Quase esquecido, actua em festas e em seminários

Duo canhoto à procura de novo caminho

Apesar de ter mais de 30 anos de carreira, o Duo Canhoto conta apenas com um álbum publicado em 2004. Os dois sentem-se mais valorizados e reconhecidos internacionalmente e afirmam detectar “falta sensibilidade dos produtores” em Angola. São autores da canção ‘Omboio’, divulgada pela Pérola.

Duo canhoto à procura de novo caminho
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A dupla Duo Canhoto surgiu na tropa, em 1985, quando ainda os dois membros faziam parte das extintas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola). No mesmo batalhão, o cruzamento foi “espontâneo”, lembra Antero Moisés Ekuikui, natural do Huambo, já conhecedor de música, e Guilherme dos Anjos Maurício ‘Mito’, vindo do Kwanza-Norte, com a arte de encenação e manejo da guitarra. Ambos pertenciam à Brigada Artística e Cultural ‘26 de Agosto’, das Tropas de Guarda Fronteira de Angola, e têm em comum serem... canhotos.

A dupla conta com 33 anos de carreira, mas tem apenas um álbum lançado e, até ao momento, é o único Duo Canhoto, em Angola. A dupla canta em umbundu, kimbundu e em português, com realce para os estilos  tchissossi, mungomba e katitada, da zona centro e sul de Angola, o kilapanga e o semba, do norte, interpretando, musicalmente, o quotidiano dos povos, numa valorização da culinária, da celebração dos mitos e de padrões de comportamento.

O duo, que anda meio desaparecida dos palcos, e sem casa fixa, actua mais por convites de amigos em ‘workshops’, lançamentos de livros, em festas de casamentos e aniversários.

“Já foi o tempo em que os média divulgavam e incentivavam mais a música nacional com a realização festivais de trova”, lamentam. Naquela época, cada um foi vencedor de um concurso de trova. Ekuikui venceu o primeiro festival nacional, em Outubro de 1985, organizado pelo Ministério da Segurança de Estado, em Cabinda, e, em 1987, ‘Mito’ vence’ o festival nas tropas de guarda fronteira também a solo. Enquanto dupla, em 1995, venceram o primeiro festival da canção, organizado pela Rádio Nacional de Angola (RNA), onde foram premiados com uma viatura da marca Daewoo Tico.

Nome incomum 

Duo Canhoto surgiu depois de a Brigada Artística e Cultural ‘26 de Agosto’ sair para um evento em que havia necessidade de animar os intervalos. Sem pensar nas consequências, a dupla entrou em palco para animar. Algum público, na plateia, admirado com a sincronia da dupla e a maneira como agarravam os instrumentos, no caso as violas, sugeriu-lhes que formassem um duo e que o mesmo fosse chamada de Duo Canhoto.

Os dois ainda serviram de inspiração para os irmãos Kafala e foram a razão do aparecimento de outros duos como ‘Duo Tchisosso’, ‘Beto Gourgel e esposa’, ‘Zeca e Sá’, e Filipe Mukenga que teve um parceiro, já falecido.

 Falta valorização

“Para passar por onde passei, não recomendo aos meus filhos!” É assim que, entristecido, ‘Mito’ analisa a música, pois entende que os artistas, principalmente os da sua época, “não são valorizados o suficiente”. Reconhece que “há muitos jovens que se aproveitam do talento dos mais velhos que já vêm de uma carreira ao longo dos anos, para fazerem o que querem”. Mito sugere que se dê mais valor aos artistas mais velhos e que as ‘roupagens’ sejam feitas pelos donos.

Ekuikui critica a “falta de sensibilidade de quem produz eventos culturais”, pois “há coisas que transcendem o artista”. E acrescenta que, “ultimamente, há uma tendência de arrogância, ‘entre aspas’, dos que usufruem dos direitos de certos artistas”.

O músico reconhece que “não é tarefa do Estado dar dinheiro aos artistas”, mas também defende que devia ser o Estado a criar políticas de divulgação e fazer com que a lei do Mecenato funcione”.

O duo reconhece que são mais conhecidos internacionalmente e aconselham aos artistas a levarem o que é cultura e tradicional para fora do país, pois o público estrangeiro espera coisas novas. “Para se internacionalizar, não é preciso cantar na língua estrangeira. Pode, sim, apresentar um tema ou outro, mas tem de levar a sua cultura, isso sim, faz com que seja valorizado”, reconhece Mito.

Ekuikui sugere que o Estado seja mais interventivo, não dando dinheiro aos artistas, mas criando políticas de divulgação e valorização, como patrocinar a gravação de um álbum em que englobassem as duas gerações, a exemplo do projecto Pikante, pelo menos uma vez ao ano.

‘Omboio’ polémico

A dupla recorreu aos tribunais e à UNAC por causa da canção ‘Omboio’, erradamente atribuída a Pérola. A UNAC responsabilizou a cantora a pagar os direitos autorais. A dupla lançou oficialmente a música ‘Omboio’ do álbum ‘Lado Esquerdo’, em 2014. Após ser divulgada, Pérola pede autorização ao duo, para fazer versão. Depois de cedida, Ekuikui acompanha a caravana da cantora a Portugal para os arranjos de guitarra, pois lá, não conseguiam, conta Ekuikui. Para a surpresa do duo, a cantora, em algumas entrevistas, garantia que a música era da autoria do seu avô.  “Chocou-nos ouvi-la a dizer que a música era do avô. Não cumpriu com o que conversámos, ficámos chateados e desmentimos”, conta Ekuikui. A dupla assegura que a música é uma sequência de várias canções que contam a numeração de um a dez “a música tem vários estratos do folclórico, mas transformámos numa introdução da própria música.”

No entanto, reconhecem que o trabalho feito pela cantora “é muito louvável”, pela divulgação e massificação nacional e internacional. “Se hoje a música é conhecida do jeito que é, é graças a ela”, admitem.

Ekuikui não descarta a hipótese de a música poder ser interpretada por mais cantores, mas condiciona a que seja dado o reconhecimento necessário, porque “o artista vive das suas composições”.

Perfil Em vários palcos

Antero Moisés Ekuikui nasceu a 20 Setembro de 1962, na aldeia de Cachau Mbata Mungo, Huambo, enquanto Guilherme dos Anjos Maurício (‘Mito’) nasceu a 11 de Janeiro de 1966, em Bolongongo, no Kwanza-Norte.    

Lançaram o primeiro álbum ‘Lado Esquerdo’ em 2005, que reúne os momentos mais importantes do Duo Canhoto, e contou com a participação de Mário Garnacho (piano), Dalu Roger (percussão), Carlos Chiemba (baixo) e de cabo-verdiano José Afonso (acordeão, na canção ‘Akamba’).

Duo Canhoto venceu o primeiro ‘Festival da Canção da Rádio Nacional de Angola’ em 1995, além de ter sido distinguido com o Prémio ‘Liceu Vieira Dias’ no mesmo ano.

Em 1997, participou no projecto ‘Pomba Branca’, que visava a mobilização dos artistas a favor da paz em Angola.

Em 1998, é convidado pelo Conselho Nacional da Juventude e pelo Ministério da Cultura a participar no Festival Mundial da Juventude, na Costa da Caparica, em Portugal, e na Expo Lisboa, em Setembro do mesmo ano. Em 2005, participou na Expo Japão, e, em 2009, no Festival Pan-Africano na Argélia. Em 2010, a convite da comissão directiva angolana da Expo Xangai, deslocou-se à China.