João Boaventura Ima-Panzo, director-geral da Escola Superior Pedagógica do Bengo

“Só se poderá exigir muito do professor, quando ele for valorizado”

Na Escola Superior Pedagógica (ESP) do Bengo há três anos, João Boaventura Ima-Panzo mostra-se preocupado com a falta de incentivo para a aplicação, em simultâneo, dos três pilares do ensino superior. O director-geral da única instituição superior pública no Bengo receia que a fraca valorização dos professores traga consequências negativas. Acredita que, com a extensão, as universidades podem ajudar a resolver problemas das comunidades, como aborda no livro lançado na semana passada.

“Só se poderá exigir muito do professor, quando ele for valorizado”
D.R.
Ima-Panzo, director-geral da ESP do Bengo

Acaba de lançar uma obra intitulada ‘Extensão universitária m Angola - Tendências, acções e projecções’. O que o motivou a realizar a pesquisa?

Decorre um bocadinho, por um lado, da minha experiência pessoal no trabalho com extensão universitária de alguns anos e, por outro, da inexistência de bibliografia para situar a extensão universitária no nosso país. 

O que estará na base da escassez de bibliografia?

Não há uma tradição por parte da academia angolana generalizada no trabalho com extensão universitária. O que há é uma tradição na vertente do ensino, da formação, através de aulas teóricas e, em alguns casos, práticas, mas as dimensões da investigação científica e da extensão são muito pouco trabalhadas e debatidas. Nesta trilogia, a extensão é considerada o terceiro pilar e começa a emergir uma certa consciência sobre esta dimensão com exemplos muito reputáveis e dignos de partilha.

Será que a fraca tradição se deve à falta de motivação?

Sim, a falta de motivação está no fraco interesse por parte da academia, mas também a falta de consciência da necessidade do trabalho com a extensão, bem como a falta de institucionalização desta dimensão e transformá-la como parte do trabalho do docente e investigador. Esta consciência tem de ser desenvolvida para podermos reivindicar incentivos.

E de onde devem partir os incentivos?

Isso deve ser trabalhado de forma indissociável. O professor e o aluno devem trabalhar na formação, na componente do ensino, da investigação científica e da extensão. Esta última porque permite o diálogo com a comunidade, consegue levar o que de melhor tem a universidade para a comunidade para que esta retire o que melhor tem para ser transformado e produzir conhecimento. A matéria-prima da universidade é o conhecimento. Manuseia-se o conhecimento já produzido, a investigação científica constitui a parte para a construção do novo conhecimento e a extensão dá utilidade ao conhecimento produzido. É a transformação do estudante num actor capaz de fazer coisas com o que aprende, independentemente da área de formação e transformar o aluno num actor social, num cidadão. No ensino superior, não lidamos com futuros cidadãos, são cidadãos de verdade. Para tal, têm de participar na transformação da sociedade com o conhecimento que lhes é disponibilizado.

Como olha para a interligação dos três pilares do ensino superior nas instituições em Angola?

Há muito trabalho a ser feito devido a um conjunto de carências. Um dos problemas tem que ver com a qualidade do corpo docente. Outra dificuldade é a fraca valorização do docente, do ponto de vista da remuneração e de outras regalias, que permitam o acesso a recursos para realizar o seu trabalho da melhor forma possível. Para além de constrangimentos com equipamentos e infra-estruturas, como laboratórios, que, de algum modo, dificultam o fazer universidade no dia-a-dia. Mas não estamos de braços cruzados, apesar das dificuldades.  

 Como a sua instituição tem servido a comunidade?

De diversas formas. A realização de projectos de extensão tem sido por excelência a maneira que encontrámos para estarmos próximo s da realidade social. Por exemplo, temos desenvolvido projectos de orientação de famílias com crianças com necessidades educativas especiais, que visam fundamentalmente a sensibilização de levarem as crianças à escola e considerá-las pessoas com direitos como qualquer outra dita ‘normal’. Este é um trabalho que desenvolvemos com o governo da província e com a escola do ensino especial. Como consequência, temos tido uma maior taxa de matrícula de crianças com necessidades educativas especiais e uma maior compreensão por parte dos encarregados de educação. Trabalhamos na perspectiva da inclusão dessas crianças na sociedade. Por outro lado, temos contribuído para a formação de três mil cidadãos que foram alfabetizados por via da intervenção directa da ESP. Temos cerca de 350 estudantes distribuídos pela comunidade a fazer alfabetização. E temos feito também trabalhos de nivelamento escolar do ensino primário ao secundário na matemática e língua portuguesa, para a motivação motora e produção de texto. São trabalhos que os estudantes desenvolvem coordenados pelos professores. É uma forma de democratização do ensino e todos esses projectos estão alinhados às políticas públicas.

