Instituto da Mulher Negra (INMUNE) em Portugal

“Pretendemos combater os estereótipos impostos pela sociedade”

Sentindo a necessidade de inverter o quadro da mulher negra, 27 mulheres juntaram-se e, em Portugal, fundaram o Instituto da Mulher Negra (INMUNE). Mesmo com muitas limitações, as jovens esperam poder quebrar o ciclo do racismo e das exclusões de que são alvo. Em entrevista ao NG, os membros da associação, todas mulheres, prometem defender os direitos das mulheres negras em Portugal pretende, promover a igualdade social e de género, valorizar a cultura africana, assim como construir uma voz crítica e participativa na vida política.

“Pretendemos combater os estereótipos impostos pela sociedade”
Marlene Nobre
O INMUNE é composto por 27 mulheres

Como e quando nasceu a ideia de criar o instituto?

O Instituto da Mulher Negra (INMUNE) em Portugal nasce da necessidade de uma tomada de posição pública e política das mulheres negras face a um ambiente institucional que continua a limitá-las e que as mantém na base da pirâmide social em Portugal. Se antigamente se justificava a invisibilidade das mulheres negras e o seu silenciamento público com a baixa escolaridade, com dificuldades em falar o português e com a falta de ambição, hoje sabemos que, na condição em que nos encontramos, e as nossas mães e avós se encontraram, foi também fruto do racismo institucional. Isto porque, embora as condições tenham mudado, continuamos a sentir imensas dificuldades em sermos reconhecidas e valorizadas socialmente.

O que se pretende com a criação do INMUNE?

Temos como fundamento a oposição à invisibilidade e à discriminação das mulheres negras na sociedade portuguesa. A agenda envolve uma extensa pauta na promoção da igualdade social e de género; valorização da cultura africana; construção de uma voz crítica e participativa das mulheres negras em Portugal na vida política e na sociedade em geral; afirmação de um feminismo negro; implementação do diálogo entre as várias comunidades africanas em Portugal; criação de plataformas facilitadoras das necessidades das mulheres e meninas negras, nas áreas da saúde, educação, empregabilidade e justiça. Pretendemos combater activamente  o racismo, a xenofobia, as violências ligadas à orientação e identidades sexuais, a violência doméstica e os estereótipos impostos pela sociedade.

Quais são as dificuldades das mulheres negras, particularmente em Portugal?

Prendem-se com as questões sociais e económicas, tendo em consideração que alguns estudos indicam que a população mais vulnerável à pobreza extrema são mulheres. Este dado agrava-se quando se trata de mulheres negras e africanas, geralmente vítimas de racismo e de exploração.

Como ultrapassar esses problemas?

É preciso lutarmos por um mundo mais igualitário, promovendo uma maior justiça social. Porém, não se pode pensar na resolução dos problemas sem pensar que elas fazem parte de um sistema capitalista e patriarcal. É preciso pensar nelas tendo em conta uma perspectiva feminista. As dificuldades que as mulheres têm a superar estão inteiramente ligadas ao sistema económico e social, já que as mulheres se encontram numa luta há séculos para acesso aos seus direitos, à liberdade nas tomadas de decisões importantes nas suas vidas, acesso à educação, o direito ao seu corpo e à paridade salarial.

Como é ser mulher negra em Portugal?

É sinónimo de luta diária pela sobrevivência e pelo respeito. A maior parte de nós é Bonifácia (nome fictício dado às empregadas domésticas e de limpeza). Acordamos de madrugada e deitamo-nos de madrugada. Limpamos várias casas, vários escritórios, tudo para levar o pão para a nossa família. Tomamos conta e cuidamos dos filhos dos outros, quando os nossos próprios filhos ficam sozinhos. Somos o esteio e suporte da nossa família, uma vez que trabalhos para os homens estão escassos devido à falta de obras de construção em Portugal.

Qual a melhor forma de lidar e combater a discriminação?

Não sabemos se será a melhor forma, mas o primeiro passo é reconhecer que o racismo é um problema sério, deve-se criminalizá-lo e puni-lo severamente. As pessoas devem sentir-se inibidas de tecer comentários racistas, promover ideias e ideologias racistas e cometer actos racistas.

São necessárias novas leis para o combate ao racismo?

Em Portugal, precisa, urgentemente, de uma legislação que condiga com os crimes praticados e historicamente impunes, uma legislação que entenda que o racismo é real, actual e sistemático, e que afecta diariamente as comunidades negras que fazem parte desta nação.

