Ex-integrantes da Sinfónica Kapossoka criaram outra orquestra

Camerata de Luanda quer “voar com as próprias asas”

Desvincularam-se da destacada, conceituada e mais premiada orquestra Sinfónica Kapossoka, para dar lugar à realização de um sonho: a criação da própria orquestra. O ‘risco’ surtiu efeitos. 14 jovens apresentam-se como Orquestra Camerata de Luanda. Os jovens entendem que chegou o momento de “voarem com as próprias asas” e preparam-se para o concerto de estreia, em Novembro, na capital.

Camerata   de Luanda quer “voar com as próprias asas”
Manuel Tomás
A orquestra camerata de Luanda criada há nove meses 14 jovem
Conceição Felix

Conceição FelixMaestro e Violinista da OCL

Apesar de os músicos terem já experiência, ainda existe a necessidade de se trabalhar num novo reportório.

Desistiram dos principais assentos de uma das principais orquestras de Angola, a Sinfónica Kapossoka, a que pertenciam há mais de oito anos, para se tornarem “livres” e executarem sem qualquer impedimento músicas e/ou clássicos que gostem independentemente da época e do estilo. 

A Orquestra Camerata de Luanda foi criada há nove meses, por 14 jovens, com o foco na produção musical e formação técnico profissional, oferecendo um vasto reportório de diversos estilos, com destaque para clássicos angolanos e estrangeiros. 

Pretendem, acima de tudo, explorar e tornar a musicalidade angolana “mais forte”, explica Conceição Félix, maestro do conjunto.

Agenciados pela produtora Clé Entertainment, todos os membros ‘carregam’ mais de oito anos de carreira e preparam-se para um primeiro espectáculo, previsto para o próximo mês, mas ainda sem data, em que se vai destacar um repertório com temas de Rui Mingas, Matias Damásio, Teta Lando, Edmazia, Lourdes Van-Dúnem, entre outros.

Conceição Félix, de 22 anos, maestro e violinista da OCL, explica que, apesar de os músicos terem já experiência, ainda existe a “necessidade” de se trabalhar num novo repertório, pois “não têm a intenção de tocar as músicas, principalmente as mais frequentes executadas” na orquestra a que pertenciam anteriormente. 

Actualmente, enquanto trabalham na estrutura interna da orquestra, dedicam-se a dar aulas ao domicílio e fazem actuações privadas, em que os preços variam entre os 300 mil kwanzas e um milhão. 

Os jovens reconhecem que o público angolano não está 100 por cento preparado para este tipo de músicas, por isso, resolveram trabalhar com as músicas angolanas da actualidade, ou seja, aquelas que são mais consumidas. O que não significa que não vão tocar músicas dos anos de 1970. “Temos uma regra: sempre que formos fazer um concerto, vamos executar Angola 1970 até 2000, somos capazes e temos muito para dar, só precisamos de pessoas que apostem no nosso trabalho”, confia o violinista.

O jovem recusa-se a falar da actual relação que tem com o responsável da Kapossoka, limitando-se apenas a agradecer a oportunidade que Pedro Fançony lhes concedeu. “Graças a ele”, sublinha o músico, aprenderam tudo o que hoje sabem. E garantem que estão a trabalhar “arduamente para engradecer a orquestra, bem como o país” que os viu nascer. 

Por agora, necessitam de instrumentos novos e modernos, por isso, apelam aos empresários para os ajudarem neste sentido.

Sem ressentimentos

Camerata   de Luanda quer “voar com as próprias asas”

Rifén Marfila, de 22 anos, toca contrabaixo e guitarra há dez anos. Acredita que ter entrado para a nova orquestra foi a “melhor opção”. O instrumentista diz sentir-se “livre” das regras e das normas impostas pela Kapossoka e que, por conta delas, chegou a “perder” várias propostas de trabalho. 

Satisfeito com a decisão e consciente de que o mundo não é ‘um mar de rosas’, o jovem garante que agora consegue “caminhar melhor” e acredita que vai poder tocar com mais facilidade as músicas de que gosta. “O mais importante é o filho sair de casa e conseguir dar sustentabilidade ao seu sonho, mesmo que de forma arrojada”. Sem quaisquer ressentimentos com o responsável da Kapossoka, pelo contrário, Rifén agradece por ter feito parte do projecto, ter tido o privilégio de tocar em vários países e ainda ter aprofundado os conhecimentos que tinha sobre guitarra. Estudante de Línguas e Literaturas, espera que a Camerata de Luanda tenha “um público fiel” e que se torne uma das melhores orquestras a nível mundial.

Disciplinado e romântico 

Outro integrante da orquestra é António Vidal, de 21 anos. A decisão de ‘abandonar’ a Kapossoka “foi fácil”, porque já conhecia os colegas com quem trabalha há muitos anos. Violinista há dez anos, acredita que da sua nova ‘casa’ vão sair apenas músicas e/ou clássicos “com qualidade e que toquem na alma dos ouvintes”.  Apaixonado por música desde tenra idade, António Vidal acredita que a arte mudou muitas coisas na sua vida, sobretudo a convivência com familiares e amigos, o estado de espírito e o afastamento das ruas e que a música o tornou “mais disciplinado, sensível e romântico”.   Para a nova experiência e desafio, o instrumentista deseja todo o apoio do público, especialmente dos amantes da música clássica.