Ordem alerta que se estão a formar “matadores”

10 mil enfermeiros ilegais

Angola necessita de, pelo menos, 60 mil novos enfermeiros e tem 12 mil no desemprego e mais de 20 mil sem carteira profissional. Metade exerce a profissão na função pública de forma ilegal. É o panorama descrito pelo próprio bastonário da Ordem dos Enfermeiros de Angola, Paulo Luvualu, em entrevista ao NG, em que defende a paralisação da formação de novos técnicos, porque muitos não oferecem qualidade.

10 mil enfermeiros ilegais
Manuel Tomás
Paulo Luvualu,

Paulo Luvualu, bastonário da Ordem dos Enfermeiros de Angola

Um enfermeiro mal formado é um autêntico matador. Esses promotores não têm a ideia de quantos matadores estamos a meter no mercado de trabalho.

Dos 37.450 enfermeiros inseridos na função pública, mais de 20 mil não têm a carteira profissional e, pelo menos, 10 mil enfermeiros exercem a profissão de forma ilegal, sem carteira profissional. A revelação é do bastonário da Ordem dos Enfermeiros de Angola (Ordenfa), Paulo Luvualu, que afirma que, até Janeiro, estas eram as informações disponíveis. O cenário actual pode ser diferente, tendo em conta que, em média, a Ordem passa entre 80 e 100 novas carteiras profissionais por dia.

De acordo com Paulo Luvualu, até Janeiro, a ordem tinha registado 60 mil enfermeiros à procura de obter carteiras profissionais. “É crime trabalhar sem carteira. A enfermagem é titulada e tem de ser exercida com a autorização da ordem profissional”, explica o responsável que contabiliza mais de 12 mil enfermeiros desempregados.

Por outro lado, lamenta que os profissionais de enfermagem ainda trabalhem em condições “deploráveis” e “dificílimas”. “Temos unidades sanitárias em que há só um enfermeiro e ele está proibido de se ausentar por qualquer motivo porque, senão, tem de fechar a unidade sanitária”. Na lista do que está mal, Paulo Luvualu afirma ainda haver unidades “sem materiais adequados”, outros “insuficientes” e que, em contrapartida, há unidades sanitárias equipadas, mas que estão a estragar-se “porque ninguém sabe usar”.  

Está prevista a admissão de cerca de quatro mil profissionais de enfermagem. E ainda abertura de um novo concurso. “É uma grande satisfação, mas o ingresso de mais profissionais não vai resolver o problema, mas vai mitigar. O país precisa de cerca de 60 mil profissionais”.

 

A formar “matadores”

O bastonário reconhece que o exercício da enfermagem tem estado a evoluir bastante, principalmente na formação. “Estamos com muitas instituições de ensino. Estamos a fazer uma formação em massa”, afirma o responsável que ressalta que nem toda a formação é de qualidade. “Há instituições que não têm condições apropriadas para a formação de enfermeiros, com excesso de estudantes por turma, falta de laboratórios adequados, carência de bibliotecas com bibliografia actualizada”, enumera Paulo Luvualu ,como factores que mutilam a formação.

O responsável defende a harmonização dos currículos de ensino da profissão e também o fim da abertura de novas instituições. “Estamos com pelo menos 50 instituições de ensino a formar enfermeiros. É um exagero. Não precisamos de muitas instituições, mas de ensino com qualidade”.

Em 2017, foram formados 25 mil novos profissionais. “Estamos a formar indivíduos para pôr na rua porque não há capacidade para empregar todos. E depois esses profissionais ficam frustrados”, alerta o bastonário, que aconselha o Governo a persuadir os promotores das instituições de ensino a não olharem apenas para o lucro. “As universidades estão mais preocupadas com o lucro do que com a qualidade da formação. É um perigo. Pode transformar-se num problema de segurança de Estado”, avisa. “Um enfermeiro mal formado é um autêntico matador. Esses promotores não têm a ideia de quantos matadores estamos a meter no mercado de trabalho”.

De modo a diminuir o número de profissionais mal preparados, a Ordem tem em carteira o projecto de instalação de um laboratório de simulação. “A ideia é colocar o laboratório como condição ‘sine qua non’ para a obtenção da carteira”. O projecto foi apresentado no ano passado ao Minsa e à 6.ª Comissão dos deputados da Assembleia Nacional e está avaliado em mais de 300 mil dólares.