Semana mais agitada dos últimos tempos

Funeral de Savimbi incendeia política

O enterro de Jonas Savimbi, previsto para esta semana, provocou a maior polémica entre Governo e Unita dos últimos anos. A Unita regressou às manifestações, até com gente fardada. Foi uma semana de troca de acusações que culminou num encontro entre João Lourenço e Isaías Samakuva.

Funeral de Savimbi incendeia política
Alcides Sakala,

Alcides Sakala, porta-voz da Unita

Esta é a posição do senhor general. Estamos imbuídos do nosso programa e vamos continuar a cumpri-lo conforme foi anunciado.

João Lourenço sentiu-se obrigado a receber, na quinta-feira, o presidente da Unita, depois de Isaías Samakuva ter escrito uma carta ao Presidente da República, na tentativa de pôr fim à polémica com o corpo de Jonas Savimbi. O teor da conversa, até ao fecho da edição, não tinha sido divulgado.

As exéquias de Jonas Savimbi, morto em combate, no Moxico, em 2002, dividiram o Governo, a Unita e familiares do fundador do partido, provocando uma semana de troca de argumentos. Os ânimos exaltaram-se quando o Governo, segundo a Unita, decidiu “violar ou alterar” a data e o local de entrega dos restos mortais.

Na data combinada, o corpo, que seria entregue ao partido, no Luena, foi levado pelo Governo para uma unidade militar, no Andulo, na antiga pista que usada pela Unita durante a guerra. No local, familiares, militantes, simpatizantes e jornalistas esperaram a chegada do avião, com a urna que transportava as ossadas de Savimbi. O cenário, montado pela Unita, era de uma multidão humana, trajada de roupas com as cores do partido do ‘galo negro’ e de fardas, que entoava diversos hinos em Umbundo.

O presidente da Unita, Isaías Samakuva, apressava-se acusar o Governo de “decidir tudo sozinho” e de querer redefinir o programa que levará ao enterro, agendado para sábado, “à revelia da família e do partido”. “Não está a ser respeitado o que ficou acordado”, explicou. O líder partidário explicava que ficou acordado que o corpo de Jonas Savimbi iria para o Cuito na presença de todas partes que estivessem presentes na exumação.

Funeral de Savimbi incendeia política

Por outro lado, o ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, Pedro Sebastião, contra-atacava afirmando que o Govero “não tem interesse em manter sob sua custódia os restos mortais de Jonas Savimbi”. O responsável replicou, acusando a Unita de impedir “os seus representantes” nas exéquias de estarem presentes no Andulo”.

Alcides Sakala, no Bié, garantia que o partido mantém o programa das exéquias, previstas para sábado, com “ligeiras alterações, em relação à passagem da urna de Jonas Savimbi pela sua residência no Huambo, como inicialmente estava previsto, devendo-se apenas ficar em vigília durante uma noite”.

O porta-voz da Unita negava qualquer pretensão do partido em aproveitar o acto. “Esta é a posição do senhor general. Estamos imbuídos do nosso programa e vamos continuar a cumpri-lo conforme foi anunciado. Não estamos a fazer, estamos apenas a honrar a memória do Dr. Savimbi”.

O deputado da Unita, Maurílio Luiele, relatava que, entre Agosto a Setembro de 2018, participou das reuniões da Comissão das Exéquias e que “o Governo teve sempre o comportamento de tentar mostrar que a família e o partido não se entendiam” e era “rechaçado pela família que fazia questão de confirmar que o partido e a família fossem tratados como um único bloco”. O deputado desconfia que as movimentações populares registadas nas cerimónias fúnebres motivaram os actos “irreflectidos” de Pedro Sebastião.

 

Familiares desmentem

Os familiares de Jonas Savimbi, também em conferência de imprensa, desmentiam Pedro Sebastião de que havia possíveis divergências. Em nome da família, Tchaya Savimbi realçava que a família ouviu com “estranheza”, as declarações do ministro sobre um possível “desentendimento” entre a família e a Unita. “Para nós, não há divergências entre a família do Dr. Savimbi e o partido, lamentamos isso e não corresponde a verdade. O momento é de recolhimento e de serenidade”, lamentava o filho.

