Criança de sete anos continua em tratamento em Luanda

Visto trava viagem à África do Sul

Quase dois meses depois, a menina que recebeu sangue contaminado com o vírus HIV ainda continua no país. Segundo o secretário de Estado para a Área hospitalar, a viagem está dependente de visto. O Ministério já concluiu o inquérito em que detectou "erro humano grave", na transfusão de sangue infectado.

Visto trava viagem  à África do Sul
Santos Sumuesseca
A família vive num dos becos do Morro da Luz, em Luanda

O pai da criança José António, receia que a viagem não passe de uma falsa esperança, tendo em conta que o combinado foi que, um mês após o internamento, a filha seguiria para a África do Sul para continuar o tratamento.

O atraso do visto para a África do Sul está a condicionar a viagem da criança, de sete anos, que recebeu uma transfusão com sangue contaminado com sida, no Hospital 'Josina Machel', em Luanda. Ao NG, o secretário de Estado para a Área Hospitalar, Leonardo Inocêncio, garantiu ter tudo tratado, estando apenas a depender dos vistos para que a criança e a mãe embarquem para as ‘terras de Mandela’, para dar continuidade ao tratamento profilático a que está a ser submetida desde Outubro após a contaminação.

Desde Dezembro que está em vigor a isenção de vistos para a África do Sul. O acordo admite excepções para estudantes e pessoas em consulta médica.

A comissão de inquérito, criada para averiguar o que se passou, chegou à conclusão que houve um “erro humano grave”. Em declarações ao Jornal de Angola, a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, sem avançar datas, prometeu divulgar o resultado nos próximos dias. “Está a ser trabalhada a forma como os responsáveis vão ser responsabilizados”, acrescenta. O Ministério suspendeu a equipa médica envolvida na transfusão do sangue.

A criança, identificada apenas por Marcelina, deu entrada, no banco de urgências do ‘Maria Pia’, a 10 de Outubro, com dores de dentes, uma inflamação na bochecha e feridas na boca. Após exames médicos, concluiu-se que se tratava de uma anemia e que era urgente a transfusão de sangue. Dias depois, fez-se a transfusão. Descobriu-se depois que o sangue usado tinha sido de um portador do VIH/sida.

O pai da criança, José António, receia que a viagem não passe de uma falsa esperança, tendo em conta que o combinado foi que, um mês após o internamento, a filha seguiria para a África do Sul para continuar o tratamento.

 

Com necessidades

Uma desgraça ou um acidente? É a pergunta para qual, quase dois meses depois, José António e a família não encontram resposta para o erro que levou com que a filha recebesse sangue contaminado.

A família vive num dos becos do Morro da Luz, em Luanda, a escassos metros de uma das maiores mansões do país, pertencente a José Eduardo dos Santos. Devido às chuvas, a lama preta toma conta dos acessos e a entrada é dificultada pela água parada. Na pequena moradia, de apenas um quarto e sala, mal cabem todos. A sala de dois metros de comprimento e dois de largura é também usada como cozinha e quarto para os filhos. Além da primogénita, Marcelina, o casal tem uma filha, de cinco anos, e um casal de gémeos, de dois. Marcelina, como descreve o pai, é “boa aluna”e “dedicada”. Apesar dos sete anos e ainda a frequentar a 2.ª classe, já tem planos para o futuro: quer ser a responsável pela implementação das políticas para a gestão do sector que mais contribuí para a economia do país, ou seja, ministra dos Petróleos.

A vida que já era difícil ficou pior nos últimos dias. José teve de largar o emprego de pintor no Sumbe, Kwanza-Sul, onde tinha um rendimento mensal de 80 mil kwanzas. Agora vive dias dramáticos. “As crianças só têm o matabicho e depois esperam a noite pelo jantar. Estou a sofrer muito. Preciso mesmo de ajuda urgente”, lamenta o pai, que afirma sentir-se abandonado mesmo após o Ministério da Saúde ter garantido que ajudaria. Da ajuda divulgada, apenas recebeu dois sacos de arroz, de dois quilos cada, quatro litros de óleo e dois pacotes de feijão e sal. “É uma pouca-vergonha. Depois dizem na televisão que estão a ajudar”, lamenta. “Que ajuda é essa que nem compras de cinco mil chega?”, questiona.

Leonardo Inocêncio, garantiu ter recebido do gabinete de acção social do ‘David Bernardino’ a confirmação de que têm ajudado a família. E prometeu falar com os mesmos para que a ajuda seja forçada.

A rotina da filha não tem sido fácil. Todos os dias, ingere seis comprimidos diferentes que têm como objectivo não permitir que o vírus se instale no organismo. “Papá estão a me dar muitos medicamentos. Já estou boa. Porquê tantos medicamentos?”, é a pergunta habitual. Apesar de todos os esforços para esconder o que se passava, Marcelina apercebeu-se da situação, após ter visto um dos programas na televisão. “Encontrei ela triste e perguntei-lhe o que se passava. Ela disse: afinal trocaram o sangue da outra e não falam nada”, conta o pai, que conseguiu acalmá-la. Internada há um mês e já cansada do ambiente hospitalar, Marcelina pede ao pai para voltar para casa e à vida normal. “Quando viu a menina que estava internada com ela ir embora, começou a chorar”, conta o pai. Após o choro, teve uma hemorragia nasal, algo que, segundo os médicos, são os efeitos colaterais da medicação. Apesar do tratamento, José mostra-se receoso com o futuro da filha e com a probabilidade de ser seropositiva.

Para visitar a filha, no hospital pediátrico ‘David Bernardino’, percorre a pé cerca de 10 quilómetros, entre ida e volta.