Defende o historiador e docente Filipe Artur Vidal

“Conhecer os símbolos nacionais depende da vontade política”

Filipe Artur Vidal defende que seja obrigação do Estado contar a história de Angola na sua essência, para que todos se possam identificar com os símbolos nacionais. Apela às igrejas, ao Estado e aos órgãos de comunicação social a criarem programas de incentivo ao conhecimento dos símbolos. O historiador critica os exames para professores por não terem incluído perguntas de História

“Conhecer os símbolos nacionais depende da vontade política”
Filipe Artur Vidal

Filipe Artur VidalHistoriador

O sistema educativo tem um papel importante para o conhecimento desses símbolos

A bandeira, o hino, a insígnia da República, a palanca negra gigante, o rio Kwanza, a weliwítschia mirabílis, o embondeiro, as bakamas, a mwana pwo, o ‘pensador’, a dança e a comida representam símbolos nacionais, divididos por subcategorias como naturais, culturais e geográficos, que representam a identidade de um povo e devem ser preservados, valorizados e divulgados”, defende o docente de história das artes Filipe Artur Vidal.

Segundo o docente, “há muitos” angolanos que “infelizmente não se identificam” com os símbolos nacionais, alegando o “peso político” que carregam, dando como exemplo a bandeira,composta com as mesmas cores do MPLA. Alerta que a “fraca” motivação de muitos jovens para querer saber mais sobre a História de Angola, em particular sobre os símbolos, está nas “insuficiências” do plano curricular.

Por isso, defende que os símbolos sejam tratados “com profundidade”. Lembra que, no ensino da história, se ensina apenas 30 por cento sobre Angola e 70 por cento sobre história universal. O historiador critica também os exames feitos para a admissão de professores, que não incluem a história de Angola ou de África. Lamenta que, como um dos examinadores do concurso público da educação, os testes de história abordavam a revolução industrial, as ideias económicas na Europa e na América, “mas nada de África ou de Angola”. “É isso que nos identifica, um povo quando não tem noção da sua história não faz nada, porque a nação não se criou sozinha.”

 

Poucos conhecimentos e falhas no ensino

Numa ronda, o NG conversou com 50 jovens, entre os 15 e os 25 anos, que demonstraram um fraco conhecimento sobre os símbolos nacionais. As perguntas foram feitas a alunos do IMIL e IMEL e a quem circulava pela rua. De acordo com Filipe Artur Vidal, os jovens “não têm culpa da falta de conhecimento”, apontando a falha no sistema de monodocência. “O sistema educativo tem um papel importante para o conhecimento desses símbolos”, reforça, alertando que é “na sala de aula onde se deve ensinar a democracia, cidadania, valores e símbolos. “Com este sistema da monodocência, não é possível, aí falhou, mais uma vez, a reforma educativa”.

O historiador defende até que se deveria explicar cada estrofe do hino. “Por exemplo, quando cantamos ‘Ó pátria, nunca mais esqueceremos, honramos o passado e a nossa história’, como vamos lembrar e honrar uma história que não conhecemos a essência, se não está dentro no nosso plano curricular?”, questiona-se. E alerta para o perigo de termos uma juventude sem conhecimento.

Apesar de reconhecer que “não seja tarefa fácil”, entende, no entanto, que “só depende da vontade política” e lembra que, nas eleições de 2017, quando se quis mobilizar os eleitores, se “fizeram campanhas de massa para todos os níveis sociais”.

O antropólogo José Pedro ‘Jack Tchinje’ defende também a obrigação de todas as pessoas conhecerem os símbolos do país e aconselha os órgãos de comunicação a passarem programas de cariz lúdico como o ‘Minuto do saber’, por exemplo. “As nossas escolas, com excepção das católicas, pecam muito, porque também não incentivam a cantar o hino nacional. São elas que devem orientar as crianças a fazer desenhos com os símbolos nacionais e depois explicar. Criar actividades recreativas com símbolos nacionais.”

Mesmo negando que a guerra seja um valor, José Pedro lembra que faz parte da história de Angola e “devemos saber tudo em torno dela, de como surgiu, quem foram os precursores para a sua finalidade, quem deu o quê pelo país”. Usa como referência de patriotismo o músico Dog Murras, que usou e massificou o uso de roupas com a bandeira de Angola. “O conhecimento dos símbolos gira em torno de três meios, cultura, escola e família”, reforça a ideia.

 

Ministério da Cultura falha

Filipe Artur Vidal afirma que as instituições do Estado, como os ministérios da Cultura e da Educação, devem encarar os símbolos como cultura e dar-lhes mais atenção.

Para o historiador, o problema é geral e tem de se fazer análises circulares. Critica as “falhas” na transmissão de valores e que esses são os identitários, porque os símbolos revelam a identidade de um povo. “Acusamos a juventude de estar a perder valores, como diz o reverendo Tony Nzinga, é porque os mais velhos não passaram a mensagem”. “Como é que vamos discutir ou defender os símbolos nacionais, quando os governantes nos obrigam a escrever Kwanza com ‘C’, quando as nossas línguas são africanas e o alfabeto africano não admite o ‘C’, também vão mudar a moeda nacional?”, questiona-se.

De acordo com o historiador, por as religiões terem o controlo das massas, também devem contribuir para a valorização da cultura, pois constata que há religiões que proíbem os fiéis de cantarem o hino, de conhecerem os símbolos e por estas viverem dentro do Estado angolano, devem respeitar e colaborar para a massificação das mesmas.

 

Guerra atrapalha

Os especialistas apontam a guerra civil como uma das consequências para a falta de credibilidade dos símbolos, pois entendem que muitos deixaram de acreditar na ideia de uma Angola nova. Filipe Artur Vidal desafia o Estado a dar mais espaço a figuras históricas como o músico David Zé e a José Eduardo dos Santos, Holden Roberto e Jonas Savimbi, defendendo, para os dois últimos, que se façam bustos por serem “ícones que lutaram pela nação”.

 

 

A Bandeira

 A bandeira nacional de Angola foi adoptada em 1975, na proclamação da independência. Tem duas cores dispostas em duas faixas horizontais. A vermelha representa o sangue derramado pelos angolanos durante a opressão colonial, a luta de libertação nacional e a defesa da Pátria; a preta, o continente africano. No centro, figura uma composição constituída por uma estrela, símbolo da solidariedade internacional e do progresso. A roda dentada e a catana, todas de cor amarela, representam a riqueza e homenageiam o povo trabalhador.

 

A Insígnia da República

É formada por uma roda dentada e uma ramagem de milho, café e algodão, representando os trabalhadores e a produção industrial, os camponeses e a produção agrícola.

Na base do conjunto, existe um livro aberto, símbolo da educação, cultura e o sol nascente, significando o novo país. Ao centro, estão colocadas uma catana e uma enxada, simbolizando o trabalho e o início da luta armada. Ao cimo, figura a estrela, símbolo da solidariedade internacional e do progresso.

Na parte inferior do emblema, está colocada uma faixa dourada com a inscrição ‘República de Angola’.

 

O Hino

O hino nacional foi criado em 1975 depois da independência. A letra é de autoria do escritor Manuel Rui Monteiro, cantada por Rui Mingas. Seguindo a cultura socialista defendida, na altura, pelo MPLA, a letra tem uma fortíssima carga ideológica, bem marcada por expressões como ‘Angola avante’, ‘revolução’, ‘pelo poder popular’, e com a máxima criada por Agostinho Neto, ‘um só povo, uma só nação’,