Em 2007, o enterro de Holden Roberto foi impedido de se realizar no cemitério dos Reis do Kongo, em Mbanza-Kongo, Zaire, pelo então governador do Zaire, o actual ministro do Estado, Pedro Sebastião.

 

Morto em combate

Jonas Malheiro Savimbi nasceu no Munhango, Moxico a 3 de Agosto de 1934, tendo falecido em combate, no Lucusse, Moxico a 22 de Fevereiro de 2002. Fundou e foi líder da Unita durante mais de 30 anos. Os pais de Savimbi são originários de Chilesso, no Bié, pertencentes ao grupo étnico ovimbundo. O pai era funcionário dos Caminhos-de-Ferro de Benguela e também pastor da Igreja Evangélica Congregacional em Angola (Ieca). Durante a guerra, teve os apoios dos governos dos EUA, China, do regime do ‘apartheid’ da África do Sul, Israel, de vários líderes africanos, com maior destaque para Félix Houphouet-Boigny, Mobutu Sese Seko, do rei Hassan II de Marrocos e Kenneth Kaunda da Zâmbia e mercenários de Portugal, Israel, África do Sul e França, Savimbi passou grande parte de sua vida a lutar primeiro contra a ocupação colonial portuguesa, depois da independência de Angola, contra o governo do MPLA que era apoiado, em termos militares, pela então União Soviética, Cuba e vários países socialistas.

Jonas Savimbi perdeu as eleições, em 1992, mas não reconheceu o resultado, optando por voltar à guerra, pondo fim a um período de paz de ano e meio.

 

Nome ainda no ‘segredo dos deuses’

Chivukuvuku 
promete novo partido em Agosto

Funeral de Savimbi incendeia política

Abel Chivukuvuku promete divulgar o nome do seu partido na primeira quinzena de Agosto. O projecto ainda não tem programa, nem ideologia, mas o antigo líder da Casa-CE garante que já tem militantes “dispostos a percorrer o país”.

 

O antigo presidente da CASA-CE, Abel Chivukuvuku, promete anunciar o seu novo projecto político para a primeira quinzena de Agosto. Garante não será o partido ‘Podemos’, mas também não quis avançar quais são os outros políticos que poderão integrar este novo projecto. Em conferência de imprensa, o ex-líder da CASA e antigo dirigente da Unita garante não ter intenções de vir a fazer alianças partidárias e que ninguém o “impedirá” de governar Angola, em 2022.

Mesmo em divulgar o nome do partido, nem programa ou objectivos, Abel Chivukuvuku pediu aos futuros militantes da organização partidária que estejam preparados para andar por Angola. “Vamos ter, nos próximos meses, um trabalho intenso”, prometeu.

Já com a constituição do partido em andamento, Abel Chivukuvuku acusa órgãos de jurtiça de estarem a fazer “manobras” para tentarem impedir a legalização do partido. “Ao longo destes anos, em todas as instituições de justiça de Angola, vi uma espécie de perseguição para travar o surgimento de uma força política por mim liderada, mas isto não me vai fazer desistir”, garantiu.

Ainda este ano Abel Chivukuvuku tinha prometido divulgar o nome do novo partido, para 15 de Abril. Adiou para Agosto e, pelo meio, esteve internado numa clínica em Luanda e posteriormente na África do Sul, por ter sofrido um ataque de malária.

Abel Chivukuvuku foi afastado da liderança da Casa-CE por cinco dos seis partidos que integraram a coligação, desde a fundação do projecto. Foi substituído pelo vice-presidente André Mendes de Carvalho ‘Miau’.

Como líder da coligação, Abel Chivukuvuku levou a Casa-CE a resultados lhe permitiram ter seis deputados nas primeiras eleições que enfrentou, em 2012, e subiu para oito, nas últimas legislaivas.  A coligação juntou ex-militantes e dirigentes de outros partidos, sobretudo da Unita, mas também do MPLA.

Abel Epalanga Chivukuvuku nasceu no Bailundo, Huambo, tem 61 anos de idade e foi formado na UNITA.