Agora pergunto eu...

As imagens de africanos em fúria e de catana em riste a perseguirem outros africanos já ensanguentados voltaram a envergonhar a raça a nível mundial. Quando é preciso rebaixarem-nos, lembrarem-nos do nosso atraso enquanto continente berço e rico em recursos, basta evocarem essas imagens, porque são particularmente documentais e ilustrativas da selvajaria e do lado animal ainda tão latente entre nós...

A África do Sul, a economia mais desenvolvida da África Subsariana, volta e meia brinda o mundo com este miserável e decadente espectáculo circense, e, africano, claro ou escuro, não tem como não se tolher de vergonha quando é obrigado a ver o que os ‘irmãos’ andam a fazer aos ‘irmãos’.

Existe um pouco por todo o mundo essa narrativa anti-estrangeiro que, na África do Sul, parece justificar as perseguições e os assassinatos de estrangeiros africanos de países vizinhos como o Zimbábue, Moçambique ou a Nigéria (50 pessoas tiveram na semana passada de se refugiar numa esquadra para fugir da turba assassina). A narrativa de que o estrangeiro vem roubar os empregos aos nacionais é comum também em países desenvolvidos. E quando bem cultivada por políticos divisionistas, agitadores e quase sempre inescrupulosos e abjectos, resulta em hecatombes políticas e socioeconómicas como o BREXIT, que continua a expor o parlamento inglês à chacota mundial e à semelhança a um grupo de baratas tontas que não se decide pela saída ou pela permanência na União Europeia.

Mas em África, em que o desemprego e a falta de formação e sobretudo a falta de coisas menos palpáveis, mas não menos importantes, como a humanização, este tipo de discurso não se fica pelas cisões sociais... Este tipo de discurso em África pede o “afiar de catanas”, reclama sangue. O tal factor TIA (ThisisAfrica) cunhado pelo filme Diamante de Sangue e que é tão apropriado...

Perturbador mesmo é que esses mesmos pressupostos, que galvanizados levam à desgraça e à matança de africanos pela mão de outros africanos, (e que não acontece só contra estrangeiros, basta lembrar o genocídio no Ruanda ou mesmo o nosso 27 de Maio), nomeadamente pressupostos como a falta de emprego, a falta de formação de qualidade e sobretudo a falta de humanização são denominadores comuns entre as nações africanas.

A África do Sul, com uma população de mais de 56 milhões, tem uma taxa de desemprego atroz de 27 por cento e Angola com cerca de 30 milhões de pessoas tem uma taxa de desemprego de pelo menos 20 por cento. O panorama a nível de educação é substancialmente pior em Angola quando comparado à África do Sul até por razões históricas, (como ilustra o seu companheiro das quintas-feiras esta semana na peça sobre as escolas ao abandono com tanta criança fora do sistema de ensino), mas ainda assim, a educação de nível superior na economia líder da África Subsariana é apenas de cerca de 13 por cento.

O factor imensurável, mas indispensável da humanização, aquele que tornaria penoso para uma pessoa tirar a vida ou ‘catanar’ outra, e que está directamente correlacionado com o amor familiar ou falta dele na infância, esse será baixo um pouco por todo o continente. Não faltam exemplos mais gritantes de falta de humanidade. No Norte de África, países como a Líbia fazem, ainda nos dias que correm, leilões de escravos, muitos dos quais africanos que tentam desesperadamente fugir da miséria africana para a Europa de todas as promessas. Na Nigéria, há massacres volta e meia motivados por religião quer perpetrados por muçulmanos, quer perpetrados por cristãos. Aqui mesmo, as mesmas multidões ululantes e sedentas de sangue queimam gatunos em pneus em bairros onde se mata e se morre com a facilidade de um estalar de dedos. A violência impera de tal maneira que se vai perdendo a sensibilidade de forma geral. E agora pergunto eu, e o leitor que prefere soluções a queixumes, soluções?

A nível governativo, para além de serem nocivos os discursos divisionistas e focados na galvanização de ódios, os ‘nós contra eles’ sejam de que espécie forem, é necessário foco absolutamente primário na criação de emprego porque a taxa de desemprego é convite para a desintegração familiar e para o crime. Foco primário significa com prioridade mesmo sobre a manutenção dos cargos que consome tanto tempo e recursos da vida governativa dos líderes. A nível social, aquele que está um pouco nas mãos de cada um de nós é necessária a consciencialização da importância do cultivo da humanidade, particularmente durante a infância. A consciencialização de que as crianças não podem crescer nas ruas, sem conhecer o amor dos pais, da família, porque se tornam adultos sem humanidade e capazes de qualquer atrocidade contra outrem.

Qualquer gesto de amor, bem como de ódio para com quem nos rodeia tem um potencial altamente contagioso. Cada um de nós pode escolher o que espalhar. Escolha bem, querido leitor.