Augusto Baptista ‘Cheto’, treinador da selecção de futebol com muletas

O campeão do mundo que já foi activista social

Começou como activista social, dando palestras aos portadores de deficiência e, “por amor à camisola”, criou, há 17 anos, a sua equipa, o ‘3 de Dezembro’ do Moxico. Saltou para a fama internacional, graças à primeira conquista da selecção nacional, no Mundial de futebol de muletas, que decorreu no México. Reside no Luena, Moxico, e é funcionário das Edições Novembro. É um optimista, mas queixa-se da falta de apoio ao desporto adaptado e gostaria de ser mais reconhecido pela sociedade.

O campeão do mundo que já foi activista social
Augusto Baptista (Cheto)

Augusto Baptista (Cheto)Treinador

Um dos grandes males que enferma a modalidade é falta de incentivos e apoios.

Nem a conquista do Campeonato do Mundo, no México, mudou a vida de Augusto Baptista. Nem a dele, nem a dos atletas. Tudo se mantém na mesma e com muita humildade. Considera o único ganho ter a fama que entende ser “momentânea e com dias contados”. “Estamos a gerir este sucesso”, afirma. Por lei, o Estado, através do Ministério da Juventude e Desportos, atribui valores monetários a quem conquista medalhas de ouro. Os técnicos e os atletas da selecção campeã do mundo ainda aguardam pelo reconhecimento do Estado. Até ao momento, só receberam cinco milhões de kwanzas, vindos da Fundação Sol.

‘Cheto’, como é conhecido, antes de abraçar o futebol com muletas, era educador e activista social, numa organização não-governamental, dando palestras a portadores com deficiência, vítimas de minas. Foi aí que se inspirou para ser treinador, numa modalidade “sem segredos”. Está convencido de que, “para orientar uma equipa de futebol com muletas, a diferença apenas reside nas regras”. Há 17 anos a treinar, a trajectória na selecção começou como treinador adjunto, em 2010, na Argentina, na primeira participação de Angola num mundial de futebol para adaptados, ocupando a 9ª posição, seguindo-se em 2014 e 2018, ambos no México já como seleccionador principal. Não é licenciado em desporto adaptado, mas garante possuir “conhecimentos vastos e experiência”. Conta com o apoio da companheira que tem sido uma conselheira e incentivadora.

Apesar da longa experiência, ainda se emociona com as histórias que ouve dos atletas, em que deixa escapar umas lágrimas. Muitos dos atletas não aceitaram, com facilidade, a perda de um dos membros. Em função de cada história, Augusto Baptista tenta motivá-los a aceitar a nova condição física. “Um dos grandes males que enferma a modalidade é a falta de incentivos e apoios”, lamenta. 

‘Cheto’ entende que a sociedade não deve menosprezar o portador de deficiência, uma vez que foi vítima de um acidente com minas, ferroviário ou rodoviário. Sem medo de errar, lembra que o Moxico foi uma das províncias que mais sofreu com a guerra civil e a “forma de devolver sorriso aos portadores com deficiência é inseri-los na sociedade, através da prática desportiva”.

 

FUTURO DA MODALIDADE

Mesmo sendo apenas Luanda e Moxico os ‘berços’ da modalidade, acredita no futuro do futebol com muletas e considera-se um profissional, apesar de os clubes terem pouco poder financeiro e funcionarem sem apoios de empresários locais. E vê com bons sinais a mudança de dois atletas para a Turquia, onde vão inteiramente profissionais.

Augusto Baptista entende que o Comité Paralímpico Angolano não pode fazer tudo e que todos são chamados a prestar o seu apoio para que a selecção continue a ter conquistas em várias competições internacionais. Com dificuldades ou sem elas, desistir parece não fazer  parte da agenda desportiva do treinador. “Sou feliz no que faço”.

Augusto Baptista acredita no futuro da modalidade, apesar de reconhecer “as muitas barreiras” e de saber que, em muitas províncias, se deixou de praticar por “culpa das dificuldades financeiras”.

O treinador confia que a conquista do mundial pode ser o trampolim para mudar de vida. Funcionário das Edições Novembro, residente no Luena e proprietário da equipa 3 de Dezembro do Moxico, ‘Cheto’ não encontra dificuldades em conciliar as duas ocupações. Levanta-se às cinco horas e ainda antes das seis começa os treinos, terminando às 7h30 minutos. Dispõe de 30 minutos para se preparar para o trabalho.

O treinador sublinha que tudo se torna mais fácil devido à facilidade de locomoção, entre casa, treino e trabalho, por não haver engarrafamentos no Luena. Apesar de trabalhar por “amor à camisola”, ainda sacrifica o salário, retirando alguns kwanzas para a compra de equipamentos desportivos e para ajudar atletas com algumas dificuldades financeiras.

 

 

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