Wacu-Kungo acolhe as comemorações dos 62 anos do MPLA

Fundação polémica, mas o “olhar para a frente”

Historiadores e militantes desencontrados quanto à data da fundação do MPLA. O partido celebra o aniversário na segunda-feira. Dirigentes chamam a atenção para uma nova geração que está a assumir o poder no MPLA.

Fundação polémica, mas o “olhar para a frente”
Mário Mujetes
JLO E JES

Uns defendem que o MPLA foi fundado na Conferência de Tunes, em Janeiro de 1960, por Viriato da Cruz, que foi o seu primeiro secretário-geral e Mário Pinto de Andrade, como presidente em exercício até 1962. Mas o manifesto de 10 de Dezembro de 1956 afirma que um grupo de angolanos deu a conhecer a necessidade de “haver amplo Movimento Popular de Libertação de Angola”, que tinha como objectivo reforçar as acções contra o colonialista português, na luta pela independência. 

Fundação polémica, mas o “olhar para a frente”

O antropólogo e presidente da bancada parlamentar do MPLA Américo Kwononoca considera que as trajectórias acarretam transformações e que, no MPLA, “não podia ser diferente”, reiterando que o partido, na altura, movimento de libertação, foi fundado em 1956, segundo o manifesto expresso nos Estatutos do MPLA. “A data da fundação pode ser entendida como uma metamorfose no processo de uma criança, que tem a fase da concepção, nascimento e crescimento”, frisou, lembrando que o manifesto foi a convocatória que visou a expansão da guerrilha contra o colonialismo no país.

Para Kwononoca, este processo teve início nos anos 1940 e culmina com a independência em 1975, abrindo uma nova etapa nas transformações, passando de província ultramarina de Portugal, para República Popular de Angola. “Desde logo, o MPLA assume a matriz socialista como partido de esquerda, tendo o povo como epicentro, de acordo com o Programa Mínimo”, recorda.

O segundo Programa de Saneamento Financeiro (SF) tinha como bases a estabilidade, o desenvolvimento e a democratização, que segundo Kwononoca, “só não deu os frutos desejados, por causa da invasão sul-africana e da guerra civil que dilacerou o país durante 27 anos”, mas, ainda assim, garantiu que o MPLA “continuasse forte e coeso e pronto para transformações”. “Acho que somos o segundo maior partido de África depois do ANC. A primeira comitiva que cria o MPLA começa no Gana, passando para Leopoldville, em 1961. Mais tarde, vai para o Congo-Brazaville devido a alguns desentendimentos com Mobutu”, relembra.

No entanto, os historiadores, sobretudo mais recentemente, têm discordado da data da fundação do MPLA. Por exemplo, Alberto Oliveira Pinto, autor do livro ‘História de Angola’, refere que o MPLA surge da fusão dos movimentos de libertação, o Partido de Luta Unida dos Africanos de Angola (PLUAA), o Movimento para a Independência de Angola (MIA), o Movimento pela Independência Nacional de Angola (MINA) e o efémero Partido Comunista de Angola (PCA). “Este movimento rapidamente galvanizou o povo para a luta contra o colonialismo, transformando-se no instrumento decisivo para a satisfação das aspirações da independência”, sustenta, esclarecendo que o PCA foi fundado em 1955, por Ilídio Machado, Viriato da Cruz, António Jacinto e Mário António Fernandes de Oliveira.

O historiador acrescenta que o MIA só surge em 1958, fundado igualmente por Ilídio Machado, André Franco de Sousa, Hígido Aires de Sousa e Liceu Vieira Dias, enquanto o MINA foi criado por operários na primeira semana de Dezembro de 1959, após a realização, em Luanda, do Congresso da Organização Internacional do Trabalhador (OIT). Ou seja, ambos posteriores à data que o MPLA assume como sendo da fundação, 1956. “Penso que a fusão acontece por iniciativa de Agostinho Neto, pouco antes de este ser preso em Luanda”, alude, sublinhando que o primeiro Presidente chega ao poder no MPLA eleito na primeira Conferência do partido, realizada em Léopoldville, em Dezembro de 1962.

O historiador lembra, por um lado, que Ilídio Machado, não chegou a sair de Luanda, tendo falecido antes da independência, não sendo, por isso, propriamente militante do MPLA. “Em todos os países existe uma história politicamente correcta, contada pelos vencedores”, ironiza, realçando ser de "suma importância" que os historiadores tenham a liberdade de falar.

O MPLA vive hoje “mais um momento de transformação, assumindo a responsabilidade e o reconhecimento de que era preciso corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”, evoca Américo Kwononoca, acentuando que o partido está, “cada vez, mais plural e aberto à divergência de ideias”, contrariando, assim, o argumento da oposição, que acha não haver democracia no MPLA.

