Agora pergunto eu...

Nas redes sociais, que espelham apenas parte dos reflexos da nossa sociedade (porque a outra parte tem mais que fazer), o reboliço, primeiro com os rumores e depois com a notícia de que Higino Carneiro, o ‘General Peito Alto’, ex-ministro, ex-governador da capital,  é agora arguido numa das investigações a decorrer no âmbito da luta contra a corrupção, tem sido enorme.

Pergunto-me que país teríamos se tivéssemos a capacidade de canalizar a energia que canalizamos para a fofoca, para a maledicência e para festejar a desgraça alheia, para coisas úteis para a comunidade, para a ciência, para o empreendedorismo, para qualquer coisa que desenvolvesse o país em vez de o atrasar. O Papa Francisco, e cito-o porque não nos faltam beatos que passam a vida a citar Deus por dá cá aquela palha e a pregar (mas que são maus como as cobras), classificou a coscuvilhice e a má-língua como um ‘acto de terrorismo’ e ‘faca que mata’ respectivamente...

Pareceu não haver tanta fanfarra por parte dos órgãos oficiais com esta investigação, pelo menos desta feita não se viram ministros aclamar por prisões deitando para o lixo qualquer réstia de isenção ou compostura para pressionar juízes, até agora. Positivo porque transmite uma sensação mais de trabalho do que de ‘show off ‘e mesquinharia. No entanto, a reacção das pessoas (fora aquelas a quem começa a chegar o pânico de que ninguém está a salvo e de que afinal a persecução não será exclusiva ao clã dos Santos), continua a ser de jubilo, não obstante as investigações, prisões ou exonerações anteriores nada terem melhorado na sua vida ou na realidade socioeconómica do país.

As faltas continuam a ser as mesmas ou pioraram. Falta de água, luz, saneamento, educação, saúde, salário, habitação, tudo igual ou pior. A falta de emprego, com o desemprego a ganhar terreno à medida que as empresas vão sucumbindo à desvalorização da moeda e à perda de poder de compra generalizada, tem vindo a agudizar-se. Faltas de tudo um pouco. Nada que governo algum fosse capaz de mudar com rapidez, independentemente de qualquer vontade ou promessa eleitoral. Mas o rejubilo e a satisfação com a queda dos poderosos não deixam de animar a malta.

Um efeito colateral da nova realidade, a do ‘combate aos marimbondos’, para além do dito rejubilo popular e de um ambiente de vinganças, é um sossegar da omnipresença bafejante do partido no poder. Não sei se o leitor é do M, e peço que não se ofenda se o for, mas refiro-me à impetuosidade do partido, aquela espécie de orgulho tão seguro que quase se tornava arrogante, aquela vibefesteira de ‘muata dos partidos’, foi-se. E finou-se, ou vem morrendo, mais ou menos desde que o PR disse que membros chefes do MPLA podiam quedar na luta contra a corrupção. É como se aqueles gritos altos se tivessem tornado em sussurros, tivessem perdido a pujança, como se as palmas outrora tão vigorosas se tivessem lenta mas progressivamente se tornado indolentes, moles. Talvez seja impressão de quem está de fora. Mas de fora, querido leitor, a metamorfose, o silêncio, são notórios. O MPLA, particularmente depois de ver mais uma das suas lendas ser rebaixada em praça pública, parece ter baixado definitivamente a grimpa. Pergunto-me onde anda a oposição, que não aproveita a evidente fraqueza do adversário?

Não é, vale lembrar, que este seu companheiro das quintas-feiras seja da oposição, como já nos acusaram inúmeras vezes a propósito da cobertura independente e idónea que se tornou marca deste jornal. O NG é apartidário, o NG é de Angola.

A insistência numa oposição mais forte deve-se tão somente ao reconhecimento de que uma oposição capaz é, em qualquer realidade, mais ou menos desenvolvida, um sinal de equilíbrio, de responsabilização e de fiscalização do serviço público por si próprio. Um parlamento mais equilibrado é uma vantagem para o desenvolvimento dos países porque tende a melhorar as propostas de governação, porque o escrutínio das mesmas é maior até à aprovação, e porque a execução tem de prestar contas precisas porque não encontra um ambiente de amigos à espera de votar para aprovar sem grandes ondas. A cobrança torna-se mais exigente para benefício de todos. Um parlamento mais equilibrado prestaria certamente um melhor serviço à Nação em vez de um melhor serviço ao partido no poder.

E agora pergunto eu, novamente: por onde anda a oposição?