Rui Sampaio, dirigente e treinador da Coprat em futebol de salão

“O futsal está muito desorganizado”

É considerado pela crítica como o melhor treinador de futebol salão em Angola. Acima de tudo, é um crítico à forma como a modalidade tem sido gerida. Ataca a federação e não esconde que gostava de a liderar. Aponta as muitas falhas no futsal e a falta de investimentos.

“O futsal está muito desorganizado”
Mário Mujetes

Não se considera “o melhor”, mas realça que melhor do que ele “não existe”. Rui Sampaio, 52 anos, nasceu no Bairro Operário, o famoso BO. É treinador da equipa Coprat e apelidado de ‘Oliveira Gonçalves do futsal’, mas ele rejeita a distinção, sublinhando que o futsal e o futebol de 11 são modalidades diferentes. Para o categorizado técnico, os grandes problemas que afligem o futsal, em Angola, prendem-se com a “acentuada desorganização e a falta de investimentos institucional e desportivo”. “Estamos muito atrasados”, reforça.

Para se justificar, afirma não se recordar de uma única formação sobre treinar e sobre dirigismo desportivo organizado pela actual direcção da Federação Angolana de Futebol Salão (Fafusa). Entende que a “desorganização é tanta que os árbitros e treinadores são malformados”. Gaba-se de o seu clube, Coprat, ter realizado dois cursos de treinadores com a presença de prelectores europeus e norte-americanos.

Com tantos problemas detectados, o técnico conclui que o “futsal angolano é uma máfia, desde dirigentes federativos e de clubes, associativismo e árbitros.”

Rui Sampaio chegou a mostrar-se disponível a viajar pelo país e transmitir os conhecimentos adquiridos durante a sua trajectória na carreira de treinador com os demais colegas. Mas este desiderato não tem sido atingido, porque alega encontrar “muitas barreiras” por parte dos dirigentes da federação. “Não existe regras e o culpado está identificado.”

Para Rui Sampaio, o desporto é “uma ciência” e “em alta competição, não se admite amadorismo”. Lamenta que a maioria dos treinadores possua mais de cinco empregos e, por isso, não tem tempo suficiente para se formar e se dedicar à modalidade. Segundo o técnico, os culpados pela desorganização e atraso estão identificados, uma vez que os treinadores não podem treinar fora de Angola porque não possuem cursos ou diplomas reconhecidos por instituições internacionais.

O único diploma que ostenta vem de outras modalidades, como o andebol, onde se formou com êxito e também se orgulha de ter ajudado a formar grandes treinadores como Filipe Cruz, actual treinador da equipa sénior masculino de andebol do 1.º de Agosto. “O meu reconhecimento advém de outras modalidades.”

De acordo com o técnico, a federação nada faz para a evolução da modalidade e sugere a criação de uma comissão técnica desportiva, órgão este que “seria de grande importância para se discutir o futuro do futebol salão em Angola. E dá mérito aos clubes, por serem os verdadeiros fazedores do futebol salão, em que “a federação se limita a distribuir taças e medalhas sem qualquer valor.”

No passado, era difícil falar em massificação e com adesão de muitos jovens, hoje o Namibe é a número um da modalidade, seguido de Benguela, Huíla e Luanda. Rui Sampaio defende que haja competições, na zona austral de África e na zona mais a norte do continente.

MALTRATADO E PERSEGUIDO

Sem citar nomes, Rui Sampaio queixa-se de continuar a ser “maltratado e perseguido”. Já pensou em desistir, mas o sangue e o conselho da família têm sido os grandes impulsionadores nesta luta que se chama futebol salão. Perdeu 11 finais, segundo ele, por culpa de alguns árbitros em campeonatos nacionais. Com a pior equipa, recentemente ganhou o nacional que teve lugar no Lubango, Huíla. Conta ser a favor da inclusão da Fafusa dentro da FAF. “As pessoas são muito vaidosas e arrogantes.”

TREINADOR E DIRIGENTE

Além de treinar a Coprat, também é dirigente e ainda presidente, roupeiro, estatístico. Apesar de possuir outros colaboradores, Rui Sampaio conta que prefere desempenhar todas as tarefas para sair na perfeição. Sublinha ter ficado pobre, porque gastou todo o dinheiro no futsal e hoje é sustentado pela modalidade. Não possui casa própria, mas sente-se regozijado por ter ajudado a empregar mais de 30 atletas e também por ser o primeiro clube a melhorar as condições sociais dos jogadores. “Eu sou a Coprat”, afirma.

Gaba-se de ter a “melhor agremiação” de Angola, que “mais forma atletas” e sonha ser o presidente da federação, alegando possuir capacidade e conhecimentos para comandar os destinos da modalidade. Rui Sampaio garante que, com ele à frente da federação, a modalidade “vai ganhar muito”. Gostaria de ser recordado como um treinador e dirigente “honesto”, que viveu e lutou para o futsal e pretende escrever um livro sobre o ‘ABC’ da modalidade.

Origem da modalidade

A história do Futsal tem duas versões divergentes sobre a sua origem. Uma é que começou a ser praticado em São Paulo, Brasil, na associação cristã de moços (ACM), na década de 1940, porque havia dificuldades em encontrar campos de futebol livres. A solução foi usar os pavilhões de basquetebol e hóquei. A versão mais corrente é que o futsal teve origem no Uruguai quando começou a ser praticado na década de 1930 em Montevideo, também na Associação Cristã de Moços.

O professor Juan Carlos Ceriani é considerado o criador da modalidade, ao qual chamava o novo desporto de Indoor-Foot-Ball. Em 1965, o desporto já estava difundido por toda América do Sul, facto que resultou na criação da Confederação Sul-Americana de Futebol de Salão, composta por Uruguai, Paraguai, Peru, Argentina e Brasil. Antes da independência, já se disputavam campeonatos de futsal entre equipas formadas por empresas, com competições provinciais. 

Perfil

Nome: Rui Manuel de Mesquita Sampaio

Nascimento: 22 de Maio de 1966

Local: Bairro Operário, Luanda

Altura: 1,79 cm

Clube: Sporting de Portugal e 1.º de Agosto

Comida: Feijoada e cozido à portuguesa

Cargo que gostaria de desempenhar: Presidente da Fafusa

 

 

 

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