Ideias sobre África defendidas por José Luís Mendonça e Mário Joaquim dos Reis

“Os intelectuais têm de ser apartidários”

Dois docentes universitários, em palestra no Dia de África, não escondem o desapontamento com a falta de comunicação em África. Recomendam que os intelectuais sejam incluídos nas cimeiras da União Africana, ao lado dos chefes de Estado e do Governo. José Luís Mendonça alerta para os perigos da globalização. Mário Joaquim dos Reis lembra a violência defendida por pensadores como forma de prevenção para que não se repitam erros. Ambos defendem que os intelectuais não devem estar em partidos políticos.

“Os intelectuais têm de ser apartidários”

A alegada falta de comunicação cultural entre intelectuais africanos dominou a palestra ‘O Síndrome da Invisibilidade Cultural entre As Nações da África Austral’ proferida pelos docentes José Luís Mendonça e Mário Joaquim dos Reis, a semana passada, na Faculdade de Letras, em Luanda, em alusão ao Dia de África.

Os dois admitem temer a “invasão” da globalização e possíveis conflitos culturais, que podem advir. A falta de divulgação e o não uso das ferramentas electrónicas foram dos problemas apontados mais apontados José Luís Mendonça, também escritor e jornalista, que os considera graves por "não promover a unidade do continente".

José Luís Mendonça alerta que as sociedades estão a ser “invadidas” pela cultura anglo-saxónica, dando, como exemplo, os jovens que actualmente cantam jazz e música brasileira e "apelidam de bossa nova de Angola" e desconfia que “não existe” uma preocupação com a cultura africana. Afirma mesmo em dizer que não conhecem Manu Dibango e a cultura africana. “Estamos a ficar europeus e europeizados", alerta.

Por isso, propõe que se faça uma diplomacia cultural dos países africanos, de modo a que se use instrumentos electrónicos, aconselhando que se façam investimentos nesse processo. "Tem de haver uma cooperação cultural”, recomenda.

José Mendonça critica ainda que nas cimeiras da União Africana não estejam presentes ou representados intelectuais de países africanos “Quem participa são os chefes de Estado e do governos e outros chefes técnicos, é preciso que cada país leve um intelectual”. No entanto, alerta para que não sejam os dos partidos políticos. “Os intelectuais têm de ser apartidários, pois não vão lá para defender política de partido nenhum, mas para defender a cultura. O que está a faltar na União Africana é uma cimeira de intelectuais independentes” defende.

Mário Joaquim dos Reis destaca a "violência intelectual perpetrada pelos intelectuais pode, de certa forma, preparar uma violência física pelos discursos proferidos". No entanto, alerta que se pode também preveni-la: "na nossa história, de forma geral, os grandes massacres foram precedidos por discursos de ódio feitos por intelectuais". "Eles nunca são neutros ou tomam partido em relação ao partido vigente ou são outros" E dá como exemplo o caso do genocídio no Ruanda, “que mais nos envergonha”.

Por isso, aconselha aos jovens a lerem os discursos dos intelectuais com cautela, porque podem prevenir ou anunciar situações mais complexas. “O problema de comunicação dos intelectuais africanos tem que ver com a situação do poder, porque o intelectual africano ou bajula o poder político, tendo em conta as expectativas que pode ser premiado com um cargo, ou é tido como o do contraditório, os chamados ‘revus’.” Mário dos Reis considera que essas designações “nunca são neutras”, porque trazem por "detrás formas de denegrir o outro, que é um problema de comunicação".

Outro problema identificado pelo docente é o da linguística, em que defende que um intelectual "tem de ser poliglota, para que haja diálogo". Pega no exemplo da falta de informação, apesar do "excesso de notícias que essas plataformas oferecem", alertando que um intelectual "tem de ter a capacidade de filtrar e informação e promover encontros". “A comunicação em plataforma digital é sempre virtual e não autêntica. O que se deve fazer é promover encontros entre intelectuais africanos, o que não existe, porque vivemos de costas viradas, de vez em quando, um fórum organizado pela Europa, mas depois a história morre por aí”.

O docente identifica duas vertentes nos conflitos culturais provocados pela globalização. Por um lado, "as pessoas viram-se para a integridade aquilo que é genuinamente africano e, por outro, há os que acham o que é genuinamente africano existe, mas apenas de forma romanesca". "Hoje somos objectos de bens técnicos e culturais feitos por outras culturas, porque o africano gosta de telemóveis de última geração, carros caros e quando, importamos esses bens, a nossa visão do mundo é alterada".

Por exemplo, Cabinda promove a maneira de vestir, africanamente, mas “em Luanda somos completamente europeus. Até na Assembleia, não se vê deputados vestidos de trajes africanos.”