Agora pergunto eu...

O início desta semana, circulou um vídeo nas redes sociais, feito com a câmara de um telefone apontado para uma cena passada num dos vários bairros miseráveis populados por angolanos, cabo-verdianos e demais ‘Palops’ pobres em Portugal. Uma cena recorrente em que um grupo de polícias, chamado a intervir, distribuiu bastonadas indiscriminadamente, batendo nuns jovenzinhos que encontrou pela rua, depois na mãe que os tentou proteger e do mesmo modo bateriam na avó com toda a agressividade ou em quem mais viesse. 

O vídeo tinha locução e fazia o enquadramento da cena descrevendo a acção policial como racismo. Acto contínuo surgiram ondas de críticas à actuação da polícia com manifestações, desacatos e queimas de carros. Cerraram-se fileiras porque surgiu do outro lado uma onda de igual ou de maior dimensão defendendo a actuação policial e resvalando para o mais abjecto e primário racismo, que quem viveu em Portugal sabe estar latente.   

E assim, o que terá sido sempre um indiscutível e evidente excesso policial, tornou-se um mega-debate (em Portugal e em Angola), exacerbado pela emotividade de anos de escamoteação de tenções raciais profundas e putrefactas nascidas ainda do colonialismo e da doutrina da supremacia opressora e dos ódios viscerais que criou. O episódio só teve respaldo, não por ser raro, mas porque na era das redes sociais foi filmado, levantou o tapete e fez correr e a voar todas as baratas que as politiquices ‘irritantes’ e interesseiras se esforçavam tanto para encobrir. As redes e as plataformas televisivas que dão voz à ignorância tornaram-se palco perfeito para se ‘soltar a franga’. A polícia defende-se com a necessidade de fazer respeitar a autoridade em zonas de risco para o seu efectivo que intervém obrigatoriamente, muitas vezes até sem condições para o fazer, para ajudar a defender a integridade de moradores e vítimas de violências. Nas redes, circulam vídeos e áudios de vómito, cheios de expressões do tipo “levaram foi pouco”, ou “se não querem cá estar voltem para a ‘iáfrica’ para se matarem uns aos outros”, “esta raça não pode conviver com brancos”, “Portugal é dos brancos voltem para a vossa terra”, “estamos fartos de receber estes pretos” e mimos afins. Do outro lado, além de se terem atirado ‘cocktails’ incendiários a esquadras e viaturas policiais e de queimarem caixotes do lixo, ouve-se todos os xingamentos possíveis à ‘bófia’ e aos ‘racistas nojentos’. Em Angola, já há quem esteja à espera de uma oportunidade para desancar na comunidade branca portuguesa residente com o mesmo tipo de fúria acéfala e não faltam apelos aos “irmãos que sofrem na tuga para que voltem à terra mãe, já que são mal recebidos na metrópole racista”.

Querido leitor, isto é o ciclo clássico de estereótipos e presunções. O primeiro polícia que levantou o bastão pode muito bem nem ser racista, pode tê-lo feito para se defender de uma alegada agressão que não se vê no vídeo ou simplesmente por frustração e precisa de ventilar a fúria, com a mesma probabilidade de ser racista. O engalfinhamento dos outros policias segue-se porque é assim que são treinados, a esmagar qualquer ameaça ou potencial ameaça à farda. E o que pode ser várias coisas é interpretado como racismo porque se tratam de pretos a apanhar (e digo pretos e não negros porque ser preto não deve ser pejorativo), quando na verdade os excessos policiais acontecem contra todas as comunidades em todos os países. Os EUA são o baluarte da violência policial e matam com uma facilidade bem documentada. Por aqui, não faltam registos de zungueiras vítimas de violência policial. Há coisa de dois anos, vi um vídeo que também se tornou viral de um pai que levou o filho (ambos brancos) ao futebol a ser violentamente acoitado por um polícia, atirado ao chão e tratado como um criminoso perigoso ante a criança em lágrimas. Os polícias são pessoas em todo o lado e podem fazer asneiras independentemente de usarem uma farda a que devem respeito. E a violência policial é uma realidade comum que não está necessariamente atrelada ao racimo que aproveitou a boleia e se expôs ao sol. Como a má semente só gera frutos podres, o que podia ser só um excesso policial expôs um racismo que ninguém com dois palmos de testa queria ver ou tem estômago para engolir.  

E agora pergunto eu: dizer simplesmente que os policias são racistas não é um estereótipo tão errado quanto dizer que os pretos são maus selvagens e destruidores ou que os brancos são racistas? O foco de discussão não devia ser nos guetos de imigrantes que depois de décadas continuam a não se integrar na sociedade portuguesa e a viver em prédios inacabados sem saneamento, sem segurança para crianças, sem condições. Em vez de ameaçar a comunidade branca ou de prestar atenção ao racismo de esgoto que não vai mudar, o foco não devia ser em fazer um país que os filhos não tenham vontade de deixar nem que seja para viver em barracas nos países alheios? A tendência vai bem ao contrário de África os botes que se afundam no Mediterrâneo continuam a sair cheios. E daqui, de uma Angola que se preocupa com o insulto racista ignorante, os pedidos de visto para fora, na maioria para Portugal não param de aumentar.