Agora pergunto eu...

O seu companheiro das quintas-feiras traz-lhe esta semana, como em muitas devido à componente didáctica deste título, bem mais do que a actualidade...

Traz-lhe o presente, na forma de notícias, como a da incapacidade do Ministério da Saúde de fazer cumprir os seus próprios desígnios ou a da redução dos crimes violentos anunciada pelo Ministério do Interior (que parece ter sido compensada pelo aumento de crimes macabros entre famílias). Algo de muito errado tem de se passar para que filhos matem pais e avós violem e matem netos.

Traz-lhe o passado, na forma da reportagem sobre o genocídio dos hereros, tema que me é particularmente próximo (porque sou de origem mucubal indisputável por mais que a turma da ‘inspecção de origens’ atente). E traz-lhe o futuro na forma das promessas de investimento estrangeiro e de projectos que irão um dia melhorar a saúde e criar emprego e ‘know-how’.  

A propósito de projectos de futuro, serve sempre de entretenimento e distracção de uma realidade económica de cortar os pulsos, o comentário irónico da nossa multibilionária de serviço online aos acordos de que as viagens presidenciais lá vão, a custo, conseguindo firmar. Isabel dos Santos, tornada crítica mordaz e ‘revu’, ironizou e ridicularizou a assinatura de um acordo firmado com os Emirados Árabes de aquisição de uma central de dessalinização, para transformação de água salgada em água doce, tão próximo de um dos rios de maior caudal do país.

A água e a falta dela fazem, de resto, o tema de outra reportagem sobre passado, presente e futuro imediato, porque escassez de água em meio de vários rios e afluentes bem como de bacias subterrâneas é uma realidade que se arrasta, que não conheceu melhorias significativas nos últimos anos e cujo futuro teima em não sair dos projectos e dos planos bonitos.

As variadas campanhas de sensibilização para a importância da preservação do recurso e a ciência, que comprova que 70 por cento da composição do corpo a ela pertence, dizem que água é vida. E agora pergunto eu: se água é vida, o que temos nós, se só pouco mais de metade da população tem acesso à água em condições? 

O que temos, se a parca água potável acessível mais nas cidades é de qualidade duvidosa ou se o seu preço aumenta mais de 50 por cento de uma semana para outra só pela passagem de 2018 para 2019, vítima de uma realidade económica sufocante e de alguma especulação? Aumento este para quem já não conta com água nas torneiras e depende de cisternas. Aumento este num cenário de perda drástica do poder de compra em que o kwanza não tem feito senão ‘emburrecer’, em que o anunciado aumento salarial se torna tão insípido que dá para rir para evitar chorar e em que o desemprego aumenta a olhos vistos com empresas a fechar portas umas atrás das outras.

Pergunto-me se será que os orçamentos dedicados aos programas como ‘Água para todos’, não se perdem nos custos de estrutura do Ministério, em viaturas, rendas, assistentes e demais funcionários, em vez de, de facto, operarem transformações mais significativas do que chafarizes aqui e ali que funcionam à altura da inauguração e deixam de o fazer pouco depois sem qualquer explicação como conta umas das entrevistadas pelo NG.

A nível mundial, cerca de quatro milhões de pessoas morrem todos os anos por falta de acesso à água. Em Angola, particularmente no Sul, na zona dos meus mukubais e demais hereros, a falta de água mata, todos os anos, sem que todo o petróleo e diamantes que se vendam perturbem minimamente a mortandade. Na África Subsariana, cerca de 320 milhões de almas não têm acesso à água potável. 43 por cento das crianças bebem água não tratada ou pouco segura e cerca de 1,6 milhões de crianças morrem de doenças relacionadas com a falta ou a má qualidade da água. A tal água que é vida e cuja ausência se transforma facilmente em morte, a água que tanta falta nos faz. 

Mas os nossos líderes têm outras prioridades...