Das longas filas em bombas a comunicados e reuniões seguidas de exonerações

Os contornos de uma crise que parou o país

Angola voltou a viver, dois meses depois, uma nova crise no abastecimento de combustíveis, com a diferença de que, desta vez, houve quem tivesse passado a noite em filas que atingiam quilómetros. A começar do fim, o NG recupera as consequências de uma ‘maka’ que acabou em exonerações.  Mesmo indignados, os angolanos não perderam o humor.

Edno  Pimentel Edno Pimentel | Onélio Santiago e Teresa Fukiady
Os contornos de uma crise que parou o país
D.R.

O autocarro do Domant do Bengo ficou sem gasolina, o que impediu os jogadores de se deslocarem ao Uíge para defrontar o ‘Santa Rita’, averbando, assim, uma derrota por falta de comparência. O jogo era a contar para os oitavos-de-final da Taça de Angola.

Nesta quinta-feira, Luanda ‘acordou’ com as bombas de combustíveis mais arejadas. Para trás, fica a recordação de dias dolorosos, com longas filas de carros, motorizadas e gente com bidões, alguns a pernoitarem, só para conseguir alguns litrinhos de gasóleo ou gasolina. Por isso, a frentista Júlia Tiago, de 46 anos, suspira de alívio, ao abordar aquela que é considerada por muitos a “maior crise de combustível dos últimos anos”.  Com uma experiência de 22 anos, Júlia é chefe do turno matinal das bombas de combustíveis situada junto ao Catetão, em Luanda, um posto que ficou ‘famoso’ depois de, há dias, ter sido partilhado nas redes sociais um vídeo em que os automobilistas, na esperança de abastecerem as viaturas, formavam uma fila ‘quilométrica’, que deixava as bombas, contornava todo o centro de treinos de Petro Atlético e quase chegava ao mercado do Cassequele. “Não tem comparação, não tem mesmo”, resume Júlia Tiago, ao confrontar esta quinta-feira com os primeiros dias da semana.

São quase 10 horas da manhã e as bombas onde Júlia Tiago trabalha têm a venda de gasolina suspensa. Um camião-cisterna de 45 mil litros enche os tanques. O gasóleo continua a ser vendido, mas a procura é “fraca”, não havendo sequer uma única pessoa para comprar o produto em bidões, como sucedeu no início da semana. A única fila, que não ultrapassa os 100 metros, é a dos automobilistas com carros a gasolina. Estes aguardam pela retirada do camião-cisterna para, então, poderem ‘acelerar para a vida’, visto que os dias de crise pararam quase literalmente o país.

Quem não precisou de aguardar mais do que 13 minutos para conseguir gasolina para o Toyota Hiace foi Upale Danhele, que abasteceu nas bombas da Sonangalp, do lado do Cemitério da Santa Ana. De 40 anos, Danhele é natural e residente da Lunda-Norte, estando na capital apenas há três semanas. Não tem dúvidas de que “o que se passou em Luanda não é nada, se comparado ao sofrimento das Lundas”.  Segundo ele, a escassez de combustível no Dundo é “constante”, havendo situações em que um litro de gasolina é “revendido a mil kwanzas” no mercado informal. “Em Luanda, é mais ou menos, nas Lundas é muito pior”, denuncia Upale Danhele, que desvaloriza a exoneração dos administradores da Sonangol pelo Presidente da República, pois entende que o “melhor mesmo é haver boa fiscalização”.

Melhoria generalizada

No posto de abastecimento do 1.º de Maio, junto ao Parque da Independência, até às 11 horas, não havia gasolina nem gasóleo. O último reabastecimento tinha sido feito na quarta-feira, por volta das 12 horas, tendo as vendas decorrido até às 18 horas, para gasolina, e 21, para gasóleo. Contudo, ao contrário dos dias anteriores, em que os automobilistas faziam filas até em bombas sem combustível, na expectativa de serem os primeiros a ser atendidos assim que o camião-cisterna aparecesse, a bomba do 1.º de Maio estava ‘às moscas’. Luís Arsénio, o gestor, explica, ao NG, a ausência de fila como“resultado da reposição da normalidade” na maior parte das bombas da capital. Aos 51 anos, não tem memória de o país ter vivido uma crise “tão agravada” nos combustíveis como a desta semana. Por isso, não consegue disfarçar a ironia no sorriso que lhe escapa ao comentar a “falta de diálogo e de comunicação” com que as autoridades justificaram os apertos dos últimos dias. “Também estava à espera de perceber, porque vínhamos tendo regularidade no recebimento do produto e, de repente, dum momento para outro, houve isso, com os comunicados e consequências que se conhecem”, explica, admitindo ter dificuldades para entender “em que se traduz a falta de comunicação”.

