Projecto pode ser apresentada em Outubro 

Músicos angolanos criam sindicato

Cerca de 30 cantores juntaram-se para criar o Sindicato dos Músicos Angolanos (SMA). A apresentação da associação está prevista para entre Outubro e Novembro, deste ano, e vai ser liderada por Maya Cool, músico e compositor. O projecto visa resolver questões ligadas a saúde, habitação, conflitos de propagandas enganosas, gestão de carreira e pós-carreira.

Músicos angolanos criam sindicato
D.R.
Maya Cool, músico

Chegará o dia em que um artista vai autoproclamar-se ‘ministro da Cultura’, porque entra ministro, sai ministro e ninguém faz nada nem nos representa como devia ser.

Os músicos angolanos pretendem apresentar, entre Outubro e Novembro, o Sindicato dos Músicos Angolanos (SMA). Trata-se de uma associação cujo objectivo é ajudar a gestão da carreira e suprir necessidades de músicos doentes e que não tenham recursos.  

Liderada pelo músico Maya Cool, a iniciativa surge, com Matias Damásio, depois de terem analisado a situação de artistas angolanos e de terem chegado à conclusão que a classe dos músicos “não está organizada” e que precisa de uma instituição para os representar.

“Nós, os artistas angolanos, pensamos muito no hoje e nunca no futuro. À semelhança de outros países, como Portugal, que se organizou nesse sentido, pensamos em abrir o Sindicato dos Músicos Angolanos e, depois, a Sociedade Angolana de Autores”, explica o artista.

Em declarações ao NG, o artista acredita que os músicos não se sentem “representados” pela União Nacional dos Artistas e Compositores (Unac-SA), nem pelo Ministério da Cultura. “Chegará o dia em que um artista vai autoproclamar-se ‘ministro da Cultura’, porque entra ministro, sai ministro e ninguém faz nada nem nos representa como devia ser”, avisa.

A associação conta com a promoção de Anselmo Ralph, C4Pedro, Ary, Matias Damásio, Yuri da Cunha, Os Tuneza e conta igualmente, entre outros, com o apoio de Paulo Flores. Neste momento o núcleo está a preparar o estatuto e a infra-estrutura para, em seguida, apresentar a proposta à Assembleia Nacional.

Músicos angolanos criam sindicato

(Anselmo Ralph, membro do SMA, e Maya Cool, um dos mentores do projecto)

A criação da associação surgiu devido às barreiras no acesso a créditos e a divisas junto dos bancos. Maya Cool revela que, várias vezes, já recorreu a bancos para adquirir empréstimo, mas nunca teve sucesso. “Os bancos exigem uma série de documentos para dar divisas e nós nem sequer temos. À associação de vendedores de bens informáticos isentam-se de muitas coisas e faz todo o sentido. E nós?”, questiona.

O SMA vai integrar artistas que tenham, pelo menos, um álbum ou ‘single’ lançado. O principal objectivo é resolver questões ligadas à saúde, à habitação, à gestão de carreira e pós-carreira, além de dirimir conflitos de propagandas enganosas.

“O SMA vai ajudar um ou outro músico que padeça de alguma enfermidade e que não tenha dinheiro para se curar. Quando houver publicidade enganosa de concertos, o SMA estará aí para autuar”, garante.

Embora seja inicialmente liderada por Maya Cool, o núcleo base do sindicato vai ser composto por 30 elementos e terá uma presidência rotativa, integrando ainda produtores e agentes culturais.

Para fazer parte, os músicos deverão inscrever-se e comparticipar com uma quota a ser definida após a conclusão e aprovação do estatuto. 

O mentor do projecto agarra-se ao desafio consciente de que “não será uma tarefa fácil”, devido à “resistência” dos próprios colegas no cumprimento de algumas normas e regras, mas garante tudo fazer para o cumprimento das exigências do estatuto.

A PENSAR NOS DIREITOS

Músicos angolanos criam sindicato

(O projecto também é apoiado pelos músicos Paulo Flores e Yuri da Cunha)

Além do SMA, o músico pensa em constituir a Sociedade Angolana de Autores (SAA), que vai cobrar das rádios, televisões, centros comerciais e discotecas pela difusão das músicas.

A sociedade, esclarece Maya Cool, surge porque “a Unac não tem cumprido com o seu papel”. “Canto há mais de 30 anos, nunca recebi um direito na Unac nem um kwanza, ainda assim, pago quotas. Actualmente a instituição está fechada e não funciona porque estão em litígio, há mais de oito meses. Preciso de uma declaração e não podem assinar porque não tem um secretário-geral? Estamos a brincar”, lamenta.

O artista, vencedor do ‘Top dos Mais Queridos’, em 2008, com a música ‘Ti Paciência’ acredita que os músicos “não têm expressão” e “não são tidos nem achados” e queixa-se que são “valorizados”apenas em épocas de eleições, para “abrir caminhos” para os políticos falarem.

Para o músico, Angola está a mudar em todos os sentidos e defende que o sector cultural deva mudar também, com a credibilização dos artistas, com o apoio, que nem sempre é financeiro, mas institucional.

UNAC- SA inoperante

Proclamada há 29 anos, a União Nacional dos Artistas e Compositores (Unac-SA) é uma associação sociocultural e profissional, congrega mais de seis mil membros, desde compositores, músicos, teatristas, coreógrafos e bailarinos.

A dinamização da dança, teatro e música, assim como a luta pela inserção profissional e consequentemente a afirmação social dos associados são algumas das finalidades que motivaram a sua criação.

Em Junho do ano passado, estavam previstas a realização de eleições para se eleger uma nova direcção, no entanto, a ausência de um regulamento eleitoral e um aconselhamento do Ministério da Cultura, levaram o presidente da Assembleia Geral da instituição, Paixão Júnior, adiar as eleições da para 17 de Agosto do mesmo ano.

Na véspera das eleições, já com a nova data o Tribunal Provincial de Luanda decidiu adiar, sem data e com efeito suspensivo, as eleições devido a alegadas “irregularidades” denunciadas por um dos candidatos ao cargo de secretário-geral.

No entanto, os membros da associação aguardam a decisão final do Tribunal Provincial de Luanda, para que se defina uma nova data, para a realização das eleições. Estando assim a instituição, em litígio há mais de 10 meses.

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