João Lourenço apela ao rigor e à qualidade de ensino

Presidente ouve queixas de estudantes

João Lourenço ouviu os lamentos de estudantes, transformados em listas de necessidades, e avaliou as condições da principal universidade de Angola. Prometeu investir em bolsas e infra-estruturas e combater os estabelecimentos ilegais.

Presidente ouve queixas de estudantes
Mário Mujetes
Aula magna do presidente João Lourenço no Campus da UAN,
Pedro Magalhães

Pedro MagalhãesReitor da Universidade Agostinho Neto

Selectividade rigor e maior exigência na admissão, tanto para docentes como para estudantes foram alguns aspectos apontados pelo Presidente da República.

 

Pela primeira vez, como Presidente da República João Lourenço, visitou a mais antiga instituição de ensino superior pública, num encontro que ficou marcado pelas queixas dos estudantes: da ausência de saneamento básico à falta de docentes qualificados.

João Lourenço admitiu que o ‘campus’ “não reúne as condições necessárias para fazer jus à principal vocação: a de ser um espaço de excelência no domínio do ensino superior e da investigação científica”. Perante o cenário, o Presidente prometeu concluir a construção da 1.ª fase do ‘Campus Universitário no próximo ano. E depois fazer investimentos como o preenchimento de vagas de docentes e dotar de transportes internos e ainda construir oficinas, bibliotecas, laboratórios, um hospital universitário, lares para acolher estudantes mais carenciados.

“Selectividade, rigor e maior exigência na admissão, tanto para docentes como para estudantes” foram alguns aspectos apontados pelo Presidente para melhorar o ensino.

Para os próximos anos, o Estado prevê apostar em projectos de investigação científica, superar o défice de docentes que investem neste campo, bem como “combater as universidades ilegais”. “Este negócio lucrativo que não olha para a qualidade do ensino ministrado, que levam os estudantes até ao último ano sem a possibilidade de entrar para o mercado de trabalho por falta de certificado ou diploma, deve estar debaixo de nosso permanente escrutínio”, ameaçou João Lourenço.

O Presidente apelou ainda aos pais e encarregados de educação a não matricularem os filhos nesses estabelecimentos de ensino, por não reunirem condições mínimas exigidas e “sob pena de estarem a pactuar com a ilegalidade”. 

João Lourenço lançou um desafio às instituições públicas e privadas a “empenharem-se” para colocar uma universidade angolana no ‘ranking’ das melhores de África. “Sonhar não é pecado, antes pelo contrário, desde que trabalhemos com o objectivo claro de tornar esse sonho em realidade”, rematou.

O chefe de Estado admitiu que as bolsas de estudos internas “ainda não são suficientes para atender à procura”, mas prometeu aumentar o número, especialmente para apoiar os mais carenciados e destacados, com particular atenção aos cursos ligados às engenharias, tecnologias e ciências da saúde.

Em breve, anunciou João Lourenço, haverá um concurso público para a admissão de docentes e ofereceu seis autocarros de 17 e 26 lugares. Durante a semana passada, passou também pelos centros de Formação Profissional do Cazenga e Integrado de Formação Tecnológica Cinfotec, do Rangel, tutelados pelo Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social.

 

 

‘Casa’ académica

O ‘campus’ da UAN ocupa um espaço de 20 quilómetros quadrados. A 1.ª fase, ainda por concluir, foi inaugurada em 2011 e tem capacidade para albergar três mil estudantes, aumentando para 40 mil após a conclusão das restantes fases. A infra-estrutura possui quatro edifícios (salas de aula, escritórios e laboratórios), biblioteca central, restaurante, centro estudantil e centro de conferências.

 

Faculdades com makas

Os responsáveis das associações dos estudantes, de cada unidade orgânica, apresentaram a João Lourenço as principais dificuldades por que passam:

Presidente 
ouve queixas de estudantes 

Joel Graciano,

Faculdade de Economia

“Temos de aumentar o número de livros; pretendemos que se criem políticas para o fomento da investigação; a criação de fácil locomoção para portadores de deficiência; criação de convénios com instituições financeiras e não financeiras para possibilidade de estágios; existência de um conteúdo programático que diminua a assimetria entre a linguagem académica e corporativa.”