Esta fraca valorização tem tido implicação nos quadros?

Claro! É inerente. Uma maior valorização social do docente redunda numa maior qualidade da oferta formativa. São coisas que não se podem dissociar. É uma responsabilidade do Estado. E é preciso que a sociedade compreenda que a escola não é uma tentativa, mas sim uma certeza. Se houver esta compreensão, mais facilmente se colocarão ao dispor das instituições de educação e ensino mais recursos. Obviamente, há um trabalho árduo que tem sido feito na criação de melhores condições, mas temos de sair do discurso à acção. Tem de haver um reflexo. Os profissionais têm de sentir que se saiu da teoria à prática para que se possa cobrar mais. Ninguém dá o que não tem. Isto é proporcional. Só se poderá exigir muito do professor, quando ele for valorizado.

 Sente sobrecarga por ser a única instituição do ensino superior pública no Bengo?

Sim. Há uma pressão muito grande na procura dos cursos e, muitas vezes, por falta de oferta mais diversificada, alguns estudantes entram na ESP do Bengo não por vocação, mas porque não querem ficar parados. Há a necessidade de se aumentar a oferta, pois há muita juventude na província que precisa de fazer outro tipo de formação, que não seja a pedagógica. Precisamos de professores, mas necessitamos também de engenheiros e de outros profissionais.

 Como vê o perfil de entrada nesses três anos na direcção da ESP do Bengo?

Tem estado a melhorar, a considerar o que temos tido nos resultados dos exames de acesso. Com o passar dos anos, os resultados têm sido mais satisfatórios. Há um trabalho mais denso e profundo por parte dos professores no ensino geral.

 E o perfil de saída?

Temos uma grande preocupação com o perfil de saída. Este é um desafio. Não importa como entra. Ou seja, é bom e essencial que entrem da melhor forma possível, mas a porta de saída tem de ser conforme o perfil traçado, para que possamos apresentar à sociedade um profissional à altura das exigências mercado.

 O corpo docente da ESP é satisfatório?

A nossa aposta tem sido a centralidade dos recursos humanos. Temos tentado imprimir uma maior valorização dos quadros.

 Como tem feito essa valorização?

Criando condições de trabalho, assegurando compensações remuneratórias pelos vários serviços que fazem de forma regular, promovendo técnicos a cargos de chefia, para melhorar o desempenho profissional, social dos agentes e da própria instituição. Temos, nesses três anos, uma inversão do quadro. A maior parte, ou seja, 80 por cento do quadro de pessoal com necessidade de formação pós-graduada, está em formação no país e no estrangeiro. Há pouco menos de um mês, recebemos quatro mestres formados em Portugal. E isso vai elevar a qualidade de ensino na instituição. Prevemos ter, para o próximo ano, 60 por cento dos docentes com formação pós-graduada. 

 

“Muito cedo para tirarmos ilações conclusivas”

Que avaliação faz do novo quadro político que o país vive?

A avaliação é positiva. A tendência é esta, um sentido de estar na vida pública diferente daquele que o novo executivo encontrou. Todo este ambiente institucional muito importante e fundamental para que possamos desenvolver o país. A avaliação é positiva. Quer no domínio dos pronunciamentos, quer das acções que são realizadas. De qualquer forma, ainda é muito cedo para tirarmos ilações conclusivas sobre a acção governativa que se desenvolve neste momento. Mas o curso do que se tem feito faz-nos antever um futuro muito positivo no fim deste mandato.

 

Um professor de Português

João Boaventura Ima-Panzo é doutor em Letras pela Universidade da Beira Interior, Portugal; mestre em ensino da Língua Portuguesa pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; licenciado pela Universidade de Lisboa.

Já exerceu, de entre outros, o cargo de decano da Faculdade de Direito da Lunda-Norte, director-geral adjunto para os assuntos científicos da Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte e presidente da Associação de Estudantes do ISCED – Lubango.

É, desde Novembro de 2015, director-geral da Escola Superior Pedagógica do Bengo, onde lecciona, entre outras cadeiras, Linguística Aplicada.