Convicção de políticos e activitas com combate à corrupção

MPLA não será abalado

Políticos e activistas acreditam que o MPLA não vai ser abalado com os casos de corrupção que têm vindo a público. Mas alertam que os dirigentes terão de ter outros comportamentos. Pela primeira vez, um ex-governante foi detido por alegada corrupção.

MPLA não será abalado

As detenções do general José Arsénio Manuel, do ex-ministro dos transportes, Augusto da Silva Tomás, e de um colaborador do Conselho Nacional de Carregadores e a prisão domiciliária do ex-secretário para informação do MPLA, Norberto Garcia, marcam a concretização do ‘cavalo de batalha’ de João Lourenço. No congresso do partido, o actual Presidente da República tinha avisado que o combate à corrupção e à impunidade poderia atingir os militantes e dirigentes do MPLA.

Depois das ameaças, chega concretização das medidas, não pela mão de João Lourenço, mas das autoridades judiciais. O deputado e segundo secretário do MPLA em Luanda, Mário Pinto de Andrade, rejeita a ideia de que esse combate possa abalar o partido, justificando que o MPLA é um “partido forte e que se rege por princípios e disciplina”.

Mário Pinto de Andrade defende ainda que quem use “o partido como meio para se servir deve ser responsabilizado”, reiterando ainda que “quem queira fazer política deve ter consciência que é para servir o interesse publico”. “Já dizia que um dia, neste país, os pungos e as garoupas também seriam atingidos, penso que chegou a hora”, ironiza, referindo-se ainda à celebre palavra de Xi Jinping, actual líder do Partido Comunista chinês, segundo a qual, “os tigres, as raposas e as moscas devem ser caçadas”, mas isso não significa que o partido seja abalado.  

O analista político e jornalista Mário Paiva considera que o combate à corrupção e à impunidade fará com que o país “progrida”, sublinhando que, “se o MPLA não mudar, ele e todos os que alinham no mesmo diapasão podem entrar em decadência”, argumentando que o país “já está em decadência há muito tempo, precisamente devido à corrupção institucionalizado pelo MPLA”.

“Os angolanos não devem ficar reféns de uma figura providencial. As mudanças devem ser estruturais e com a participação de todos. A democracia faz-se com instituições fortes, não com homens fortes”, reforça.

Por seu turno, o activista social Willy Piassa discorda de quem pensa que há “perseguição ou um mero populismo judiciário”, considerando ser das “poucas portas de esperança, senão mesmo a única, que pode salvar o país e devolver a dignidade aos angolanos”. “Pela forma como a corrupção se enraizou, não se pode combatê-la com simples discursos. Se aquele que rouba galinha é preso e porque não prenderem todos aqueles que tenham defraudado o erário publico”, indaga, enfatizando que a medida vai afectar a estrutura do MPLA.  

Para Sérgio Calundungo, presidente do Observatório Político e Social de Angola (OPSA), “seria uma ingenuidade pensar que, com as acções da PGR, a corrupção esteja resolvida”, augurando “a necessidade de haver mais transparência, informação, fiscalização e controlo dos gestores públicos.

O activista acredita que, no MPLA, existem corruptos, mas também o partido está “dotado de gente honesta”, por isso, apela a que não se façam julgamentos públicos, no sentido de se preservar o bom nome dos visados, até que estes sejam considerados culpados e condenados.

O presidente da UNITA defendeu recentemente, em Benguela, que “não bastava haver denúncias sobre a corrupção”, mas era preciso partir para a “responsabilização criminal dos que desviam os recursos do Estado”. Isaías Samakuva afirmou ainda que os “dirigentes angolanos precisavam sair dos simples discursos para a prática e acabar com o problema que corrói o tecido social”, tendo apontando, como exemplo, o desvio de milhões no negócio do lixo naquela província, denunciado pelo governador Rui Falcão.

“Além das denúncias, precisamos de uma justiça à altura e engajada para se apurar a verdade. Se houver este trabalho, os incriminados sofrerão as consequências. Caso contrário, ficamos pelo discurso, e isso não ajuda a resolver o problema’’, adverte Samakuva.

A empresária Filomena de Oliveira considera que o combate à corrupção vai “impulsionar a credibilidade internacional e fazer com que haja mais investimento no país” e que, assim, o Estado “estará em condições de honrar com os seus compromissos, sobretudo com o pagamento dos atrasados”.

“Qualquer prevaricador deve ser responsabilizado segundo o seu crime, porque ninguém está acima da lei. E o MPLA deve dar o exemplo de como se combate uma gangrena”, apela.

A empresária defendeu “medidas severas”, em que falsos empresários não possam apoderar-se dos fundos públicos sem qualquer benefício para o país, não sendo este “o propósito da luta do MPLA”.   

NUNDA ILIBADO

Para o presidente da Associação Mãos Livres, Salvador Freire dos Santos, todos os que defraudaram o país devem ser julgados e, se forem considerados culpados, devem ser presos, mesmo que “se tenha de mexer no ninho”. “Se o combate à corrupção for efectivado, não vai acontecer nada de negativo, antes pelo contrário, os angolanos saem a ganhar e o país passa a ter confiança dos investidores”, defendeu, considerando que o país “entrou numa nova era”.

O jurista acredita que a medida tomada pelo Tribunal Supremo de manter o ex-director da UTIP, Norberto Garcia, em prisão domiciliar, “está certa”, mas entende que “aquele órgão devia ser mais duro, atendendo o valor envolvido na tentativa de burla ao Estado”.

Salvador dos Santos reprova a ideia de que ilibar Geraldo Sachuipengo Nunda “não passa de um mero populismo judiciário”, considerando que Nunda, desde cedo, manifestou “humildade e disposição para prestar informações, sobretudo pela educação e dignificação do organismo do qual esteve à frente”.

Evaristo Manico, advogado de Norberto Garcia, considera que a prisão domiciliária “é apenas um populismo judiciário para ludibriar os angolanos de que se está a fazer justiça no país”.

Por outro lado, o vice-procurador-geral da República, Mota Liz, esclareceu que o Ministério Público pode recorrer da decisão do Tribunal Supremo da decisão de ilibar o ex-chefe do Estado-Maior General das FAA. “Não é verdade que a PGR não terá acusado bem o general Nunda, no universo de pessoas acusadas, o grosso foi pronunciado”, garantiu, salientando que cabe ao Ministério Público conformar-se ou não com o posicionamento do Tribunal Supremo sobretudo por envolver alguém que tenha um tratamento especial.

 

Outros artigos do autor