Agora pergunto eu...

Na semana que passou, a vaga de frio polar que congelou muitos Estados norte-americanos levou a esclarecimentos da diferença entre a temperatura e clima, em que Donald Trump insiste em não entender, provocando respostas hilárias ao seu ‘post’ no Twitter “a vaga de frio ameaça romper recordes, onde anda o aquecimento global?”. Uma das mais parcimoniosas ironizava: “A seguir: se a terra é redonda como é que as pessoas não caem quando estão de pernas para o ar?” ou “se o sol é real, onde vai à noite?”. Dificilmente, um presidente foi tão ridicularizado quanto Trump. 

Outro presidente continua no limbo e aí mantém o seu país. A Venezuela continua a desfazer-se a nível económico-social ao leme de um Nicolás Maduro, acossado e votado ao fracasso, não necessariamente pelos venezuelanos, mas pelas potências estrangeiras que se sobrepõem à soberania dos países e dos seus votantes e que realmente decidem quem fica e quem vai no xadrez da geopolítica mundial. Como lembrava um ‘post’ sucinto e esclarecido, a receita resumida para mandar um país soberano socialista para o charco é infalível. Restringe-se o acesso a essenciais alimentares, medicamentosos e de maquinaria industrial de modo a sabotar qualquer produção interna, promove-se o adversário e deixa-se marinar até que o estrangulamento agonie o povo de tal forma que este se rebele contra quem elegeu. Maduro está condenado.

É impressionante o quanto o capitalismo tem de longe o melhor ‘marketing’ do que o socialismo e muito mais do que o comunismo. O quanto o primeiro parece surgir como resposta às falhas dos outros dois e o quanto aprendeu a tornar invisível a sua mão por detrás dos destinos do mundo inteiro, isto apesar de o fosso entre ricos e pobres a nível global não parar de aumentar. 

Entre as falhas de capitalismos, socialismos e comunismos estão vidas, milhares delas que se perdem entre as ganâncias do primeiro, as incompetências do segundo e as falências do terceiro. Em guerras, em fugas que deixam corpos no mar entre continentes e em fome e em miséria.

Não nos faltam cá exemplos acabados do resultado da transição, mistura e confusão destes ‘ismos’, e o seu companheiro das quintas-feiras volta a lembrar as vítimas mais chocantes dos lados sombra de todos estes sistemas de governação que a transição em Angola tornou parte da herança que continua a moldar o tecido social.

Os números, desta feita da Direcção Nacional de Saúde Pública, são absolutamente dilacerantes. Mais de 148 mil crianças com menos de cinco anos com desnutrição aguda severa, mais de 260 mil admitidas e perto de 3.500 mortas por falta do que comer (com suspeita de que este número possa ser bem mais dramático no terreno).

Um ismo frequentemente comum aos três ‘ismos’, capitalismo, socialismo e comunismo, é o ‘umbiguismo’ no plano governativo que lhes surge da necessidade, e talvez do que se torna um vício, de manutenção do poder. Este ‘umbiguismo’ cega porque torna a auto-preservação a prioridade governativa e leva a que o foco ‘nos problemas do povo’ seja relegado para segundo plano, depois do foco na manutenção do poder. E a manutenção do poder dá muito trabalho, monopoliza e ocupa muito tempo. Os governantes frequentemente distraem-se da gestão do país para gerir a imagem e as lutas externas e internas do Governo. A fome, que nos mata as crianças, torna-se secundária. E só assim se explica que tenhamos tão vergonhosa presença, há tanto tempo, nos lugares cimeiros da mortalidade infantil, com todo o petróleo, ouro, diamantes que temos. E agora pergunto eu: que país teríamos se ismos, estes, o umbiguismo que é tão letal, e outros como o mplismo ou o unitismo, não fossem o foco principal dos nossos governantes?

No ano passado, fecharam 225 de 319 unidades de tratamento ambulatório e 61 de 123 com serviço de internamento porque não há abastecimento regular, porque há falta de tudo e porque não se vislumbram soluções. A responsável do Programa Nacional de Nutrição da Direcção Nacional de Saúde adverte que a situação se está a agudizar e perto de 40 por cento das nossas crianças sofrem desnutrição crónica. Umbiguismos à parte, onde estão as soluções?