“Negros tornam-se editores da sua própria história”

Um estudo recente da Universidade de Southampton, na Inglaterra, mostra que as mulheres negras são o principal alvo de comentários depreciativos nas redes sociais. Há estudos em Portugal sobre esta temática?

É lamentável que situações como essas ainda ocorram no século XXI. É humilhante termos que passar por isso. Mas o lado positivo e inesperado é que cada vez mais vamos tendo ferramentas para enfrentar todos esses preconceitos e vamos à luta sem medos e sem receios. Não conheço nenhum estudo em Portugal sobre a matéria, até porque o racismo em Portugal continua a não ser visto como motivação para o que se passa na internet. As caixas de comentários dos jornais diários estão cheias de comentários racistas e de expressões de violência gratuita, mas as pessoas sabem que não lhes acontece nada. Sendo um país de ditos ‘brandos costumes’, tenta-se escamotear tudo, tenta-se relativizar e secundarizar a questão do racismo. Ainda há muito caminho a percorrer, mas estamos seguras que as nossas filhas e netas não terão que passar por esses caminhos sinuosos como as nossas antepassadas passaram.

Em 2017, a Universidade de Harvard mostrou que, entre os países europeus, Portugal tem dos mais altos índices de preconceitos. Sentem o mesmo?

Claro que Portugal é um país estruturalmente racista, com um passado colonial que o comprova e com uma realidade que o denuncia, mas a questão primordial não é comparar os níveis de racismo e preconceitos explícitos de cada país, mesmo porque o racismo é insidioso e opera, muitas vezes, de forma silenciosa e subtil. Mais importante é procurarmos formas de combater e condenar actos e ideias racistas e entendermos a forma como os outros países estão a lidar com o problema para tirarmos lições. Claro que casos mais flagrantes como a acusação dos 18 polícias da esquadra de Alfragide de racismo, de falsificação de autos e de agressões a jovens negras e negros, que está agora em julgamento, são facilmente apontados por nós e reconhecidos por outros. Mas mesmo isso não tem sido noticiado como devia e muita gente desconhece que está a acontecer um julgamento deste impacto neste momento. Se fossem negras e negros a serem julgados por agressões a polícias, a notícia encheria páginas dos jornais e abriria os noticiários.

Movimentos de defesa dos negros não constituem complexo de inferioridade?

O que subjuga os negros a um lugar de inferioridade é a violência acarretada pelo racismo, pelas desigualdades sociais que, ainda hoje, são fruto dum passado colonial e esclavagista. Os movimentos negros difundidos por todo o mundo vieram justamente romper o silêncio das desigualdades, construído por uma sociedade patriarcal, branca e racista. Negras e negros renascem com uma voz de empoderamento, resgatando e conquistando liberdades, reivindicando o seu espaço como sujeitos e criando novas narrativas. Nos Estados Unidos da América, vozes negras gritam — vidas negras importam (‘Black Lives Matter’). No Brasil, vozes negras exigem justiça — ‘Marielle, presente’! Em Portugal, nasce o INMUNE, pelo olhar crítico de mulheres negras revolucionárias. Por todo o lado, negras e negros erguem vozes múltiplas porque a luta é plural. Em Angola, nasceu em 2018 o movimento LGBTQI, Íris Angola e o Colectivo Feminista Ondjango prossegue o caminho em prol da ‘realização dos direitos humanos das mulheres e meninas em Angola’.

É, também, o tempo da Década Internacional dos Afrodescendentes, com o lema ‘reconhecimento, justiça e desenvolvimento’ (2015-2024), declarada pela ONU, que destaca e promove os direitos humanos, a cultura e a história dos povos afrodescendentes.

Colocar o negro no centro do debate na sociedade, seja pela criação de movimentos activistas, seja pela criação de dias de celebração da cultura negra, como o caso do dia da consciência negra, não é menorizar o seu valor social, mas, sim, repor uma justiça histórica. Acrescentar valor às agendas dos movimentos negros, consciencializar e educar as sociedades de que o racismo é um sistema de dominação social. Que a igualdade racial é importante na concepção de uma sociedade mais justa e equilibrada. E mais desenvolvida. O verdadeiro desenvolvimento das sociedades é a equidade de valores, sociais, raciais e de género. Estamos a viver momentos muito importantes para a afirmação da nossa identidade. O tempo presente e o tempo futuro continuarão ligados à memória do passado (à escravatura, ao colonialismo, aos movimentos das Lutas de Libertação, aos momentos de emancipação da cultura negra), mas há, agora, um novo papel que urge: negras e negros tornam-se editores da sua própria história.

 

 

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