Falta de dinheiro trava realojamento

Há quase 10 anos à espera de uma casa

Em Luanda, as mais de três mil famílias desalojadas, algumas desde 2007, vão continuar a viver em cubatas e chapas degradadas de três metros quadrados. A falta de dinheiro pode condicionar a mudança. As administrações admitem ceder terrenos, mas não arriscam dizer quando.

Há quase 10 anos à espera de uma casa
Manuel Tomás

O sonho de dias tranquilos e em casas com melhor comodidade poderá continuar a ser miragem para as mais de três mil famílias que vivem em cubatas de chapas no Zango e na Quiçama, após terem sido desalojadas pelo governo provincial, no âmbito do projecto de requalificação da Ilha de Luanda. Desde 2009, aquelas famílias esperam que a promessa de terem novas moradias se concretize. Na altura, o tempo de espera seria de 90 dias. Mas já se passaram nove anos.

Ao NG, o administrador do Zango, Costa Gabriel, admite o “triste cenário” e as condições “precárias” em que aquelas famílias vivem, reconhecendo “não serem adequadas” para a vida humana. “Estamos preocupados”, afirma, justificando que “a actual situação financeira do país não favorece a distribuição de casas”.

Em conjunto com a administração de Viana, está em fase de preparação de terrenos para os lesados. “Não prometemos um prazo. Estamos a prepará-los e, a qualquer momento, podem ser distribuídos”, explica o responsável, que prevê o cadastramento de 10 mil lotes no Zango, Tandy e Vila Flor para mais de 10 mil famílias que vivem em condições de risco. “Numa primeira fase, vão ser contempladas mil famílias”, avança.

Três metros quadrados

Sem água potável, energia eléctrica e saneamento básico, as famílias enfrentam grandes dificuldades. Vivem em chapas de zinco que, devido ao tempo, já estão enferrujadas e com vários furos, o que se torna uma porta de entrada para os mosquitos. No interior, o cenário é pior: para se ter uma noção, por exemplo, um jogador como o basquetebolista André Gomes Kikas, de dois metros, não conseguiria ficar de pé. E nem conseguiria sequer colocar uma cama. A maioria das casas têm a dimensão de três metros quadrados. As casas têm chão sem cimento. Lá dentro, cortinas improvisam pequenos compartimentos, em que cabe apenas uma sala e um quarto. As refeições são feitas do lado de fora porque a ‘suposta sala’ é usada como quarto. Sem quarto de banho, as necessidades são feitas em sacolas e depois levadas para o lixo, já os banhos decorrem em casas de banho improvisadas, usadas, cada uma, por mais de cinco famílias.

Costa Gabriel assegura que a administração está a par de todos os problemas, mas explica que não são os únicos, tendo em conta que o distrito não é uma “zona infra-estruturada”. “Eles estão cansados de viver nessas condições. Compreendemos, mas infelizmente estamos limitados”, resigna-se

O administrador avisa que a ajuda às famílias poderá ficar-se apenas pela entrega de terrenos. “O ideal seria atribuir casas, mas a situação económica do país não permite”, lamenta.

Em finais de Janeiro, a administração de Viana anunciou que, em Março, poderia lotear terrenos nas zonas do Tandy e Musseque Baía para os desalojados do Zango. Cada beneficiário poderia receber não só o espaço, como também uma planta-modelo da casa, o título de posse, algumas chapas e ‘croquis’ de localização, tendo em conta o nível de vida de cada um e por cada agregado familiar. 

Um dos lesados e morador do Zango, Luís Artur, assegura que, ano após ano, a administração tem prometido resolver a situação, mas lamenta a demora. Aquele morador destaca o índice de mortalidade, principalmente de crianças, por doenças diarreicas e cutâneas por causa do consumo de água imprópria. “A água é comprada na vizinhança por preços altos e é conservada em tanques”.

Com os bichos da Quiçama

Em Janeiro, completaram-se quatro anos desde que as famílias que vivem na Quiçama foram retiradas do Kilombo, na Praia do Bispo. Os moradores apelidaram-na de Ilha Dourada. Mas a realidade está longe de fazer jus ao nome por não se tratar de uma ilha, mas de uma mata. Aqui os casebres têm como vizinhos capins e bichos. “Dormimos com os bichos”. Horas antes tinha acabado de matar uma cobra que quase mordia os gémeos recém-nascidos. Rosa Tavares afirma já terem visto terrenos cedidos pela administração, mas que se negaram a ir para lá. Com o aproximar das chuvas, o receio é maior. “Não sabemos como vai ser”, lamenta. “Estamos sempre doentes. Aqui tem muitos mosquitos”. O posto médico mais próximo da zona tem apenas um enfermeiro. Apelidado de ‘Acaba de me matar’, o posto está aberto apenas durante o dia. Em casos mais graves, são obrigados a deslocarem-se até à Muxima, que dista mais de 35 quilómetros.

Longe da cidade, muitos ficaram desempregados e, para sobreviver, têm de trabalhar como agricultores nas lavras. Outro morador, Ladislau diz sentirem-se “esquecidos”. O jovem, ex-atleta de futebol de salão, agora é comerciante de perfume e chinelas. “A vida é difícil”, queixa-se.

As obras da construção das possíveis casas de Isopor, destinadas aos desalojados, foram canceladas por falta de pagamento do governo provincial. Vicente Soares, administrador da Quiçama, reconhece a falta de dinheiro e admite que uma das soluções poderá passar por ceder espaços às famílias para construção.

Ao NG, uma fonte da Comissão Administrativa da Cidade de Luanda afirmou que o assunto ultrapassa as suas competências, pois era responsabilidade do Governo Provincial, que também se demarca de qualquer responsabilidade na falta de realojamento das famílias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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