Na periferia de Luanda

Jogos mecanizados criam negócios

Chineses têm licença para máquinas de ‘sorte e azar’ que ‘prometem’ dar muito dinheiro. Comerciantes angolanos aproveitam as enchentes e chegam a fazer, em média, 80 mil kwanzas mensais.

Jogos mecanizados criam negócios
D.R

Jogos ‘dos chineses’ ou ‘das moedas’  são as identificações, dependendo da localidade, para um jogo mecanizado em propagação em diferentes bairros da de Luanda. No exterior de cantinas, roulottes ou casas de bebidas, é comum encontrar uma máquina de jogo, semelhante às populares electrónicas da sorte presentes em casinos ou casas de jogos. Na introdução de cada moeda, no valor de 50 ou 100 kwanzas, o utilizador tenta ganhar de “200 até ao infinito”, assim garantem os jovens que controlam as máquinas. Porém, a expressão é fictícia porque o valor máximo do vencedor nunca passa dos sete mil kwanzas, raramente alcançáveis.

O jogo, tão concorrido e desejado por crianças e mais velhos em aglomerados, transformou-se num rendimento extra para os pequenos comerciantes das zonas periféricas da capital, em especial em Viana, Belas e Kilamba Kiaxi. Segundo contam, chegam a facturar, em média, durante duas semanas, 20 mil kwanzas ou mais. Por cada mil kwanzas, o comerciante entrega 800 ao dono da máquina que é de nacionalidade chinesa. De 15 em 15 dias, os donos procedem à recolha dos valores da caixa no interior da máquina. 200 kwanzas, por cada mil, são entregues ao comerciante-colaborador, ou seja, se tiver uma facturação a rondar os 20 mil são entregues quatro mil kwanzas de comissão.

“O dinheiro não é muito, mas dá para fazer alguma coisa porque até só controlamos, não investimos e em troca temos um dinheirinho no bolso, a depender de quanto facturei até a data em que vem buscar o dinheiro”, conta Mazambi, proprietário de uma casa de bebidas na zona da Maria Eugénia, Kilamba Kiaxi.

Apesar de os comerciantes colaboradores controlarem as máquinas, somente os chineses conseguem tirar o dinheiro da caixa, bem como os seus auxiliares angolanos. Todavia, estes devem tirar o dinheiro transmitindo em directo via ‘whatsapp’, de modo, que o patrão possa certificar de que não há desvios.

Um dado curioso é que todas as máquinas são enumeradas e de difícil programação, factores que supostamente deveriam afastar roubos porque somente os técnicos chineses sabem manuseá-las, desde o concertar para jogos e até à retirada do dinheiro na caixa. No entanto, há sempre truques que os angolanos inventaram para realizar pequenos desvios.

A Licença de Recinto de Espectáculos ou Divertimento Públicos, passada pela Comissão Administrativa de Luanda a 18 de Junho de 2020, entregue aos comerciantes pelos chineses a que o VALOR teve acesso, refere que as máquinas espalhadas por Luanda, e em alguns pontos do país, são propriedades da firma Wynn A.S Comércio Serviços, situada no bairro Rangel. A licença autoriza a exploração na sede da empresa e determina uma lotação até de 20 participantes. O documento não autoriza, no entanto, sessões de jogos à porta de estabelecimentos nos outros bairros de Luanda, como normalmente acontece.

O VE tentou entrar em contacto com a empresa, dona da licença, mas não constam dados, nem números de telefone que provem a existência. Os comerciantes angolanos são contactados pelos proprietários, mas nunca se dá o caso de serem os angolanos a tomar a iniciativa, precisamente por falta de contacto. 

Á margem da Lei 

A máquina de jogos foi autorizada pelo Instituto de Supervisão de Jogos, adstrito ao Ministério das Finanças, mas a empresa não está regulada, esclarece o advogado Aldemiro Quintas ao VE. O jurista lembra que o facto de a Comissão Administrativa de Luanda autorizar a operação no estabelecimento sito no Rangel “não confere legitimidade de explorar” em outros municípios.

“A licença é específica, limita a exploração da actividade noutros pontos de Luanda e do país, ainda mais, uma vez que, a actividade é de natureza informal. Os mecanismos de controlo não são eficazes. Cabe às administrações utilizarem o seu poder de fiscalização”, observa. “O Estado é quem mais perde por falta de controlo porque a empresa em questão não paga imposto”, sublinha o advogado.

Por outro lado, pela característica do jogo, Aldemiro Quintas admite que pressupõe riscos para menores de idade. A maioria “adere ao jogo sem o mínimo de controlo e isso suscita outras formas ou apetência de ter dinheiro de forma fácil”, adverte Aldemiro Quintas.