A fazerem operações para ficarem estéreis

IURD acusada de ‘castrar’ pastores

Alguns pastores e esposas, candidatos a pastores e noivas estão revoltados com a direcção da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola por esta, segundo denunciam, promover e obrigá-los à realização, na África do Sul, de uma operação, a vasectomia, que torna os homens estéreis. A direcção da IURD nega as acusações.

IURD acusada  de ‘castrar’ pastores

Tavares Cassinda, antigo pastor, pediu a intervenção do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e do Governo para colocarem fim a essa prática.

 Alguns pastores, candidatos ao cargo, esposas e noivas e antigos pastores acusam a direcção da Igreja Universal do Reino de Deus Angola (IURD) de obrigar os homens a deslocarem-se à África do Sul para operações que os deixa inférteis, as denominadas vasectomias.

A denúncia chegou ao NG, através de esposas de pastores. A decisão da direcção foi transmitida numa das reuniões de noivas, noivos e de candidatos a pastores. No caso de o esposo ou candidato “não acatar a decisão, é enviado para distante dos familiares” e os pretendentes ao cargo ficam “impedidos” de serem consagrados. As mulheres mostram-se preocupadas e citam a Bíblia que “manda o homem habitar a terra e procriar”. “A igreja devia ser incentivadora disto e não ao contrairo”, lamentam.

A medida abrange ainda os pastores que já tenham filhos. A intenção da IURD, de acordo com elas, é que os pastores “se dediquem por completo à obra”.

A direcção da IURD, contactada pelo NG, salienta, num texto, que a doutrina da igreja “não atropela os direitos fundamentais dos cidadãos uma vez consagrados na Constituição”, e, mais adiante, sublinha que o trabalho pastoral “é voluntario e um sacerdócio, cabendo ao pastor as decisões sobre a sua vida”. “A IURD não obriga ninguém a realizar cirurgias e a prova disso é que a maior parte dos pastores angolanos tem filhos.”

De acordo com o documento, os pastores e noivas são orientados sobre a estrutura dos laços matrimoniais e sobre o planeamento familiar. “A utilização de contraceptivos é comum a qualquer casal que tenha alvos além dos filhos. A igreja não submete ninguém a nada”, reafirma.

O documento termina realçando que “a igreja não promove operações, sejam elas quais forem, mas aconselha o planeamento familiar, com vista a formar famílias organizadas e estruturadas sobre os valores e princípios éticos e morais”.

Denúncias na TV

Além das mulheres dos pastores, o antigo pastor da IURD, em Luanda, Tavares Armando Cassinda, denunciou, na televisão online ‘Radical TV’, que “há muitos pastores a serem enviados para a África do Sul para realizarem a operação”. Tavares Cassinda pediu a intervenção do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e do Governo para colocarem fim a essa decisão que “está a revoltar os pastores” e para que o bispo Carlos Gonçalves, actual responsável da IURD, e a direcção da igreja sejam “impedidos” de dar sequência a essa decisão.

No vídeo intitulado ‘matar a cobra e mostrar o pau’, com duração de 50 minutos, Tavares Cassinda desafia a direcção da IURD em Angola a vir a público “desmentir” as informações denunciadas e cita vários nomes de pastores que já “haviam realizado a operação”. Tavares Cassinda ressalva que “não se trata de raiva por deixar a igreja”, mas sim “de patriotismo”. Garante que as pessoas por si citadas já realizaram a operação e até está disposto a ser processado se alguém provar que ele não tem razão. Cita também nomes de pastores que fizeram a vasectomia na liderança do bispo João Leite, antigo líder da igreja. “Os pastores que não aceitam fazer a operação são discriminados, perdem regalias, carros e casas, e não podem dirigir uma igreja maior”, apontou.

Uma operação simples

A vasectomia é a cirurgia (operação) recomendada para homens que não querem ter mais filhos. Nesta operação, o médico corta, no escroto, os canais deferentes que conduzem os espermatozoides dos testículos até o pénis. Desta forma, os espermatozoides não são libertados durante a ejaculação e o óvulo não pode ser fecundado, evitando a gravidez. A operação é bastante simples. O corte feito nos canais deferentes pode provocar inflamação, deixando o escroto mais sensível, o que pode provocar uma sensação dolorosa ao caminhar ou sentar, mas apenas nos primeiros dias.

De acordo com especialistas, nalguns casos, a vasectomia pode ser revertida através da ligação dos canais deferentes. As chances de sucesso variam de acordo com o tempo que passou desde a operação. Com o tempo, o corpo deixa de produzir espermatozoides e começa a produzir anticorpos que eliminam totalmente os espermatozoides. Após vários anos, mesmo que o corpo volte a produzir espermatozoides, podem não ser férteis, dificultando a gravidez.