Heno Magalhães, atleta de futebol de muleta e campeão do mundo

De fiscal de mercado a ‘estrela’ mundial

A deficiência física não impediu 12 atletas de serem campeões do mundo no seu desporto favorito. Levaram Angola aos píncaros da modalidade, com a vitória no México. O NG visitou a família do melhor avançado angolano em futebol com muletas. Heno superou várias dificuldades, depois do acidente que lhe amputou uma perna. No próximo mês, vai jogar para a Turquia.

De fiscal de mercado a ‘estrela’ mundial
Arlindo Adão

Arlindo AdãoPai do Atleta

A paixão pelo futebol não veio por acaso.

Bem no coração do Sambizanga, junto à praça da Pombinha, considerada pelos os moradores como ‘filha’ do antigo mercado do Roque Santeiro, encontra-se a casa do Heno Magalhães, onde reside com os pais, esposa, filhos e irmãos. Devido às chuvas que se abateram sobre Luanda, a lama preta toma conta dos acessos e atingiu a casa do campeão. O atleta foi o último a marcar o 5.º penálti que deu a vitória e o título de Angola no Mundial de futebol de muletas, recém-terminado no México, diante da Turquia, por 5-4.

Domingas António

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mãe do ponta de lança, quase entra em prantos ao recordar os momentos dramáticos que viveu a seguir ao acidente que levou à amputação da perna direita do hoje campeão mundial.  Com alguma teimosia, aceita abrir o coração. Nesse dia, nem sabia o que fazer, quando se apercebeu do acidente do filho. Na altura, Heno tinha cinco anos e, quando brincava com os seus amigos na porta de casa, surgiu um carro. Atropelou duas crianças e Heno foi a que mais sofreu. Desesperada, Domingas António pediu ajuda à irmã para o levar para o hospital ‘Josina Machel, onde passaram vários dias, até à recuperação e alta médica. Segundo a tia, mesmo criança, nunca gostou de usar prótese, preferindo muletas para jogar à bola.

Devido à gravidade do acidente, correu um sério risco de perder as duas pernas, mas, com os tratamentos, os médicos conseguiram salvar a perna esquerda, mas, para a direita, a solução encontrada foi a amputação. Antes do acidente, Heno sempre gostou de futebol e dizia que seria atleta profissional. Hoje cumpre esse sonho. Já assinou com um clube turco, Istambul Yeditepe Sport Clube, e vai viver naquele país.

 

Na CADEIA

Apesar do sucesso, nem tudo foi um ‘mar de rosas’ na vida de ‘Kimbito’, como Heno é carinhosamente tratado pela família. Esteve preso por um ano e dois meses na cadeia de Viana, por causa de um furto de telefone. O comportamento violento que apresentava na altura levou-o a ser transferido para a cadeia da Quiminha, Mesmo preso, tinha como companheira uma bola de futebol, aperfeiçoando a técnica nos momentos livres. A paixão pelo futebol resultou e é considerado o melhor avançado do futebol adaptado em Angola.

Quando não está a jogar à bola, nos tempos livres, ‘Kimbito possui outra ocupação: é fiscal do mercado da Pombinha, que fica encostado à sua residência. No Sambizanga, a sua popularidade é comparada ao kudurista Nagrelha, dos Lambas, razão esta que a sua mãe se recusa andar com ele. “É tanta gente a chamá-lo que até se esquece de mim”, conta Domingas António.

Durante a conversa, vizinhos e curiosos também queriam dar o seu testemunho. A felicidade da mãe também é partilhada pela nora. Margarida José,

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esposa do atleta, que garante não conseguir encontrar qualquer “qualidade negativa” no atleta. Os dois têm dois filhos. Margarida José apoia-o na ‘aventura’ de ir viver para a Turquia.

A paixão pelo futebol “não veio por acaso”, assegura Arlindo Adão, pai do jogador, que se gaba de ter passado o gene ao filho. O progenitor chegou a ser defesa esquerdo e garante que ainda não perdeu completamente o toque de bola, mas não chegou a jogar como profissional. “Todo o pai gostaria de ter um filho como ele”, resume o progenitor, orgulhoso.

 

Treinador tira do bolso

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Não se pode falar da carreira de Heno Magalhães sem citar Pedro Abel, treinador do Misto de Luanda, formação onde joga o campeão. Considerado ‘segundo pai’ e conselheiro do jogador, ao NG conta que Heno e os demais atletas que constituíram a selecção nacional são “verdadeiros vencedores e heróis pela forma como superam as dificuldades”.

O treinador reconhece “não ser fácil” manter uma equipa de futebol de muletas, devido às dificuldades sociais dos atletas. Quadro sénior do Ministério da Juventude e Desportos, revela que, com o pouco que ganha, adquire equipamentos para a sua formação, tida como a melhor de Angola. Sente-se regozijado pelo seu atleta que fará carreira na Turquia, a partir do próximo mês, constituindo um efeito inédito, da modalidade em Angola

 

 

Campeões chegam hoje

A selecção de futebol com muletas regressa em Angola esta manhã, com o troféu de campeões do mundo na bagagem, vindo de Guadalajara, México, onde, no passado domingo à noite, conquistou o título, ao derrotar, na final, a similar da Turquia, por 5-4, no Estádio de Santa Lúcia, em San Juan de Los Lagos, México, após a marcação de grandes penalidades. Com este resultado, Angola conquista, pela primeira vez, o troféu mundial, depois de ter perdido na final, em 2014, também no México, diante da Rússia, por 1-3, no Estádio de Sinaloa. A selecção esteve representada por 12 atletas, o Misto de Luanda e do Huambo foram as equipas que mais atletas forneceram à selecção. E o Comité Paralímpico Angolano (CPA) teve um de orçamento de 36 milhões de kwanzas para Angola conseguir participar no Mundial do México.

 

 

PERFIL


Heno Guilherme

Idade: 26 ANOS

Local de nascimento: distrito do Sambizanga (Luanda)

Início da prática desportiva: 2011

Deficiência: pé direito (adquirida)

Equipa: Misto de Luanda

Posição: Ponta-de-lança

Selecção nacional: vice-campeão e campeão do mundo, em 2014 e 2018 (México). 2 participações em Taças das Nações (Gana e Quénia).

Títulos nacionais: campeonato em 2015, duas Taças de Angola em 2015 e 2016 e três Taças Fundação Lwini em 2011, 2013, 2015 e 2016.