Pode ser expulsa do MPLA

‘Tchizé’ dos Santos sob fogo cruzado

A filha de José Eduardo dos Santos pode ser expulsa do MPLA. Violou os estatutos, mas a direcção, para já, não quer assumir essa medida mais gravosa para um militante. Dentro do partido, há quem ataque ‘Tchizé’ dos Santos. A Unita vê na ‘guerra’ um “declínio” do MPLA.

‘Tchizé’ dos Santos sob fogo cruzado

O Conselho de Disciplina do MPLA poderá pedir a direcção do partido para, com base nos estatutos e no Código de Ética e Conduta, sancionar a deputada Weliwítschia dos Santos, mais conhecida por ‘Tchizé’ dos Santos, por esta se queixar, através das redes sociais, de estar a ser perseguida e “temer pela vida”. Além disso, a filha de José Eduardo dos Santos pediu a destituição de João Lourenço da Presidência da República, alegando que o Presidente tem sido responsável por uma alegada perseguição a militantes do MPLA.

O porta-voz do partido, Paulo Pombolo, tratou de classificar essas declarações como “muito graves”, mas descartou a possibilidade de ‘Tchizé’ dos Santos ser expulsa. No entanto, a deputada e membro do Comité Central arrisca-se a ser penalizada com a ‘pena maior’. O artigo 22.ª dos estatutos prevêem várias sanções, entre as quais a expulsão: “Qualquer militante do Partido que viole o seu Programa e/ou Estatutos, que não cumpra as resoluções e as normas estabelecidas pelo Partido, que desrespeite as leis do Estado, abuse das suas funções no partido ou no Estado ou, de qualquer outro modo, tenha comportamento indigno que prejudique o nome e o prestígio do partido, está sujeito a sanções disciplinares”.

‘Tchizé’ dos Santos poderá, com estas declarações, estar a violar normas internas do MPLA. Além dos estatutos, em Fevereiro, o Comité Central aprovou dois documentos que pretendem regular a conduta, ética e comportamento dos militantes ao abordarem publicamente assuntos do partido. Estava prevista a aprovação do documento em 2014, quando José Eduardo dos Santos era ainda líder do partido. Cinco anos depois, João Lourenço mandou aprovar os dois instrumentos de conduta e ética que “vão doravante orientar o comportamento dos militantes ao abordarem nas redes sociais assuntos ligados ao partido”.

Além das regras internas, alguns militantes do MPLA não hesitaram em ‘atirar-se’ a ‘Tchizé’ dos Santos. Como foi o caso de Mário Pinto de Andrade, membro do Bureau Político que classificou as declarações da deputada como “baboseiras”. O dirigente do MPLA desafiou ‘Tchizé’ dos Santos a regressar a Angola e fazer as críticas em reunião do Comité Central ou mesmo no Congresso agendado para Junho.

A agitação no MPLA mereceu também uma reacção da Oposição. O porta-voz da Unita, Alcides Sakala, analisa as críticas de ‘Tchizé dos Santos como o “declínio do MPLA”.  Por outro lado, O politólogo Olívio Kilumbo defende que é importante que o MPLA “expulse” os militantes que comprometem o partido com as “práticas de corrupção e não os que apenas fazem críticas” nas redes sociais.

Foi uma carta do grupo parlamentar do MPLA que espoletou as reacções de ‘Tchizé’ dos Santos. Ausente do país há mais de 90 dias, viola os estatutos dos deputados. Por isso, o próprio grupo parlamentar exige que ela suspenda o mandato até regressar a Angola. Paulo Pombolo lembra que o “normal” seria ‘Tchizé’ dos Santos “ avaliar o conteúdo e responder oficialmente ao órgão do partido e não pelas redes sociais”.

Ao contrário, a filha de José Eduardo dos Santos usou as redes sociais para anunciar não ter intenções de assinar a carta. “Os meus carrascos que tirem a máscara, que acabem de fazer o seu trabalho. Pelo menos, sabemos quem é quem”. A deputada garante estar fora do país contra a sua vontade, desafia a direcção do partido a esclarecer e ameaça “contar tudo”, assumindo “oficializar a crise política”.

Paulo Pombolo afirma “desconhecer” e lembra que ‘Tchizé’ dos Santos justificou a ausência do país na Assembleia Nacional com a necessidade de resolver problemas de saúde dos filhos e não invocou qualquer perseguição política.