No entanto, não é apenas no centro de Luanda em que se verificam melhorias na venda/compra de combustível. No Calemba 2, Camama, Golf 2 e Rocha Pinto, sendo que, neste último bairro, no posto da Pumangol, situado junto ao terminal de cargas da Macon, até às 11:30, a fila para a gasolina só estava preenchida por carros, não havendo motas nem gente com bidões, enquanto a de gasóleo estava suspensa, porque os tanques estavam a ser enchidos.

 Justificações não convencem

A falha na venda de combustível não é propriamente uma ‘maka’ nova. Há cerca de dois meses, o país já havia experimentado este tipo de crise, embora com uma dimensão menor, em que, além dos problemas e da especulação de preços no mercado paralelo, houve um caso caricato: o autocarro do Domant do Bengo ficou sem gasolina, o que impediu os jogadores de se deslocarem ao Uíge para defrontar o ‘Santa Rita’, averbando, assim, uma derrota por falta de comparência. O jogo era a contar para os oitavos-de-final da Taça de Angola.

Na crise de Março, a Sonangol justificou-se com uma alegada “dificuldade no acesso às divisas para a importação de refinados de petróleo”. Num comunicado, além de lembrar que costuma recorrer à moeda estrangeira para este processo, a companhia lamentou igualmente a “elevada dívida” dos principais clientes do segmento industrial, que consomem aproximadamente 40 por cento da totalidade do combustível. Para este último aspecto, também a disponibilidade de kwanzas para a aquisição de moeda externa, geralmente dólares e euros, esteve entre as ‘desculpas’, além das avarias sistemáticas nos navios de cabotagem, o mau estado das estradas nacionais e as condições atmosféricas, que, segundo a empresa, dificultam a atracagem dos navios de transporte dos refinados de petróleo.

Desta vez, até o Presidente da República veio explicar-se. Após reunião com a equipa económica, João Lourenço, através da Casa Civil, alegou “falta de diálogo” entre a Sonangol e o Estado. Numa nota divulgada na terça-feira, 7 de Maio, o chefe de Estado referiu que a “falta de comunicação terá contribuído negativamente para o processo de importação de combustíveis”, pelo que seriam tomadas medidas e mobilizados todos os recursos necessários para a completa estabilização no abastecimento.

As medidas não tardaram a chegar. Um dia depois, Carlos Saturnino foi exonerado de presidente do Conselho de Administração da Sonangol, função que desempenhava desde Novembro de 2017. Para o lugar de Saturnino, João Lourenço indicou Sebastião Pai Querido Gaspar Martins, que era um dos administradores executivos durante o ‘reinado’ de Carlos Saturnino. Dos 10 integrantes do antigo ‘staff’, sobreviveram sete: os quatro administradores não-executivos e três executivos. Licenciado em Engenharia de Minas, pela Universidade Agostinho Neto, o novo ‘chefe’ da Sonangol fez várias pós-graduações em diversas escolas internacionais como a Berlitz School, em Houston, nos EUA.

 Um dos maiores produtores

Angola é o segundo maior produtor de petróleo bruto da África Subsariana. O país produz mais de um milhão e meio de barris diários, perdendo apenas para a Nigéria, que tem uma produção diária de cerca de um milhão e 700 mil barris. Apesar da alta produção, o país dispõe de apenas uma refinaria, que produz 65 mil barris por dia, cerca 20 por cento das necessidades, o que obriga a que os restantes 80 por cento sejam importados. O Governo prevê, dentro de três anos, aumentar a estrutura e a capacidade de processamento para 1.200 toneladas por dia, contra as actuais 280. Estão em construção as refinarias do Lobito, que vai processar 200 mil barris por dia, e a de Cabinda, que poderá refinar 60 mil barris diários.

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