Apenas um em cada três doentes sabe que sofre da doença

30 por cento da população sofre de hipertensão

Pelo menos, três em cada dez pessoas sofrem de hipertensão e, dessas, apenas uma sabe que tem a doença. Os números tendem a aumentar. Até 2015, a hipertensão matou mais de um por cento da população angolana e as doenças cardiovasculares foram responsáveis pela morte de quase cinco por cento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, até 2030, as doenças cardiovasculares serão responsáveis pela morte de 23,6 milhões de pessoas em todo o mundo.

30 por cento da população sofre de hipertensão
Manuel Tomás
Gade Miguel,

Gade Miguel, cardiologista

As doenças relacionadas com o coração mataram entre 4,65 e 5,35 por cento dos angolanos até 2015. Cerca de 20 por cento da população padeça de doenças cardiovasculares.

Apenas um terço das pessoas que sofrem de hipertensão tem consciência do problema de que padece e como pode combater. E 30 por cento da população angolana padece de hipertensão. Mas a tendência aponta para que estes números sejam mais elevados, alerta Gade Miguel, cardiologista e presidente da Sociedade Angolana de Doenças Cardiovasculares (SADCV). Gade Miguel anota os ‘culpados’: estilo de vida, sedentarismo, hábitos alimentares não saudáveis e bebidas alcoólicas. Os mais jovens são também os mais vulneráveis.

Nesta sexta-feira, assinala-se o Dia Internacional da Hipertensão. A SADCV tem em agenda a criação do registo nacional de hipertensão para controlar, com maior precisão, os números da doença. Para Gade Miguel, a falta de conhecimento sobre a doença é uma “grande preocupação” e, por isso, defende uma maior divulgação da doença e formas de prevenção.

Silenciosa, mas perigosa, a hipertensão é um dos factores para o surgimento de doenças cardiovasculares, que são tidas como a segunda maior causa de mortalidade hospitalar no país, superada apenas pela malária. As doenças relacionadas com o coração mataram entre 4,65 e 5,35 por cento dos angolanos até 2015. As estatísticas apontam que cerca de 20 por cento da população padeça de doenças cardiovasculares.

Eleito em Setembro do ano passado, o novo ‘chefe’ da SADCV  reconhece que Angola tem, cada vez mais, pessoal qualificado para o rastreio e diagnóstico a doentes com cardiopatia. “Isso tem jogado um papel fundamental e mostrado que a incidência da doença não está muito longe daquilo que são as projecções mundiais com a agravante de que aquelas doenças que dependem de factores ambientais e socioeconómicos têm prevalência maior no nosso meio”, acrescenta.

No país, apenas um hospital público dispõe de serviços de intervenções cirúrgicas e tratamento de doenças cardíacas em adultos. Trata-se do maior hospital do país, o ‘Josina Machel’, mais conhecido por ‘Maria Pia’. Desde 2005, o hospitalar já fez mais de 1.500 intervenções cirúrgicas.

Gade Miguel garante que, “aos poucos, o país vai ficando equipado de pessoal e tecnologias para responder, de forma satisfatória, às necessidades”. “Muitos dos procedimentos que há algum tempo só eram feitos no exterior, hoje fazem-se cá com relativa tranquilidade”, assegura. “Se alguns procedimentos terapêuticos da doença cardiovascular já tiveram um nível de actividade relativamente aceitável, hoje há uma redução considerável dado o momento que o país vive”, lamenta o médico, que admite, apesar dos dados positivos, que o país “ainda está muito aquém da real situação no que diz respeito às doenças cardiovasculares”.

Dados da Ordem dos Médicos de Angola, divulgados no ano passado, mostram que existem apenas 100 cardiologistas, sendo 70 nacionais, para um universo de mais de 28 milhões de pessoas. “A maior parte das actos médicos em cardiologia estão concentrados nas grandes cidades, o que significa que uma boa parte dos doentes no interior não tem acesso a um médico cardiologista”, lamenta Gade Miguel.

 

Crise reduz operações

Não há dados exactos, mas, em Angola, o número de crianças com problemas do coração é “elevadíssimo” e grande parte precisa de intervenção cirúrgica, reconhece Gade Miguel. “A incidência das cardiopatias congénitas é igual em todo o mundo.  A cada mil crianças que nascem, pelo menos, oito têm problemas no coração e três delas precisam de intervenção cirúrgica antes de um ano de vida”, revela.

Mas, apesar dos números preocupantes e com a crise financeira, o programa de operações de cirurgias cardíacas a crianças, uma parceria entre o Ministério da Saúde (Minsa) e a Clínica Girassol, em Luanda, está em declínio. O programa que operava anualmente cerca de 400 crianças do Hospital ‘David Bernardino’, número já considerado “irrisório”, foi reduzido para 100. “As crianças vinham referenciadas do hospital pediátrico. Já é um número irrisório, mas aceitável”, admite Gade Miguel.

Mesmo com o declínio acentuado do programa, o número de crianças tratadas chega a perto das três mil. Os serviços são subcontratados em que a mão-de-obra prestadora de serviço é estrangeira e os contratos são feitos em divisas. Com o problema das divisas, fez-se a revisão dos contratos e o resultado foi a redução da actividade. Os cardiologistas operam cerca de 100 crianças por ano, de recém-nascidas às com 18 anos”. Gade Miguel chegou a ser o único cirurgião angolano numa equipa constituída por mais de 10 especialistas portugueses.

A cooperação com os portugueses, segundo conta o cirurgião, além da prestação de cuidados, incluía a formação para que num determinado período houvesse profissionais  nacionais autónomos para dar continuidade. “Se uma das componentes foi muito bem feita devo dizer que a da formação deve um défice muito grande”, afirma. “O facto é que o país mergulhou na crise, os contratos tornaram-se impossíveis e hoje não temos pessoal formado”.

 

Sociedade com sete anos

A Sociedade Angolana de Doenças Cardiovasculares (SADCV) foi proclamada em Outubro de 2012. Surgiu por força dos desafios ligados à crescente necessidade de pesquisa, formação e informação na área das doenças cardiovasculares, bem como de cumprir com os desafios do milénio.

A SADCV tem como objectivos promover congressos, actualizações médicas e a implementação de programas educativos, de modo a ter estatísticas fiáveis e contribuir para estancar os níveis das doenças cardiovasculares em Angola.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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