O presidente da bancada parlamentar do MPLA defende que há “transformações geracionais”, em que a geração dos 1950 fez a sua parte. “Agora é a vez da geração dos 1960 e 1970”, aponta, enfatizando ser possível encontrar jovens, incluindo nascidos na década de 1980 a ocuparem cargos de direcção, incluindo no Bureau Politico.

Para o deputado e primeiro secretário da JMPLA no Uíge, Pedro Conga, a primeira geração que cria o MPLA tinha por objectivo libertar o país do jugo colonial, tendo alcançado a proeza em Novembro de 1975. A segunda geração, que considera a da independência, caiu no ‘marasmo’ da guerra civil, que “muito bem podia ser evitada”, por isso, teve o dever de repor a paz e a tranquilidade aos angolanos e a terceira geração, a da paz, que, no seu entender, é “imediatista, por ser a menos sacrificada”.

“Nessa cruzada de gerações, deve haver a transmissão de valores, sobretudo culturais, tendo sempre em atenção que qualquer processo tem pontos negativos e positivos”, acautela. Por isso, adverte que o mais importante é retirar do passado o positivo para se construir uma Angola próspera, assente no princípio da democracia, segundo o programa e estatutos do partido.

Pedro Conga lembra que hoje o país vive uma trajectória histórica, que há alguns anos era impensável, o que, segundo ele, “não é comum nas sucessões em África”.

 

Falta debate interno

Para Fernando Pacheco, conselheiro do Presidente da República, o MPLA teve o “mérito de conduzir a luta pela independência, assim como os outros movimentos de libertação nacional”, tem a seu favor “muito do bom que foi conseguido”, mas também a desfavor o que aconteceu de negativo, referindo-se, por exemplo, à “incapacidade de acabar com a guerra civil mais cedo, à situação desastrosa que enfrentamos hoje, decorridos 17 anos desde o fim da guerra”.

O agrónomo considera que a análise de João Lourenço “é suficientemente esclarecedora” sobre o MPLA na actualidade, mas sublinha que, se se mantivesse os ideais dos fundadores, o partido “não estaria atolado na corrupção”. “O MPLA nunca foi um partido democrático. Sem debate aberto é quase impossível encontrar soluções justas para os problemas”, sublinha, justificando que a guerra e a acção dos inimigos “não facilitaram as tentativas de democratização”.

O conselheiro presidencial não tem dúvidas de que a “deturpação da história sempre foi uma das características dos partidos não-democráticos”. No caso do MPLA, começou com a própria data da fundação, referindo que hoje ninguém se lembra de Mário Pinto de Andrade e Viriato da Cruz, que “viriam a ser ocultados”.

“Espero que o MPLA tenha coragem de ir até ao fim na reposição da verdade histórica. E que isto sirva de lição para as gerações futuras”, desafia, olhando para o discurso do Presidente João Lourenço, do passado dia 23, bem como a anunciada possibilidade de "eleições primárias", que “permitem pensar que se está a caminho de uma democratização do MPLA”.

Trajectória controversa

Dois anos depois da independência, o MPLA sofre com a intentona de 27 de Maio, como resultado da ruptura entre Agostinho Neto e ‘Nito’ Alves, mas, já em 1974, o movimento estava dividido em três alas: a Revolta Activa, a do Leste e os Netistas. Os anos 1960 também ficaram marcados por uma série de divisões, mesmo estando na guerrilha.

Com a morte do Presidente da República, em 1979, José Eduardo dos Santos assume o comando do partido e do país. As mudanças operadas na década de 1980, com a queda do muro de Berlim e do bloco socialista soviético, o maior aliado do MPLA, levaram à criação do Programa de Saneamento Económico e Financeiro (SEF), aprovado na 1ª Conferência Nacional, que teve lugar de 14 a 19 de Janeiro de 1985, em Luanda.

A pressão imposta pela guerra com a UNITA obrigou o MPLA a rever as linhas de orientação no 2.º Congresso realizado em Dezembro de 1985 e abriu caminho à consagração do multipartidarismo, em 1991, depois dos acordos de Bicesse assinados em Portugal.

Com o eclodir da guerra pós-eleitoral, em Setembro de 1992, no 4.º Congresso de 1998, o MPLA traça a Estratégia Global para a Saída da Crise Político-Militar, Económico e Social, que veio a culminar com a morte de Jonas Malheiro Savimbi e o alcance da paz em Fevereiro de 2002.

Em 2016, José Eduardo dos Santos anunciava que iria abandonar a vida política activa, promessa que foi concretizada, primeiro ao não se recandidatar em 2017, deixando assim o lugar a João Lourenço, que venceu as eleições e se tornou no terceiro Presidente da República. Em Setembro de 2018, o partido assinala a passagem da presidência do partido, acabando com a tão propalada bicefalia.

 

 

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