Pesca artesanal, falta de apoio e a poluição perigam espécies

Seis mil tartarugas morrem anualmente

A pesca artesanal, a falta de fiscalização e a poluição colocam em alerta a sobrevivência de tartarugas marinhas. Lançado em 2013, o projecto Kitabanga, de conservação das tartarugas marinhas ligado à Faculdade de Ciências da UAN, permitiu o encaminhamento para o mar, de mais de três milhões de pequenas tartarugas. Sem apoio financeiro do Ministério do Ambiente, o projecto sobrevive com ajuda de parceiros.

Seis mil tartarugas   morrem anualmente
Michel Morais

Michel MoraisO biólogo e professor universitário

A situação é “preocupante” e, para ser revertida, é necessário que 100 mil tartarugas desovem nas praias angolanas.

Apesca artesanal, a falta de fiscalização e a poluição converteram-se em verdadeiras ameaças à sobrevivência de tartarugas marinhas ao longo da costa angolana. Estes factores são responsáveis anualmente pela morte de, pelo menos, seis mil tartarugas adultas, muitas delas, por ingestão de plásticos.

A iminência da extinção destas espécies levou com que o Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto (UAN) lançasse, em 2013, o ‘Projecto Kitabanga’ com o objectivo de conservar e proteger as tartarugas marinhas. Desde o seu lançamento, até o ano passado, já estavam contabilizadas 30 mil nidificações, ou seja, mais de três milhões de pequenas tartarugas que nasceram ao abrigo deste projecto. 

Os números até parecem satisfatórios, mas, na verdade, são poucos expressivos para quem está dentro do projecto. Para o coordenador são “irrisórios” tendo em conta as que morrem anualmente. “Por exemplo, para o caso da tartaruga oliva, a mais comum em Angola, para cada mil neonatos, apenas seis atingem a maturidade”, explica Michel Morais. “Sendo que uma tartaruga leva 20 anos a atingir a maturidade, por cada animal que morre estamos a perder uma capacidade de produção de 20 anos”, acrescenta.

A situação é “preocupante” e, para ser revertida, é necessário que 100 mil tartarugas desovem nas praias angolanas. “Se isso não acontecer, vamos ter um declínio de ano para ano”, alerta. “Não diria que colocaria em risco para amanhã, mas para um amanhã, obviamente. Se continuamos a ter uma perda e outros factores de risco como as alterações climáticas, nada nos diz que não tenhamos um problema no futuro” afirma.

O biólogo e professor universitário alerta ainda para as redes de pescas colocadas indevidamente em locais de desova das tartarugas, e ainda a captura por parte dos pescadores. “O Ministério das Pescas tem de regular e fiscalizar melhor a política das pescas, que é um dos problemas sérios”, afirma, defendendo a necessidade do Ministério do Ambiente servir de elo com outras instituições como as administrações locais que algumas vezes concedem explorações ou construções em zonas que “precisam de ter uma especial atenção”. 

Apesar da anuência do Ministério do Ambiente, o projecto deixou de receber apoio financeiro, ficando apenas por “um abraço, bom trabalho, continuem, estão a trabalhar bem e a gente agradece”, ironiza Michel Morais. “Tivemos apoio no passado. O Ministério sempre abraçou o projecto e deu-nos a perspectiva da boa iniciativa. Sempre que precisamos, o ministério socorre-nos”, acrescenta. Os mentores já propuseram que o projecto tivesse um orçamento próprio, mas não obtiveram sucesso.

No início, foi a própria faculdade a suportar os custos do projecto, mas deixou de o fazer por incapacidade financeira. Actualmente, necessita de, no mínimo, 15 milhões de kwanzas para garantir esse funcionamento. “Se implementarmos os trabalhos de pesquisa, os equipamentos e as saídas de campo complementares esse valor mete mais alguns 10 milhões em cima”, calcula. Sem apoio ministerial, funciona com a ajuda de parceiros privados.

Nos próximos três anos, o foco do projecto vai estar ligado às campanhas de educação ambiental, direccionadas para os principais aglomerados populacionais, fundamentalmente onde se tem um grande número de pescadores. E ainda monitorar os impactos da pesca sobre as tartarugas. “Temos isso desenhado e estamos a correr atrás dos recursos para a implementação”. 

 

O Projecto Kitabanga

Lançado em 2013, o projecto Kitabanga tem como objectivo a conservação de tartarugas marinhas e está ligado ao Departamento de Biologia da Facultade de Ciências da Universidade Agostinho Neto com a anuência do Ministério do Ambiente.

Conta com a participação de docentes e estudantes universitários, bem como com o envolvimento de membros das comunidades locais onde têm vindo a exercer acção. Actualmente, conta com uma área de actuação directa de mais de 55 quilómetros distribuídos pela região do Soyo, Kissembo, Palmeirinhas, Sangano, Longa, Cuio e Manono (Bentiaba) perfazendo uma cobertura de 3,4 por cento da costa de Angola. O projecto pretende obter uma panorâmica das áreas e espécies de maior incidência de desova ao longo das áreas de intervenção, variação de densidades e abundância relativa ao longo do tempo, taxas de natalidade e mortalidade, crescimento populacional e migrações, bem como aspectos relacionados com o ecossistema onde se inserem; identificar e proteger ninhos e tartarugas; aumentar os níveis de experiencia e capacitação de técnicos para uma maior intervenção ao longo da costa angolana; capacitar membros das comunidades com as melhores práticas para a conservação de tartarugas marinhas e seus ‘habitats’ e ainda estabelecer acordos de parceria com instituições locais e internacionais, assim como projectos semelhantes com finalidade de troca de experiencia.

 

Uma ‘gigante’ rara

Das sete espécies de tartarugas marinhas do mundo, Angola tem cinco, mas apenas três nidificam. As outras utilizam a costa apenas como ponto de alimentação e desenvolvimento. Das que nidificam, a mais comum é a tartaruga Oliva, abundante em Angola.

A tartaruga de Couro ou Kitabanga, que dá nome ao projecto, é a mais rara do mundo. Kitabanga provém do kimbundu que significa ‘gigante’. Pode atingir quase dois metros de comprimento e pesar até 900 quilos. É uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Em Angola, segundo Michel Morais, o cenário é mais preocupante. “Temos um animal por cada quilómetro de praia e é bem mais alarmante”, afirma. “Temos uma estimativa de mais ou menos, 900 animais a desovar num ano”.