No tempo do arroz com chá

No tempo do arroz com chá

Em muitas casas, era só jantar! Nos kubicos em que havia matabicho, o menu não passava de pão seco com chá ou café. Ao almoço, um arroz branco com lambula fazia a família inteira sabular à toa. De tanta alegria, alguns atrapalhados até davam mortal, enquanto os vizinhos se desdobravam em teorias zongolativas, filho, fica calmo, aqueles aí fazem dinheiro de miscaria.

Um dos meus tios, actualmente um aclamado docente universitário, propunha-me sempre um acordo que até hoje é motivo de chacota! Como a minha escola era distante e eu precisava de madrugar, quase nunca matabichava antes de ir às aulas. Então, o meu regresso ao kubico, sempre depois das 12 horas, dava-me a possibilidade de juntar o conduto do matabicho com o do almoço: pão com chá mais arroz branco com lambula. Um luxo!

E era nessa altura que o meu tio, o tal que agora dá aulas na fau, entrava em cena: “Se me deres o teu matabicho”, dizia ele, “vou-te meter na kipanga!” E eu, sem nada a perder, ditava as regras: “Primeiro me mete na kipanga, depois vou-te dar o matabicho!”

Feito o acordo, o tio baixava a cabeça até ao chão, eu colocava-me em cima do pescoço dele de pernas abertas e, quando o homem se levantasse, lá estava eu no ar, feliz, aproveitando uma boleia altamente kuyosa, pedindo-lhe que corresse e entoasse a seguinte canção: “Cavalo, dikolo-dikolo; cavalo, dikolo-dikolo!”

Entretanto, os mais velhos, sobretudo os pais de família, andavam sempre apreensivos. Talvez por causa das notícias sobre a kitota, com relatos diários de primos que tinham sido apanhados na rusga ou de irmãos que haviam desconseguido de escapar com vida ao turbilhão das balas e granadas. Talvez até mesmo pelo desconforto de uma casa com apenas dois quartos ser partilhada com um batalhão de três ou quatro famílias vindas do quimbo, com os seus difíceis hábitos que nos levavam a tratá-los insultuosamente por poveanos. 

Há dias, ao arrumar papeis antigos, descobri uma prova minha de português, da 3.ª classe, que me demonstrou o quão frustrados e invejosos eram os adultos dos tempos do arroz com chá: “O que é a vida?”, perguntava o professor e, mesmo eu tendo escrito “a vida é não morrer”, a resposta tinha merecido um mau! Bem grande, ainda por cima!