Proibição do Governo vigora desde 17 de Julho

Peças de carros continuam à venda nas ruas

O Governo proibiu o comércio na rua de peças de viaturas e motorizadas para combater os roubos. Um mês depois da decisão, o negócio não parou, apesar de haver menos clientes. Há quem acuse os estrangeiros de financiarem quem rouba viaturas para posteriormente serem desmanchados e as peças vendidas.

| LÚCIA DE ALMEIDA
Peças de carros continuam à venda nas ruas

O Governo proibiu a venda de peças de carros e motas nos mercados informais e ruas, justificando com a necessidade de combater o roubo. Nas principais zonas de comércio de acessórios, em Luanda, como o bairro Popular, Golfe II, mercado dos ‘Correios’, ainda há à venda muitas peças, velhas e novas.

Um mês depois da decisão governamental, o negócio persiste e os comerciantes garantem que lhes serve de meio de “sustento” das famílias e é um auto-emprego. Há quem acuse colegas vindos de outros países de serem os financiadores dos grupos de marginais, incentivando-os ao roubo de viaturas, que posteriormente são desfeitas as peças postas à venda.

Vicente António Gabriel é um dos comerciantes que não sente os efeitos das novas regras. Para ele, o negócio “não registou quebras”, continua a ser realizado com “normalidade” e garante que não tem sido intimidado pela polícia. Continua a vender peças provenientes do Dubai, China e Japão, por isso, rejeita que sejam roubadas ou provenientes do mercado ‘negro’. Das que se regista maior procura, e as mais baratas, destacam-se as das marcas Toyota, Nissan e Hyundai, enquanto as de origem norte-americana “têm pouca saída e são muito caras”.

Também sem ser afectado pela medida, Giovani Alves garante que não sente dificuldades, porque só vende “peças novas e não de ocasião”, no entanto, reconhece que há “uma redução de clientes desde que foi publicado o decreto”. Por isso, sugere que o Governo devia autorizar a entrada apenas de peças novas e “proibir” as usadas. Acusa alguns colegas de venderem peças roubadas, que tentam “camuflar” como sendo novas, mas nunca têm documentação. Na sua loja, as peças dos KIA são as mais procuradas, seguidas das dos Hyundai.

Luís de Almeida acredita que a proibição poderá criar “constrangimentos”. Preocupado, lembra que depende destas vendas para sustentar e pagar a educação dos filhos. Comerciante de peças há seis anos, é a única actividade que possui. Compra viaturas acidentadas, das quais retira peças e que são vendidas pelos proprietários e “não roubadas”.

Um dos fiscais dos ‘Correios’ José Fernandes tem recebido informações da polícia de que há grupos de pessoas a roubar viaturas e motorizadas cujas peças “são comercializadas” neste mercado. Conhecedor do meio, classifica de “injusta” a proibição que “poderá penalizar os vendedores honestos como se fossem culpados pelos roubos”. “Pode existir quem compre peças roubadas, mas a maioria é gente honesta”, garante

Muanza António João, técnico de reparação de caixas de velocidades e vendedor há 21 anos, tem recebido peças de viaturas avariadas, cujos proprietários se querem livrar. Deslocam-se ao mercado e vendem. “Recusamos a ideia de que vendemos peças roubadas, a informação é falsa”, assegura.

Um outro vendedor, Ângelo Joaquim, denuncia que os maiores vendedores de peças provenientes de viaturas roubadas “são estrangeiros”, enquanto os angolanos compram peças de quem procura “desfazer-se das viaturas avariadas”. Sugere que o roubo só poderá cessar quando o Governo combater os estrangeiros ilegais”, que, segundo ele, “financiam os marginais”. Alguns estrangeiros, a vender na rua, recusaram-se a falar ao NG.

 “TRAVAR ROUBOS”

Os ministérios do Interior, do Comércio e dos Transportes decretaram a proibição da venda de peças de viaturas e de motorizadas nas ruas e mercados informais. O decreto, publicado a 17 de Julho, destaca que, com a medida, pretende “travar”os roubos.

Segundo se lê no documento, assinado pelos ministros Ângelo da Veiga Tavares, Joffre Van-Dúnem e Ricardo de Abreu, a “sociedade angolana tem vindo a constatar com bastante preocupação furtos e roubos de veículos automóveis e motorizadas que, em muitos casos, são vendidos fora das localidades em que ocorrem tais factos e noutros casos desmantelados para o aproveitamento dos salvados que são vendidos nos mercados informais”.