Entre os mais de 380 mil migrantes ‘expulsos’ na ‘Operação Transparência’

Supostos angolanos atirados para RDC

Há angolanos que se queixam de serem ‘expulsos’ do país entre os migrantes ilegais na ‘Operação Transparência’. Do outro lado da fronteira, sem familiares e sem recursos, estão atirados à sua sorte. O Governo reconhece que poderá eventualmente existir esses casos, mas assegura que tudo fará para que não aconteçam. Desde o início da operação, saíram do país mais de 380 mil imigrantes.

Supostos angolanos atirados para RDC
Teresa Fukiady
RDC, ameaçaram retaliar Angola

Ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do PR

Se há angolanos a residir na RDC de forma ilegal, o governo congolês tem todo o direito de mandar de volta esses nossos angolanos.

Francisco Kandala garante rer nascido em Angola. Apesar de não ter documentos, assume-se como angolano. Ele e a família foram expulsos do país, na sequência da ‘Operação Transparência’, que decorre desde o mês passado em algumas províncias. Francisco afirma ser filho de mãe angolana e pai congolês, que veio a Angola foragido da guerra, mas já falecido. O jovem, de 21 anos, teve o mesmo destino que os mais de 380 mil migrantes que foram ‘convidados’ a abandonar o país por estarem ilegais. 

Do outro lado da fronteira, a família de Francisco está a viver um drama: sem pessoas conhecidas para os acolher, vive na rua. Para trás, deixou quase tudo: casa, amigos, todos os bens adquiridos e toda uma vida construída durante anos. “Eu sou angolano. Nasci cá na Lunda-Norte”, garante o rapaz com um semblante cansado e triste. “Não temos familiares no Congo”, lamenta, ao revelar que, para sobreviver e ajudar a mãe, que já tem mais de 60 anos, ele e os irmãos arranjaram um ‘biscate’: carregam malas e outras mercadorias no posto fronteiriço de Kamako, entre a Lunda-Norte e a República Democrática do Congo (RDC). O pouco que conseguem durante o dia serve para a alimentação da família que dorme ao relento. “Tínhamos a nossa casa que o meu pai deixou antes de morrer”, lembra o rapaz, ao falar das péssimas condições em que se encontram actualmente, esperançoso de que a situação volte ao normal e que regressem a Angola.

Tal como Francisco Kandala, há outras famílias que se queixam e se sentem “injustiçadas” por terem sido expulsas e empurradas para longe da sua terra-mãe. A história de João é semelhante à de Francisco. O jovem garante ser filho de pai congolês e mãe angolana e que também nasceu na Lunda-Norte. Ele, a esposa e a filha recém-nascida foram mandados para a RDC, por alegadamente serem estrangeiros. Há quem reconheça ser estrangeiro, mas zela pelos direitos dos filhos nascidos em Angola. Paulo, por exemplo, lamenta ter de interromper o ano lectivo das filhas após a expulsão por permanecer de forma ilegal em território nacional. “Tudo bem que sou congolês, mas a minha esposa e duas filhas são angolanas”, assegura, acrescentando “não ser justo” que o mandem para fora, porque não sabe como vai sobreviver do outro lado da fronteira.

O ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, Pedro Sebastião, admite que, no processo de repatriamento de ilegais para o Congo Democrático, poderá existir casos de angolanos também repatriados. Ou no caso, expulsos. Mas garante que as autoridades têm tido cuidado para que situações dessas não aconteçam. “Temos procurado tanto quanto possível evitar isso, o que não quer com isto dizer que não possa eventualmente um ou outro cidadão ser apanhado nesta circunstância, mas estamos a trabalhar para que não aconteça”, promete.

Apesar dos testemunhos ouvidos pelo NG, Pedro Sebastião assegura que ainda não teve conhecimento de situações semelhantes. “Não tenho este dado. Uma vez que todos os 380 mil cidadãos regressaram de forma voluntária. Não há casos de rejeição do outro lado da fronteira. Não temos registos.”

 

Angola ‘minimiza’ ameaças congolesas

Na semana passada, as autoridades da RDC ameaçaram retaliar Angola devido à expulsão de congoleses que residem ilegalmente no país, levantado a possibilidade de darem uma “resposta sem paralelo” com a expulsão de angolanos ilegais no seu país. As declarações surgiram após relatos de violência alegadamente protagonizada pelas forças policiais e militares angolanas, incluindo pilhagens e recurso a armas de fogo a congoleses para os obrigar a partirem.

Pedro Sebastião minimiza as ameaças, considerando que a RDC tem “legitimidade para repatriar os angolanos ilegais no seu país”. “Se há angolanos a residir na RDC de forma ilegal, o governo congolês tem todo o direito de os mandar de volta da mesma forma que o nosso Governo e qualquer outro que se preze tem o direito de retirar todos aqueles que estejam a viver ilegalmente no seu território”, sublinha, acrescentando que para o caso de Angola a situação está ligada ao garimpo ilegal de diamantes.

Pedro Sebastião acusa ainda o governo congolês de aproveitamento político: “Dentro de pouco tempo, o país vai realizar eleições e não gostaríamos muito sinceramente de sermos envolvidos nas querelas internas desse país, ao que aparece há algum aproveitamento político em relação ao momento que se está a viver”. “A operação não visa a RDC, porque entre nós existe uma convivência sã. Não há interesse nenhum, suponho, tanto de um lado como do outro que sejam molestados os pacatos cidadãos, se há do outro lado, não é nossa intenção responder pela mesma moeda”, sublinha.

 

Apreendidos mais de 17 mil quilates de diamantes

O último balanço da ‘Operação Transparência’, divulgado na passada semana, dá conta que, desde o início da operação, a 26 de Setembro, já foram ‘expulsos’ mais de 380 mil estrangeiros, maioritariamente da RDC, que se dedicavam ao garimpo de diamantes e outros por entrarem no país de forma ilegal.

Foram apreendidos mais de 17 mil quilates de diamantes, mais de um milhão de dólares, encerradas mais de 231 casas de compra e venda de diamantes, 90 cooperativas, apreendidas 59 armas de fogo e diversas viaturas e motorizadas. Foram também recuperadas mais de 71 dragas, além de outros meios usados no garimpo de diamantes.