 

Marquinha Rodrigues,

Instituto Superior de Ciências da Saúde

“Preocupa-nos a falta de laboratórios equipados e apropriados, de professores, de um hospital universitário; de saneamento básico, de um refeitório, de transportes, de infra-estruturas, de livro, de acesso à internet e de subsídio de estágio.”

 

Ângelo Monteiro,

Faculdade de Engenharia

“A falta de docentes tem ferido gravemente o percurso da nossa formação e desencadeia na falta de orientadores para projectos de fim de curso e técnicos de laboratórios. Há uma escassez de aulas práticas; os equipamentos de laboratórios não são repostos quando estes avariam ou danificam e até paralisam as aulas práticas por falta de reagentes. Outros equipamentos estão selados; carência de salas de informática, internet; biblioteca com modelos do século 20 e em via de extinção, precisamos de bolsas de estudos. A segurança no Campus é comprometedora, já houve tantos casos de violações, os autocarros não funcionam.”

 

Madeno Pipa,

Faculdadede Medicina

“A faculdade tem apenas duas casas de banho em funcionamento para atender 654 estudantes e as mesmas encerram às 15 horas, ao passo que as aulas terminam apenas às 18. Os subsídios de estágios tem sido um problema crónico, há sempre atrasos no pagamento, a infra-estrutura da faculdade e o lar dos estudantes estão em estado de degradação. Quando chove, a instituição inunda e são canceladas as aulas.”

 

Yuri Pedro,

Escola Superior de Hotelariae Turismo

“Partilhamos o espaço que, por sinal, é uma escola primária com mais duas instituições, falta biblioteca e meios de investigação, sentimos a falta de um auditório ou anfiteatro, temos ausência de um laboratório para aulas práticas e a falta de um posto médico.”

 

Miguel Lumbo,

Faculdade de Letras

“Desde a criação em 2010, a faculdade nunca teve instalações próprias. Em 2014, foi transferida para as antigas instalações do ISCED de Luanda, onde funciona provisoriamente. Estamos preocupados com a falta de políticas de inserção no mercado de trabalho. No último concurso público, fomos rejeitados. Há uma baixa quota de atribuição de bolsas internas, falta de transportes públicos, inexistência de vagas nas residências universitárias.”

 

Eunice Gastão,

Faculdade de Ciências

“Sentimos que só temos valor quando somos brindados com a visita de alguma entidade. Quando isto acontece, fazem uma limpeza na universidade e garantem maior segurança. Temos várias dificuldades: falta de documento de identificação estudantil; perda de notas; demora na entrega dos certificados, falta de professores e orientadores; necessitamos de um sistema de gestão académica e internet; degradação das infra-estruturas; saneamento básico; segurança e de rampas para deficientes.”

 

 Agostinho Eduardo,

Faculdade de Direito

“Há insuficiência de bolsas de estudos internas. Pretendemos que se criem condições e políticas de estágios académico-profissionais, incentivos às instituições bancárias no intuito de concederem créditos financeiros de apoio aos estudantes; a instituição carece, igualmente, de um tribunal simulado, uma vez que, a partir do 3.º ano, já temos contacto com matérias relacionadas com o Direito Processual Civil e Penal que exigem prática. Há falta de transporte; insuficiência de docentes; falta de uma biblioteca virtual e pedimos também que mantenham as instalações da faculdade no mesmo espaço geográfico.”

 

Alberto Dala,

Faculdade de Ciências Sociais

“Necessitamos de requalificação das infra-estruturas; de um novo ‘software’ de gestão académica adaptada às novas tecnologias de informação; de máquinas em ‘braile’ para estudantes com limitações visuais; de laboratórios para estudantes de Antropologia, Comunicação Social, Geodemografia e outros.”

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