinalizam a

necessidade de combustível para básicos domésticos.
Aqui quando não há combustível, não há transportes públicos que
compensem a dificuldade de mobilidade. Os candongueiros, que ainda
são alvo de ‘operações bonhonho’, param, e com eles pára grande parte
da economia nacional que já se sabe produz pouco. As pessoas deixam
de poder ir trabalhar, andam a pé o que podem. Haverá certamente
menos patrulhas de polícia na rua, porque falta de combustível não
poupa as instituições públicas e mais insegurança com mais zonas sem
luz mais tempo. Aqui, quando falta combustível, não se ligam frigoríficos,
arcas, bombas de água, porque a luz de rede é tão exígua e faltosa
como sabemos. As famílias passam fome porque a comida, cada vez
mais cara que a muito custo conseguem armazenar, estraga-se sem
piedade sob o nosso calor africano. Mais frequente ainda se come
comida estragada que, a par da água turva que o PCA da Epal diz não
ser imprópria, causa incontáveis mortes nos nossos hospitais também
eles sem luz. A propósito de hospitais sem luz e de incompensáveis,
morrem bebés e demais doentes evitáveis que dependem de
equipamentos hospitalares que não se ligam devido à falta de
combustível, esta, devido por sua vez, a uma qualquer incompensável
falta de diálogo. Estes são bem mais do que ‘inconvenientes causados à
população’, aqui a falta de combustível é muito pior.
Enquanto isto, o PR não sabe o que se passa, tem de reunir e
comunicar que vai reunir primeiro, para saber, e o vice-presidente dá
publicamente os parabéns ao casal da realeza britânica pelo nascimento
do seu bebé de 3,2 quilos. Compreende-se a necessidade de escape e a
fuga (de que o PR também não tem conhecimento). Online vai-se
dizendo “preferia ser árvore nos EUA do que pessoa em Angola” e, se
fazendo competições de “eu sou o mais difícil: sou água limpa, salário,
emprego, saúde, luz, combustível”. Sou difícil, sou competência?